religião e negócios

por Raoni Barros Bagno

Janeiro de 2020

Introdução

Ao longo do ano de 2019 e primeiros dias de 2020 tive a oportunidade de desenvolver um estágio pós-doutoral em uma das regiões mais profícuas do mundo em desenvolvimento científico e tecnológico. Fui recebido no Babson College, nos arredores da cidade de Boston, Estados Unidos.

Com seu campus principal na cidade de Wellesley, Massachusetts, o Babson College é um líder global em educação no campo do empreendedorismo e inovação. A instituição tem sido considerada a melhor escola de negócios para empreendedorismo dos Estados Unidos por mais de 20 anos pelo U.S. News & World Report e figura consistentemente na parte superior de vários rankings de avaliação de instituições de ensino norte-americanas como Financial Times, Forbes e Entrepreneur magazine. Fundado por Roger W. Babson em 1919, recentemente o Babson College chegou ao seu centésimo aniversário.

Os corredores do Babson College ecoam a todo momento termos como Machine Learning, planos de negócio, oportunidades, design thinking, blockchain, capital de risco, startups, e muitos outros. Quem é do ramo sabe do que estou falando. Empreendedorismo é basicamente o ar que ali se respira, as estruturas funcionam para ele como um templo moderno e as novas tecnologias e métodos o deixam mais tangível. Não há como passar por ali e ser indiferente a este ambiente intrigante e dinâmico. Olhando para suas origens e inspiração original, figuras de pessoas que contribuíram para com a trajetória da instituição são lembradas a todo momento nos nomes dos prédios, de organizações internas, eventos e concursos e homenagens em ocasiões especiais. Naturalmente, Roger Babson também se espalha pelo campus, desde sua estátua, quadros com fotos ilustrando fatos e pensamentos provocativos e até seu próprio túmulo. 

Vi este ambiente especialmente pulsante no ano de seu centenário. Contudo, uma desconfiança de que haveria mais riqueza e profundidade na contribuição do próprio Babson do que o que ali se destacava me provocou a conhecer um pouco mais sobre ele e, ainda mais, sobre os pensamentos que ele tinha na época de fundação dessa instituição. Buscando o que Babson havia produzido em forma escrita nesta época, deparei-me com um interessante livro – Religion and Business 1, ou, para nós, Religião e Negócios, publicado em 1920. Adquiri logo uma cópia física, mas os vários desafios de minha jornada não me permitiram debruçar sobre ela até as semanas finais de minha estada. Ao lê-la, contudo, senti-me impelido a preparar a presente resenha e compartilhar algumas ideias aparentemente soterradas, mas que continuam gritando pelos escombros.

Não me considero suficientemente habilidoso para gerar um texto deste tipo sem infringir alguma regra da boa escrita. Vou tentar usar verbos em tempos simples, mas deixar claro sempre que possível o que é a narrativa dele o que são minhas observações. Obviamente o relato é incompleto e refém dos meus olhos, que destacam ou saltam pontos conforme meus interesses próprios. Uma leitura direta da fonte original sempre será a melhor amostra.

Vale notar desde o início que Babson é as vezes um pouco rude em sua forma de colocar as coisas. Algo típico e talvez comum na visão de um empresário de sua época. Por vezes me senti relendo algumas coisas de Taylor ou Ford. Mas há também bastante ousadia – ele coloca de forma direta pontos polêmicos que um autor mais moderno talvez optasse por dar muitas voltas para expor em nome da boa estética. 

Outra ponderação necessária é que as coisas que coloco aqui nem sempre estão na ordem do livro. Às vezes Babson parece escrever como um livre pensador – volta em alguns assuntos já ditos ou espalha uma ideia ao longo de trechos distantes um do outro do livro. Procurei organizar a casa como melhor me pareceu.

Antes, contudo, de iniciarmos a navegar no livro em si, convido o leitor a vir comigo em um tópico mandatório se quisermos exercer um mínimo de exegese. Neste, falarei de maneira um pouco mais geral de Roger Babson e do contexto em que vivia. Após estes, farei uma exposição capitular do livro Religion and Business e agregarei algumas reflexões próprias em um tópico final. 

Roger babson

Um pouco sobre Roger Babson e o contexto em que vivia

Roger Babson, um cristão bastante compromissado, foi também um importante empreendedor norte-americano, economista e consultor de negócios. Apesar de seu forte interesse em negócios demonstrado desde a juventude, seu pai o direcionou para uma educação técnica rigorosa no Massachusetts Institute of Technology – MIT, realizada entre os anos de 1895 e 1898. À época, ele sentia que sua instrução era muito baseada naquilo que já havia sido alcançado ao invés de antecipar possibilidades futuras e considerava que seus professores haviam falhado em prever as grandes indústrias do século XX como a automotiva, aviação, cinematográfica, fonográfica e rádio 2

Uma característica marcante de Roger Babson era não recuar diante dos reveses. Em adição a suas buscas nas áreas de educação e negócios, Babson era ativamente engajado em religião, política e avanços científicos. Uma das grandes distinções de Roger Babson foi ter sido o primeiro analista financeiro a prever a quebra da bolsa de valores em outubro de 1929 à qual seguiu-se grande depressão na economia capitalista na década seguinte. Babson concorreu ainda à presidência dos Estados Unidos em 1940 pelo Partido da Proibição . Em um grupo de 8 candidatos, ele terminou em terceiro lugar, atrás de Franklin Roosevelt e Wendell Willkie. 

Ao longo de 33 anos, Babson escreveu 47 livros (incluindo sua autobiografia), cobrindo tópicos nas áreas de negócios, educação, saúde, indústria, política, religião, condições sociais e viagens 2. Tinha verdadeiro fascínio pela lei da ação e reação de Newton, a qual dizia ter transbordamentos para todos os campos da vida. Ao relembrar ensinamentos de Cristo como não julgue para não ser julgado ou ame ao próximo como a ti mesmo, Babson entende que tais noções nada mais são do que manifestações dessa lei, que seria então muito mais nobre e muito mais ampla que seu conceito no campo da física. Em 1949 ele viria a incluir tal lei no título de sua autobiografia: “Actions and reactions: an autobiography of Roger W. Babson”.

Ao longo de sua longa vida e muitas empresas, Roger Babson se destacava por prever e motivar mudanças, ao mesmo tempo em que se mantinha engajado com seus fundamentos espirituais e valores éticos. Segundo ele, não estaria em adquirir conhecimento a principal necessidade dos jovens para o alcance do sucesso. Antes, viriam qualidades básicas como integridade, imaginação, bom senso, autocontrole e uma disposição à luta e ao sacrifício. Muitas das pessoas já disporiam de muito mais conhecimento do que o que o que efetivamente usam, mas ainda careceriam de um caráter apropriado para possibilitar sua adequada aplicação. Assim, segundo ele, o sucesso real em negócios resultaria muito mais das qualidades acima mencionadas do que do dinheiro, títulos ou status social.  

Outro fascínio claro de Babson estava em falar sobre o futuro. Talvez motivado pela sua ligação com a estatística – em 1904 ele fundou a Babson’s Statistical Organization voltada à análise do mercado de ações e relatórios empresariais – ele gostava de exercitar habilidades preditivas baseadas em análises de dados. Como o próprio Babson escreve em um de seus livros, o futuro tende a repetir o passado se mantidas as mesmas condições. Não é, portanto, raro na lista de livros publicados por ele encontrar títulos como “O futuro de…”. Nestes livros Babson sempre mesclava espontaneidades de seu pensamento com inspirações trazidas pelos números com os quais gostava de lidar. 

Roger Babson tinha 45 anos quando escreveu Religion and Business. Nasceu em Gloucester, litoral norte do estado do Massachusetts, mas já morava em Wellesley Hills quando escreve o livro. A região, que inclui outros estados do nordeste do país, não é chamada de Nova Inglaterra à toa: a cidade de Boston foi fundada antes da revolução americana, é o grande centro regional e é temperada por um intenso sentimento de amor à pátria e ativismo sócio-político. Uma caminhada na famosa Freedom Trail e as camisas do Patriots (um dos maiores clubes da liga de futebol americano) espalhadas pela cidade são ilustrações destas características. 

Adicionalmente, o espírito industrial é marca registrada da região. Gloucester é exatamente o ponto final da rota 128 – famosa rodovia estadual que também cede o nome para um dos principais parques tecnológico-industriais do mundo. Formado pelas várias empresas e universidades espalhadas em seus arredores, a rota 128 já impulsionava a economia norte-americana muitas décadas antes de despontar o hoje famoso Vale do Silício, localizado da costa oposta 3. Em termos acadêmico-científicos basta dizer que a região é a casa de instituições como Harvard, MIT, Boston University, Northeastern University, além de várias outras vizinhas entre si por poucas milhas. Incluído aqui, obviamente, está o próprio Babson College na cidade de Wellesley.

Bom, estamos em 1920 e a primeira guerra mundial terminara há pouco. Naturalmente, muitas reflexões de Babson faziam também menção a questões da guerra e seus aspectos geopolíticos. No setor industrial, Ford T, o pioneiro veículo das linhas de montagem em série, ainda seria montado até 1927, mesmo ano de lançamento do filme Metropolis, famoso drama construído em torno de tensões entre o empresariado e a classe trabalhadora. Mais conhecido talvez seria o drama romântico de Chaplin em tempos modernos, mas este já é dos anos 1930 e já traz retratos da grande recessão econômica que Babson previra. Vale dizer que os sindicatos vinham se organizando aceleradamente desde o século anterior e sua força e poder de organização cresciam proporcionalmente ao crescimento da própria indústria e da concentração urbana.

religião e negócios

 

Religião e Negócios

Roger Babson prefacia o livro justificando o uso da palavra “religião”, dizendo não estar ele mesmo muito satisfeito com o termo para o qual ele atribui e desenvolve do longo do livro um significado bastante amplo, como veremos aqui. Ele reconhece que há muita religião fora das igrejas e que muitas outras organizações são geradoras de religião tanto quanto as próprias igrejas.

O autor usa com frequência um personagem genérico – o homem de negócios – para dizer em terceira pessoa suas impressões e talvez trazer impressões de seus colegas no mundo do business. De fato, Babson discursa na posição de um homem de negócios, um executivo, mas também como um cristão ativo e parte da membresia da igreja. Por vezes invoca ainda sua formação em estatística para realizar algumas afirmações (nem sempre baseadas em números) em que parece querer valer-se de um argumento de caráter mais científico. Estas perspectivas se alternam e às vezes debatem entre si ao longo do texto, o que dá o tom de sua dinâmica.

Iniciando com uma reflexão sobre o executivo em relação à igreja no primeiro capítulo, é destacado que este homem é por natureza desconfiado e detalhista dado o fato de que sua posição e propriedade estão em constante risco. Por estas características, a igreja não seria algo atrativo para o executivo típico daqueles tempos como se gostaria que fosse. Nas páginas que se seguem, Babson alterna visões críticas e entusiásticas da igreja.

Ressaltando a importância da igreja, o autor coloca que ela não é somente a maior indústria do mundo, mas também a mais antiga. Dela vieram educação, medicina, arte, agricultura, e a maior parte das ciências. Vários ramos da civilização moderna devem sua concepção à igreja. Contudo, da perspectiva de um homem de negócios, chama a atenção a ineficiência com a qual as igrejas operam. Abertas somente alguns poucos dias na semana, a taxa de uso de suas propriedades não passaria dos 10%. Os métodos de trabalho, incluindo as escolas dominicais – na visão de Babson uma base de treinamento imprescindível – seriam ultrapassados e contariam com professores destreinados e pouco experientes. Pouco do sistema típico das igrejas parece soar como algo sério na visão do executivo. Ainda assim, Babson enxerga a força da igreja ao argumentar que, se a igreja se mantém firme de pé mesmo com tantas falhas, é porque o que a sustenta deve ser muito mais forte do que aquilo que se vê na superfície. 

Um aspecto que incomoda o autor em especial é que, apesar de ser a grande instituição do mundo, a igreja sabe muito pouco a mais sobre Deus e suas ideias do que já sabia centenas de anos antes. Aqui o autor endereça um forte recado aos protagonistas de batalhas denominacionais – como poderíamos pressionar nossas ideias nos outros para que passem a ver as coisas como nós vemos se não sabemos praticamente nada sobre aquilo que estamos tentando impor? O assunto das questões denominacionais vem ganhar atenção em páginas posteriores da obra. Aqui ele invoca características da pessoa da Cristo, que condenou veementemente o criticismo injusto e salientou que poderíamos ferir fortemente aos outros com nossas línguas. Neste contexto, especial importância seria dada à confiança mútua, ao não julgamento e à consideração pelos outros. 

A implicação que Babson pretende trazer para seu debate sob o olhar do executivo é clara: seria incompreensível para este que algumas pessoas fossem tão minuciosas com relação a aspectos particulares da religião (e ele respeita a razoabilidade de tais minúcias), mas deixassem facilmente para trás as grandes questões fundamentais da justiça, generosidade e serviço que Jesus ensinara. Ele salienta, contudo, que não há mais e nem menos hipocrisia na igreja daqueles dias do que provavelmente haveria em qualquer outro tipo de organização. Um a cada doze seria a taxa de traidores na época de Cristo e se manteria assim para aqueles dias, tanto nas igrejas quanto em outros ambientes e organizações.

No segundo capítulo Roger Babson parafraseia um antigo dito que, em língua portuguesa, conhecemos como “pai rico, filho nobre, neto pobre”. A expressão sintetiza uma dinâmica familiar em que uma primeira geração constrói riqueza e seus filhos herdam essa riqueza. Contudo, estes não conheceram os percalços percorridos para atingir a riqueza e sem desenvolver caráter e habilidades necessários para gerenciá-la adequadamente, a perdem. A consequente pobreza passa então a ser a realidade dos filhos dos filhos da primeira geração. 

O ponto é que Babson usa a analogia para se referir não somente aos negócios, mas à caminhada das igrejas ao substituir a riqueza financeira na redação pelo apreço com as questões da fé – mas como o autor vê uma mente renovada pela religião como a mais preparada também para construir e desfrutar de sucesso nos negócios, seu raciocínio caminha junto nas duas dimensões. Prova disso é que ao final do capítulo ele afirma que há algo de errado se as igrejas são compostas somente de pessoas pobres e os mais ricos estão todos de fora – ao menos no contexto socioeconômico em que vivia. Ao final desta reflexão, ele não hesita em dizer que igrejas “meio mortas