Tech and Theology

 


Pode a filosofia da tecnologia contribuir para a teologia cristã?

Por Fernando Pasquini

Uma das coisas que aprendi na ABC² [1] é que podemos realizar diálogos muito proveitosos entre as áreas da fé e outras áreas de estudo acadêmico. Como professor de engenharia, tenho, desde então, procurado algumas pistas para um diálogo desse tipo entre as áreas da teologia e da tecnologia. Este texto pretende mostrar alguns resultados desse meu empreendimento, mas talvez sob uma direção diferente da normalmente encontrada. É muito comum encontrarmos uma perspectiva teológica sobre a tecnologia [2], ou seja, a teologia contribuindo para a tecnologia, mas o caminho contrário pode soar estranho, uma “modinha de nerd“, uma extravagância, uma perda de tempo ou até mesmo um equívoco. Pode uma reflexão sobre tecnologia oferecer novas perspectivas para a reflexão teológica?

É claro que podemos, neste texto, focar nas tecnologias em si e falar sobre as formas como a imprensa de Gutenberg contribuiu para a propagação das ideias da Reforma Protestante ou como teólogos podem usar softwares para fazer exegese bíblica. Talvez poucos discordem sobre esses assuntos, mas meu ponto aqui é ainda mais específico. Falo de contribuições no nível do pensamento, contribuições da filosofia da tecnologia ao pensamento teológico. Como tal, a filosofia da tecnologia é uma área consolidada muito recentemente na história (apesar de seus precedentes históricos) [3], e seu diálogo com a teologia tem sido, quando não unidirecional (ou seja, apenas a teologia contribuindo para a tecnologia), sujeito a muitos abusos e posições nada ortodoxas [4].

Assim, reconheço que isso precisa ser abordado com muito cuidado, e preciso começar fazendo várias ressalvas para evitar mal-entendidos. Creio que existem dois perigos comuns a qualquer tentativa de aproximação entre qualquer área acadêmica e a teologia:

  1. tentar reduzir um campo ao outro, prejudicando sua autonomia e
  2. deixar de dar primazia à teologia como disciplina que lida com o eterno, em contraposição ao temporal, assunto das outras disciplinas.

Explico melhor esses pontos ligando-os ao nosso contexto. Em primeiro lugar, quando se trata de avaliar as formas como a filosofia da tecnologia contribui para a teologia, devemos evitar quaisquer posicionamentos reducionistas e que usem algum tipo de metodologia tecnológica para tentar explicar e reduzir toda a teologia. Egbert Schuurman chamaria isso de tecnicismo e talvez isso possa ser encontrado em propostas todo-abrangentes como as “ciências do artificial” de Herbert Simon, a visão cibernética-sistêmica de Norbert Wiener (e outros estudiosos das Macy Conferences) ou mesmo o recente dataísmo de Yuval Noah Harari. Não obstante, é muito comum encontrar autores liberais e heterodoxos afirmando que a teologia precisaria ser “reformulada” à luz dos novos desenvolvimentos científicos e tecnológicos, e começam a negar doutrinas fundamentais da fé cristã. Não, quando falo de contribuições para a teologia, não me refiro a uma nova teologia, mas, talvez, a uma teologia enriquecida.

Em segundo lugar, conhecer a Deus a partir de suas obras requer sempre o cuidado de não confundirmos a criatura com o Criador. Há uma diferença significativa entre a teologia como aquilo que lida com o eterno e a tecnologia como aquilo que lida com o temporal, e Guilherme de Carvalho, por exemplo, alerta sobre risco de não darmos a primazia ao eterno [5]. Corremos o risco inclusive de esquecer o caráter provisório e, claro, até pecaminoso da tecnologia que observamos [6]. A tecnologia está em pecado; Deus não. Se misturarmos e projetarmos nossa tecnologia pecaminosa em Deus, pecamos contra a pureza de Deus. Assim, nesse ponto, precisamos de uma boa dose de uma filosofia crítica da tecnologia, como a obra de Jacques Ellul ou Martin Heidegger [7].

Mas apesar de todos esses perigos, eu ainda quero argumentar que, como área recente de investigação filosófica, a filosofia da tecnologia tem muitos pontos interessantes para enriquecer nossa forma de pensar sobre Deus e suas obras. O autor que gerou essa ideia em mim foi (é claro) Alister McGrath e sua proposta de uma teologia científica (inspirada também na obra Theological Science, de Thomas Torrance). Observe o que ele diz:

“A característica distintiva de uma teologia científica é a utilização crítica e positiva das ciências tanto como um comparativo, quanto como um auxiliar à atividade teológica, vista numa perspectiva da integração intelectual com a realidade como um todo.” [8]

Agora, releia a frase acima de troque “científica” por “tecnológica” e “ciências” por “tecnologias”. Essa é a ideia. Uma teologia tecnológica pode ser um ótimo comparativo e um auxílio à atividade teológica, tendo em vista que todas as obras de Deus falam algo sobre ele. No caso da ciência, que lida com o mundo natural, isso é bastante óbvio, mas a tecnologia também pode ter algo a dizer uma vez que se volta para a atividade do homem, criatura e imagem de Deus.

Você duvida disso? Observe o texto de Isaías 28.27-29 (ênfase minha):

Porque o endro não se trilha com instrumento de trilhar, nem sobre o cominho se passa roda de carro; mas com vara se sacode o endro, e o cominho, com pau. Acaso, é esmiuçado o cereal? Não; o lavrador nem sempre o está debulhando, nem sempre está fazendo passar por cima dele a roda do seu carro e os seus cavalos. Também isso procede do SENHOR dos Exércitos; ele é maravilhoso em conselho e grande em sabedoria.

Por que não poderíamos observar a atividade técnica do homem e perceber as maravilhas e grandeza de Deus sendo que o próprio profeta bíblico fez isso?


Tendo, assim, oferecido minhas justificativas e cuidados, resta a pergunta: por onde poderíamos começar uma teologia tecnológica? Ofereço a seguir o que entendo que sejam dois pontos de partida, e faço uma exploração bastante inicial, porém que já pode motivar alguém a explorar o assunto.

A) Criação e subcriação: Deus como engenheiro

Penso que um primeiro ponto a ser trabalhado em uma teologia tecnológica seria a analogia do Criador como um engenheiro. A ideia me surgiu a partir do raciocínio de Dorothy Sayers em A Mente do Criador [9]. Segundo ela, da mesma forma como dizemos que um bom pai nos diz algo sobre Deus como nosso Pai, também deveríamos atentar para bons criadores e ter uma ideia melhor de Deus como Criador. A ênfase da autora se volta para a criação artística, no entanto, nada impede que possamos pensar na criação de artefatos tecnológicos. Sayers inclusive se propõe a explorar um modelo trinitário para a atividade criativa, identificado em uma boa criação os elementos de Ideia, Energia e Poder. Também, segundo ela, uma criação ruim pode refletir muito facilmente uma heresia trinitária, ao excluir ou reduzir um ou mais dos três elementos. Por exemplo, um artista que tem uma grande ideia, mas não consegue concretizá-la (ou seja, sem a Energia) é correlato a um gnóstico ou unitarista; ou um artista com muita habilidade, mas nenhuma Ideia original e discernível é correlato a um ariano. Assim, poderíamos pensar: haveria correlatos na área da engenharia? Como bons engenheiros refletem a Trindade e como maus engenheiros refletem heresias cristãs?

Além disso, poderíamos perguntar: faz sentido pensar na criação como uma obra de engenharia? [10] De fato, essa analogia já foi usada muitas vezes, e talvez até abusada, como mostra o debate entre mecanicistas e vitalistas no século XVIII. Mais uma vez aqui cabe o alerta sobre a limitação de nossas analogias (que a própria Dorothy Sayers faz), e o perigo de confundirmos a criação com o Criador, ou mesmo a criação de Deus com a nossa criação. Existe uma grande diferença entre criação e subcriação, e talvez esse seja exatamente um dos pontos nos quais uma filosofia da tecnologia possa contribuir para a compreensão da atividade do homem como imagem de Deus.

B) Utilidade e instrumentalidade: o drama da tecnologia

Alister McGrath passa uma boa parte de sua teologia científica discutindo como os conceitos da ciência podem contribuir para ideias sobre a verdade e a realidade. Já na tecnologia, creio que estamos lidando mais com aquilo que é útil ou, para utilizar a tríade clássica do verdadeiro, belo e bom, poderíamos relacionar a tecnologia ao bom [11]. O que é bom? O que é útil? Reconheço que pode haver uma diferença grande entre o bom e o útil, e por isso creio que uma teologia tecnológica não seja a única que possa compreender a ideia do bom – outras disciplinas acadêmicas podem também fazê-lo; e talvez todas aquelas que Mortimer Adler, por exemplo, associa a disciplinas práticas (em contraposição às teóricas): política, economia, medicina, agricultura, etc.

No entanto, se relacionarmos tudo isso à teologia, pode ser que uma filosofia da tecnologia nos auxilie na área de teologia prática, ajudando-nos a entender tanto as ações humanas como as divinas, e a cooperação entre esses atores para alcançar determinados propósitos. Nesse sentido, o conceito de instrumentalidade é tanto explorado na filosofia da tecnologia como na teologia, e muito pode ser aproveitado por ambas as partes. Deus usa pessoas e circunstâncias como instrumentos para seus propósitos (como barro nas mãos de um oleiro, como em Jeremias 18), assim como também usamos nossos instrumentos, por exemplo, para diversas finalidades (incluindo nossos membros, para iniquidade ou justiça, como diz Paulo em Romanos 6.13). Além disso, a própria Bíblia utiliza vários instrumentos e artefatos como analogias para realidades tecnológicas. A Palavra de Deus é lâmpada para os nossos pés (Salmo 119.105) e a igreja é um edifício dedicado ao Senhor (Efésios 2.21).

Uma das áreas de investigação da filosofia da tecnologia é a compreensão da função dos artefatos e sistemas tecnológicos. Maarten Verkerk, por exemplo, comenta que “o relacionamento entre estrutura, função e artefato faz surgir inúmeras questões. Que conexão há entre estrutura e as distintas funções e propriedades de um artefato?” [12]. Talvez possamos pensar em função como a imaginação ou conceituação de uma transformação na realidade por meio de uma operação material. Isso, pelo menos, se aproxima da forma como Bruno Latour e Madeleine Akrich propõem a ideia de tecnologias como possuindo scripts. Ou seja, uma descrição implícita de atores, ações, contextos e uma certa tradução de intenções. Para que uma finalidade A seja cumprida, uma certa ação B precisa ser realizada por meio do instrumento (por exemplo, a ação “mate alguém”, no caso de uma arma de fogo, é traduzida em “mire a arma e aperte o gatilho”) [13]. Assim, segundo os autores (e, mais recentemente, Peter-Paul Verbeek), por causa desses scripts, nossas tecnologias também moldam nossos imaginários sociais acerca daquilo que pode ser ou não pode ser feito ou alcançado. Segundo Verbeek, nossas tecnologias materializam nossa ética.

Ora, onde mais, na área da teologia, podemos encontrar ideias de script? Se você já ouviu falar da ideia de teodrama em von Balthasar e, mais recentemente, Kevin Vanhoozer, talvez seja possível fazer certas ligações. Segundo Vanhoozer [14], a própria Bíblia nos oferece um script que molda nossos imaginários e, assim, nos oferece uma ideia sobre o que podemos e não podemos fazer em mundo onde todas as coisas estão encontrando seu pleno cumprimento na pessoa de Cristo [15]. A narrativa cristã diz algo sobre nossos papéis, ou talvez, nossas funções dentro da realidade. A partir daí, portanto, como podemos situar nossas tecnologias (e vidas) como subfunções dentro da Grande Função de Deus, em Cristo, redimindo todas as coisas? Quem sabe uma filosofia da tecnologia não poderia fornecer insights, neste ponto, sobre relações parte-todo e integração de sistemas?

***

Vou parar por aqui. Há muito a explorar, e quem se interessar pode se sentir à vontade para entrar em contato comigo pelo e-mail fernandopasq@gmail.com

 


[1] Como na palestra de Guilherme de Carvalho “A Teologia Pública de Kuyper e o Campo Científico” (https://www.youtube.com/watch?v=Q95uf30YB-8)

[2] Duas obras que recomendo a esse respeito são Brent Waters, From human to posthuman: Christian theology and technology in a  postmodern world (Routledge, 2016) e Paul L. Dunham, The meaning of technology: A theology of technique in Jacques Ellul (West Virginia University, 2002).

[3] Para uma visão geral da área, de sua história e pensadores principais, vide Carl Mitcham, Thinking through technology: The path between engineering and philosophy (University of Chicago Press, 1994).

[4] Brent Waters (em From Human to Posthuman), por exemplo, discute as teologias de autores como Arthur Peacocke, Pierre Teilhard de Chardin, Philip Hefner e Gordon Kaufman e as classifica como teologias pós-modernas, que se desviam radicalmente da cristologia bíblica.

[5] Veja suas reflexões neste texto: https://guilhermedecarvalho.com.br/2017/02/10/para-alem-do-integral-o-eterno/ e em sua palestra “A Missão Cristã e a Linguagem da Transformação” (https://www.youtube.com/watch?v=dOm763PqqYk)

[6] Infelizmente, temo que essa crítica também pode ser feita a muitas tentativas de teologias científicas que, às vezes, podem chegar até a (implicitamente) confundir ciência com natureza, esquecendo-se do caráter provisório e a própria extensão do pecado no conhecimento e atividade científica.

[7] Ainda assim, acredito que essa filosofia crítica ainda pode ter contribuições teológicas, mostrando, por exemplo, a extensão da Queda sobre as atividades humanas. Ellul é muito bom nisso.

[8] Alister McGrath, A Ciência de Deus: uma introdução à teologia científica (Ultimato, 2016).

[9] Dorothy Sayers, A Mente do Criador (É Realizações, 2016).

[10] Essa notícia já é um pouco antiga, mas observe um fato curioso: cientistas descobriram uma estrutura de “engrenagens mecânicas” no salto de alguns insetos: https://www.cam.ac.uk/research/news/functioning-mechanical-gears-seen-in-nature-for-the-first-time

[11] Isso inclusive nos faz pensar em uma teologia artística, lidando com a questão da beleza, o que, de fato, já vem sido desenvolvido há vários séculos, como resumido na obra de Hans Urs von Balthasar (The Glory of the Lord: A Theological Aesthetics, Ignatius Press, 2009).

[12] Maarten J. Verkerk et al. Filosofia da Tecnologia: uma Introdução (Viçosa, Minas Gerais: Ultimato, 2018), p. 110.

[13] Para uma descrição sucinta e didática sobre o conceito de scripts em Latour e Akrich, vide Peter-Paul Verbeek, “Materializing morality: Design ethics and technological mediation.” Science, Technology, & Human Values 31.3 (2006): 361-380.

[14] Vide suas obras O Drama da doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã (São Paulo: Vida Nova, 2016) e Encenando o drama da doutrina: teologia à serviço da igreja (São Paulo: Vida Nova, 2016).

[15] Outra palavra que pode ser usada aqui é ritual. Nossas tecnologias prevêem rituais de uso e, portanto, também consistem em liturgias culturais, conforme a definição de James K. A. Smith e sua proposta de uma filosofia da ação cristã. Vide Imaginando o reino: a dinâmica do culto (Vida Nova, 2019).

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