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Maior do que pensamos

Maior do que pensamos

A doutrina da criação é mais profunda do que apenas uma explicação de como o mundo começou.

DAVID WILKINSON*/ Tradução Tiago Pereira

 

Foi um momento de crise na minha fé. Como jovem estudante de doutorado em astrofísica, eu tinha acabado de ler um trabalho de Stephen Hawking que acabaria entrando em seu clássico Uma Breve História do Tempo. Até este ponto da minha vida cristã, eu havia confiado em um argumento sólido para usar com meus amigos ateus. Em resposta a: “O universo começou com um Big Bang”, eu rebatia com: “Mas quem começou tudo isso – quem acendeu a explosão?” E, na época, a ciência parecia apoiar minha resposta: não havia como combinar a teoria quântica e a relatividade e, portanto, não havia como descrever o primeiro momento do universo.

Hawking, no entanto, estava especulando sobre como o universo poderia ter acendido seu próprio Big Bang. Se isso fosse verdade, eu não precisava mais de um Criador? Perguntei a Sir Robert Boyd, um importante físico cristão, se Hawking poderia estar errado. Sir Robert simplesmente respondeu: “O Criador bíblico não precisa se esconder em pequenas lacunas da ciência.”

A doutrina cristã da Criação tem sido muitas vezes deturpada por controvérsias sobre a idade do universo. Ela foi esvaziada pela teoria de que Deus simplesmente dá ignição no universo e depois sai para uma xícara de café, nunca mais tocando sua obra-prima. É interessante que os ataques à crença em um Criador, seja de Hawking, de Richard Dawkins em Deus, um Delírio, ou de Lawrence M. Krauss em Um Universo Que Veio do Nada, tenham como alvo essa divindade diminuída. Mas a Bíblia tem uma compreensão muito maior de Deus como Criador. Não somente a doutrina da Criação aparece nas Escrituras além de apenas Gênesis 1, como a atividade criativa de Deus permeia todos os momentos da história do universo.

Minha crise de fé induzida por Hawking estimulou-me a ir além de um “Deus das lacunas” – uma divindade encolhida utilizada apenas para preencher quaisquer bolsões de mistério remanescentes que a ciência ainda precisa esclarecer. De fato, tenho experimentado que recuperar a doutrina da Criação em sua plenitude bíblica nos aponta para uma compreensão muito mais excitante da criação. Ela nos aponta em direção a um Deus para quem a ciência é uma dádiva e não uma pedra de tropeço. E talvez o mais importante, ela aponta para um Deus Criador que é digno de adoração, satisfação e confiança.

Deixe-me identificar um número de temas dentro da Bíblia que foram fundamentais na história cristã para entender este Deus Criador.

Uma Doutrina Dinâmica e Prática

Primeiro, a doutrina cristã da Criação nunca é um conceito acadêmico abstrato. O pensamento ocidental ama uma compreensão filosófica simples das coisas. Mas a Escritura emprega uma rica diversidade de estilos ao discutir a criação. Mesmo dentro do Antigo Testamento, os textos relevantes (Gênesis 1-3, 9:8-17; Provérbios 8:22-36; Salmos 8, 19 e 148; Jó 38-42; Isaías 40:9-31) utilizam uma ampla gama de estilos, oriundos da sabedoria e das tradições proféticas. Essa diversidade atesta a natureza dinâmica e prática da doutrina. As discussões bíblicas sobre a Criação sempre têm um propósito maior: inspirar a adoração, encorajar os fracos, chamar à santidade e oferecer segurança em momentos difíceis. Muitas vezes os cristãos se esqueceram disso, especialmente quando reduziram as narrativas da criação a tentativas de provar textualmente a existência de Deus. Os cristãos têm discordado, por exemplo, da natureza histórica dos primeiros capítulos do Gênesis. Fico entristecido, entretanto, que tal controvérsia tenha obscurecido seu poder como hinos de louvor, capazes de nos inundar em admiração diante de um Deus tão maravilhoso.

O teólogo anglicano Dan Hardy escreveu certa vez que, no fundo, a ação de Deus na criação exige uma resposta de adoração. O chamado para a adoração está escrito na própria estrutura do universo. À luz disso, precisamos evitar que as discussões sobre a Criação se afastem de suas implicações para a adoração e a maneira de viver. Agora, é claro que isso não impede que os cristãos participem ativa e entusiasticamente de debates científicos e apologéticos. Mas a exploração científica das origens nunca pode ser conduzida apenas por si mesma. Em outras palavras, precisamos ser muito cuidadosos para nos concentrarmos no Criador – não apenas na criação.

Olhe para jesus

Em segundo lugar, a doutrina cristã da Criação tem Cristo no centro. Concentrar-se no Criador coloca a questão fundamental de como esse Criador é conhecido. Em Colossenses, Paulo é explícito ao dizer que o Deus Criador é conhecido soberanamente em Cristo. Jesus é a “imagem do Deus invisível” (1:15), a projeção do próprio Deus no espaço e no tempo de uma maneira que revela sua verdadeira natureza. Para saber, então, como é o nosso Criador, os cristãos devem olhar para Jesus. No terceiro volume de sua Dogmática Eclesiástica, Karl Barth coloca isso claramente: “Creio em Jesus Cristo, nosso Senhor, o Filho de Deus, a fim de perceber e compreender que o Deus Todo-Poderoso, o Pai, é o Criador do céu e da terra. Se eu não acreditasse no primeiro, não conseguiria perceber e entender o último.”

Isso significa que eu não preciso provar Deus através de algum tipo de argumento lógico. Na verdade, esse tipo de argumento é sempre vulnerável a alguém como Hawking, que encontra uma maneira científica de contorná-lo. Isso foi exatamente o que aconteceu com Charles Darwin. Muitos cristãos colocaram sua fé no axioma de que um objeto criado – seja um único relógio ou um mundo inteiro – implica um criador. Quando Darwin sugeriu que a seleção natural explicava melhor o mundo biológico do que o projeto de Deus, eles se sentiram muito ameaçados. Aqueles cuja fé se originou da revelação bíblica ficaram muito mais relaxados.

Minha crença na existência e natureza de um Deus Criador vem de sua própria auto-revelação em Jesus. Esta é uma advertência para os cristãos que querem usar a ciência como uma estratégia evangelística, seja através do criacionismo ou do design inteligente. Precisamos, é claro, falar com integridade sobre a relação entre ciência e fé. E, de fato, pode haver indicadores para Deus embutidos na criação: sua beleza, sua imensidão extraordinária, sua hospitalidade bem afinada para várias espécies. Mas qualquer apologética que parta da doutrina da Criação deve ter um lugar chave para Jesus. Não será suficiente procurar lacunas no relato científico em que Deus possa ser espremido. A ciência moderna, em suas especulações sobre a inteligibilidade do universo ou a origem das leis da física, levanta questões que estão além de sua capacidade de responder. Os cristãos devem expor, e refutar, o ateísmo insustentável que comumente resulta disso. Mas nós nunca podemos isolar nossos esforços nesta área de um Deus Criador que se revela em Jesus.

Sem parceiro ou concorrente

Terceiro, a doutrina cristã da Criação afirma que Deus é o único criador do universo. Ou seja, ele é sem igual ou concorrente. A crença de que Deus é a fonte de toda a criação se desenvolveu no conceito de creatio ex nihilo, que significa “criação a partir do nada”. Em outras palavras, Deus poderia criar livremente, sem restrições pelas limitações da matéria pré-existente. Se todo o universo material é criado por Deus, então a ciência – a investigação desse universo e a descoberta de seu funcionamento – é confirmada. De fato, muitos historiadores da ciência diriam que a doutrina cristã da Criação foi fundamental no desenvolvimento da ciência moderna. No cerne do método científico está a observação da natureza, algo que a doutrina da Criação encoraja positivamente. Uma vez que este mundo é obra das mãos de Deus, então o reino criado deve ser observado com temor e admiração. E se o Criador e a criação são distintos um do outro, podemos investigar livremente as operações da natureza em vez de adorar cegamente a própria natureza.

Além disso, Deus não é apenas o único criador, mas também o único sustentador do que ele criou. Como astrofísico, essa sempre foi uma importante visão para mim. A simplicidade das leis físicas subjacentes à complexidade do universo é uma das características marcantes da ciência moderna. Em Colossenses, Paulo proclama que em Jesus “todas as coisas subsistem” (1:17). O universo é coeso de maneira surpreendente, não apenas por meio de “leis” físicas impessoais, mas através da atividade sustentadora de Deus. A ciência só é possível por causa do trabalho contínuo de Jesus.

Visto, então, através das lentes da doutrina da Criação, a ciência e a tecnologia emergem não como antagonistas da fé, mas como dons de Deus. Aqueles que exploram a ordem do universo (como os cientistas) e aqueles que a manipulam e reconfiguram (como os engenheiros) o fazem por causa de Deus, independentemente de reconhecê-lo ou não. A ciência e a engenharia podem, de fato, ser vistas como ministérios cristãos. O astrônomo alemão Johannes Kepler, em 1595, escreveu para Michael Maestlin, um de seus professores, que ele havia se afastado de uma vocação como teólogo, porque “através do meu esforço, Deus está sendo celebrado na astronomia”. Da mesma forma, precisamos encorajar os crentes cristãos a ver a ciência como uma vocação cristã, em vez de uma ameaça secular.

O Criador é também o Redentor

Quarto, a doutrina cristã da Criação precisa ser vista à luz da realidade da nova criação. Para entender completamente uma história, você precisa do começo e do fim. O mesmo é verdade com o entendimento cristão da Criação. Quando consideramos a narrativa bíblica como um todo, vemos que o Criador também é o Redentor. O trabalho de Deus não termina em Gênesis. O agente da criação é também o objetivo para o qual a criação tende, seu propósito escatológico. O Antigo Testamento identifica o Deus de Israel, aquele que libertou seu povo da escravidão no Egito, como o mesmo Deus que criou todo o universo (Isaías 40:12-31). O Novo Testamento leva esse tema muito além, vendo aquele que morre na cruz como aquele que trouxe as estrelas para o espaço.

Se o mesmo Deus que criou o mundo o redimiu, então a criação, apesar de sua atual sujeição ao pecado e à decadência, deve, em última análise, ser boa. Caso contrário, não valeria a pena redimi-la. E se a criação foi redimida, então podemos esperar por uma nova criação, o “novo céu e nova terra” descrito em Apocalipse 21. A esperança não é de Deus reconstruindo a criação do nada, ou nos ajudando a escapar em algum tipo de estado imaterial desencarnado. Não, nossa esperança final é pela completa transfiguração e realização da presente criação em tudo o que foi originalmente destinada a ser. Dada a sua condição redimida e prometida transformação, a ordem criada não deve ser menosprezada como ruim ou sem importância, mas antes, deve ser cuidada, respeitada e desfrutada.

O dom do relacionamento

Quinto, a doutrina cristã da Criação mostra que a humanidade tem a capacidade de um relacionamento íntimo com Deus. A questão do que torna os humanos especiais é uma das questões centrais da cultura contemporânea. E por causa dos avanços na inteligência artificial, na compreensão do cérebro humano e das capacidades dos animais, e o desenvolvimento do Projeto Genoma Humano, essa questão pode parecer mais incerta do que nunca. Os teólogos tradicionalmente têm considerado o fato de possuir uma alma imaterial e portar a imagem de Deus como marcas da singularidade humana. Na linguagem e no contexto do antigo Oriente Próximo, o conceito de imagem refere-se menos aos traços característicos da humanidade do que ao seu lugar distinto dentro da ordem criada. Portar a imagem de Deus é mais sobre o relacionamento com Deus do que qualquer atributo humano específico ou padrão de comportamento.

Segundo as histórias babilônicas da Criação, o papel dos humanos era simplesmente servir aos deuses. Mas a Bíblia vê a humanidade de uma maneira muito diferente. A humanidade é aquela parte da Criação que é capaz de apreender conscientemente – e de responder – o seu relacionamento com o Criador. Esse relacionamento envolve compartilhar o domínio criativo e sustentador de Deus e, assim, agir como representantes visíveis de seu cuidado benevolente pela criação.

Tudo isso acrescenta uma nova dimensão ao nosso pensamento sobre a atual crise ambiental. Se ser feito à imagem de Deus envolve administrar o mundo natural, precisamos administrar à semelhança de Cristo, como servos, e não como ditadores. Como cristãos, podemos compartilhar com toda a humanidade a preocupação de preservar o meio ambiente para as futuras gerações. E podemos compartilhar com outras comunidades de fé um sentimento de preservar a Terra como um presente divino. Mas devemos querer ir além e proclamar a responsabilidade ambiental como consequência de viver sob o senhorio de Cristo.

É impressionante que Gênesis 1 não termine na criação de Adão e Eva, mas no dia de sábado em que, como diz o teólogo escocês David Fergusson, “toda a criação glorifica seu criador”. Isto é, repousar, regozijar-se e viver o louvor a Deus do sábado é considerado na Escritura como o ápice da existência terrena – o propósito para o qual foi trazido à existência. Visto dessa maneira, nós humanos somos chamados não apenas a “usar” a realidade material para nossos próprios fins, mas a santificá-la, a reverenciá-la como dom de Deus, a trabalhar para seu florescimento e, dessa maneira, a ser vice-reis do mundo sobre o qual Ele graciosamente governa.

Na doutrina cristã da Criação, encontramos, portanto, um tema comum. O sentido do universo não pode ser encontrado em uma força cósmica impessoal, ou em uma teoria matemática, ou em uma abstração filosófica. Em vez disso, é encontrado em um Deus pessoal que quer relacionamentos com seres humanos. Ser humano é receber o dom do relacionamento, de amar e ser amado pelo Deus que o criou.

*David Wilkinson é professor no Departamento de Teologia e Religião e diretor do St. John’s College, na Universidade de Durham.

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