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Sendo um cristão na Matemática – via Christians in Science

Sendo um cristão na Matemática – via Christians in Science

 

Estudando matemática como um cristão

 

Sobre os autores:

Paul Roberts – Originalmente do condado de Dorset, no sul da Inglaterra, Paul é estudante de doutorado do Departamento de Matemática da Universidade de Oxford. Trabalhando no campo da biologia matemática, sua pesquisa aborda a modelagem matemática da retina humana saudável e doente. Se converteu aos doze anos e seu tempo na universidade tem sido encorajador e desafiador, devido ao reconhecimento da relevância de Jesus Cristo no todo da vida (inclusive na matemática!). Ele é membro da St. Ebbe’s Church, Oxford.

Samuel Cohen – Sam estudou matemática e finanças em Adelaide (Austrália), finalizando seu doutorado em matemática em 2011. Atualmente é professor Associado em Finanças Matemáticas em Oxford. Nãoo se sentindo nem matemático puro nem aplicado, trabalha em problemas na intersecção da teoria de probabilidade analitica, controle estocástico, e estatística, frequentemente motivado por financas. Sam cresceu em uma família Cristã, e reconhece Jesus como Senhor desde suas primeiras lembranças. Ele é casado com Juli, tem tres criancas. Frequenta a St. Ebbe’s Church.

 

Matemática como um chamado 

Deus chama cristãos não apenas do mundo, mas para irem ao mundo, servindo-O em nossa vida diária. Em parte, e através do nosso trabalho que obedecemos o mandato da criação para encher e subjugar a terra (Gen 1:28); continuando, em certo sentido, o ato de criação de Deus. Citando Huldrych Zwingli, ‘não há nada no universo tão parecido com Deus como um trabalhador’. Esta verdade se aplica a todas as formas de trabalho, incluindo matemática.

Na narrativa bíblica, enquanto Adão estava  no recém-criado Éden, Deus lhe trouxe cada um dos animais que Ele havia criado, para ver o nome que Adão daria a cada um deles (Gen 2:19-20). O ato de nomear envolveu tanto a descoberta da forma e tipo da criatura, quanto a criatividade de escolher um nome que se adequasse àquela descoberta. Como matemáticos, nós continuamos a empregar nossa criatividade, na medida em que procuramos, determinamos e descrevemos a estrutura racional dos reinos físico e abstrato.

Um retrato recente do matemático Sir Andrew Wiles (do famoso Último Teorema de Fermat) o pinta com uma luz azul clara, escolhida pela conveniência do artista para dar à matemática um impressão de ‘disciplina austera’. Muitos sentem que a matemática é uma busca intelectual fria e desprovida de paixão. No entanto, como aqueles que fazem parte da comunidade matemática sabem, este pensamento não poderia estar mais distante da verdade. Quando questionados sobre a motivação de estudarem o assunto, muitos grandes matemáticos simplesmente respondem ‘porque é divertido!’. Existe uma grande satisfação tanto no objeto de estudo quanto no próprio ato de estudar matemática.

Na sua parte mais central, matemática é sobre encontrar padrões e conexões. Isto é verdade tanto para matemática pura quanto para matemática aplicada, embora de maneiras/formas diferentes. Explicando de forma grosseira, a matemática ‘pura’ procura desvendar sistemas abstratos consistentes, baseados em um conjunto de axiomas, enquanto matemáticos ‘aplicados’ constroem e analisam modelos, em um esforço para determinar padrões inerentes no mundo físico. Em cada caso, nos movemos do particular para o universal, procurando princípios abrangentes que englobam cada exemplo. Quanto mais simples e menos restrito forem os nossos teoremas ou modelos, melhor. Em uma ocasião onde uma regra ou modelo particularmente simples captura um sistema complexo, então o resultado é considerado elegante ou bonito. Esse senso estético, desejo por beleza, é uma forca motriz para o matemático.

Talvez não seja nenhuma surpresa que a procura por beleza tenha um papel tão importante no empreendimento matemático. Quando Deus criou o mundo Ele declarou que o mundo era ‘bom’ (Gen 1). Portanto, mesmo depois da queda, nos devemos esperar do universo, pela graça de Deus, beleza. Nós podemos ter uma expectativa similar a respeito das verdades matemáticas abstratas, as quais foram concebidas por Deus muito antes de qualquer mente humana tentar compreendê-las. E na medida em que procuramos verdades matemáticas e nos maravilhamos com elas, nós matemáticos, servimos e adoramos a Deus.

Nesta seção nós examinamos alguns dos desafios existenciais, epistemológicos e morais enfrentados por cristãos na matemática.

 

Matemática e Cristianismo – Desafios em comum

Qual é o Ponto?

Mesmo que nós apreciemos fazer matemática, frequentemente seu valor não é claro para nós. Isto é, em parte, um desafio enfrentado por todas as vocações ‘seculares’. Se, em um dado momento, cada membro da raça humana está “avançando ou para o céu ou para o inferno” (Learning in War-Time, C.S. Lewis), como nós podemos gastar nosso tempo em algo tão trivial como a matemática? Nossos dias não seriam melhor aproveitados se fossem missionários em tempo integral, evangelistas ou trabalhadores da igreja?

A resposta está em nossa natureza e em nosso chamado (veja a seção anterior). Está na nossa natureza entender o mundo que nos cerca e “Deus não cria apetites em vão” (LWT, Lewis). O cristianismo não substitui a nossa antiga vida de trabalhador por uma nova, mas ao invés disso ele explora essa vida de trabalhador para os propósitos de Deus, de uma forma que todo trabalho se torna espiritual quando feito ‘para o Senhor’ (Col 3:23). Portanto, o papel preciso do nosso trabalho no plano de Deus pode não se tornar aparente até muito tarde; confiando que o nosso trabalho tem um valor verdadeiro e eterno (1 Cor 3:10-15, Col 3:23-24). Nós também devemos nos lembrar que somos chamados não apenas como indivíduos, mas como comunidade (Ef 2:11-22). Ninguém é chamado para fazer tudo; pelo contrário, cada membro tem um papel diferente a desempenhar no corpo de Cristo (1 Cor 12:12-31).

Apesar do papel desempenhado pelos matemáticos no plano de Deus não pareça sempre claro, a pertinência do assunto é visível. A matemaática provê uma maneira altamente rigorosa de entender a realidade e é a única forma de ter acesso às verdades matemáticas puras. Em matemática aplicada, modelagem matemática trabalha em paralelo com experimentos, guiando estudos empíricos e respondendo questões que não poderiam ser respondidas somente pelos experimentos, frequentemente devido a não linearidade intrínseca de um sistema. A matemática também nos fornece alicerces teóricos e ferramentas em muitas outras áreas da ciência, como pode ser visto claramente na física teórica e na química.

 

Como a matemática está relacionada com o Messias?

Para cristãos trabalhando em ciências físicas e da vida, o desafio enfrentado em relacionar sua fé e seus estudos encontra-se em superar a percepção popular de que eles estão em conflito. No entanto, para muitos matemáticos, o problema é que parece não existir um ponto de contato entre os dois. Se Jesus interrompeu seu Sermão do Monte para dar uma excelente aula sobre equações quádricas, então isto se perdeu no decorrer do tempo. A matemática é tão abstrata e afastada das esferas do dia a dia que é difícil ver como nossa fé poderia causar um impacto em nossos estudos ou vice-versa.

Talvez a melhor forma de começar seria levantando uma questão bastante simples, ‘por que a matemática é tão efetiva em descrever o mundo?’ (ver Wigner, 1960). É fácil, no século 21, tomar por certo que as leis físicas podem ser descritas matematicamente, mas a priori não é óbvio que este deveria ser o caso.

Muitos pensadores tentaram, e falharam, em resolver este problema. Para empiristas, como David Hume, todo conhecimento é derivado da experiência sensorial. Como causalidade não pode ser observada pelos sentidos, somente uma sucessão de eventos, as leis de causa e efeito, se existirem, são fundamentalmente irreconhecíveis ou simplesmente ilusórios. Para racionalistas, como Immanuel Kant, a ordem que vemos no mundo é imposta pela mente, em vez de ser uma representação da maneira que o mundo realmente é. Assim, enquanto leis naturais possam ser universalmente verdadeiras, elas não são nada mais do que estruturas de pensamento dentro da mente humana.

Cada uma das abordagens apresentadas acima se inicia com um fenômeno fundamental. Ambas, experiencia ou ideias intrínsecas tentam construir um corpo de conhecimento sobre elas, em uma maneira reminiscente de Babel (Gen 11), por meio da razão humana autônoma. Como tais, cada uma é fadada ao fracasso. Em vez disso, devemos começar com a revelação. O teísmo cristão, com suas doutrinas da criação a partir do nada (ex nihilo) e do homem à imagem de Deus (imago dei), fornece uma explicação convincente para a ligação existente entre a mente humana e o mundo externo (Gen 1:1, 26-27, Jo 1:1-3). Se o universo foi criado e é mantido por um Deus fiel que estabeleceu suas leis, então nós podemos esperar que ele se comporte de uma maneira regular de acordo com essas leis. Mais ainda, se nós fomos criados à semelhança de Deus, então nossas mentes se assemelham à mente daquele que criou o universo, compartilhando, até certo nível, sua racionalidade. Portanto, nos podemos esperar que as leis da natureza serão racionalmente inteligíveis para nós, o que é a essência das nossas formulações matemáticas.

Finalmente, visto que Deus criou o universo livre, estas leis são contingentes, isto é, elas poderiam ter tomado outras formas. Consequentemente, nos podemos examinar o mundo para determinar qual dentre todas as leis matemáticas possíveis Deus escolheu usar.

 

Sobre Vetores e Virtudes

Como cristãos, nós deveríamos buscar cultivar todas as virtudes bíblicas, mas duas que talvez sejam especialmente relevantes para os matemáticos são aquelas da humildade e honestidade. Como apontado anteriormente, nos devemos aceitar humildemente e se alegrar com a possibilidade de não conhecermos nesta vida como o nosso trabalho vai contribuir para o plano de Deus na história. Também é importante que mantenhamos uma humildade epistêmica, reconhecendo que existem outros tipos de verdades e.g. científica, histórica, ética e estética, cada uma delas com suas distinções, mas modos de pensar igualmente válidos, e que nenhum conhecimento é possível separado de Deus, sem o qual nós nada podemos fazer (Jo 15:5). Em segundo lugar, nós somos chamados para adorar a Deus em espírito e em verdade (Jo 4:23). Portanto, nós deveríamos ser cuidadosos para apresentar nossos resultados, não exagerando seu significado e aceitando o crédito apenas do que é devido.

 

A Aritmética da Apologética

Finalmente, como Abraham Kuyper coloca, “não existe um metro quadrado sequer de todo o domínio da existência humana sobre o qual Cristo não diz: É meu!”. Portanto, é importante ter cristãos na matemática, testemunhando para aquela comunidade, e defendendo a igreja contra a ‘grande cegueira do absurdo’ (Lewis, 1939) que poderia, caso contrário, esmagá-la.

 

Soli Deo gloria! (Gloria somente a Deus!)

Tradução: Professor Isaque Viza

 

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