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Três mal-entendidos sobre “Evolução Guiada por Deus”

Três mal-entendidos sobre a expressão “Evolução Guiada por Deus”

 

Por Loren Haarsma, PhD

 

Quando falo de criação evolutiva, às vezes me perguntam: “Por que não dizer apenas ‘evolução guiada por Deus’?” Hesito em usar essa frase porque sei, por experiência própria, que se eu dissesse “Deus guia a evolução” muitas pessoas entenderiam mal o que quero dizer.

Vamos analisar três dos mal-entendidos mais comuns:

 

  1. A evolução não se limita a mudanças de pequena escala.

Muitas pessoas interpretariam a frase “evolução guiada por Deus” como o seguinte:

“A evolução está limitada a mudanças em pequena escala nas espécies. Para mudanças realmente grandes – como criar novas formas de vida ou aumentar a complexidade -, Deus precisa fazer algo mais do que a evolução comum. Em vez de fazer grandes milagres de uma só vez, Deus pode fazer uma série de mutações guiadas ao longo do tempo, que se somam a algo novo e extremamente improvável sem a orientação de Deus.”

O problema com esse mal-entendido é que a ciência não o apoia – a evolução não se limita a fazer mudanças em pequena escala.[1] Creio que Deus projetou as leis da natureza para que a evolução biológica pudesse, por meio de sua operação normal e ordinária, trazer novas formas de vida e aumentar a complexidade. Como cristão, acredito que Deus poderia causar uma série de mutações sempre que quisesse. Como cientista, no entanto, acredito que Deus não precisou fazer isso para criar a rica diversidade de vida complexa que vemos no mundo hoje.

 

  1. Deus nunca está ausente no processo evolutivo.

Algumas pessoas interpretariam a frase “evolução guiada por Deus” como significando algo similar ao seguinte:

“OK, talvez a evolução não esteja limitada a mudanças em pequena escala. Mas a evolução deixada por si só significaria que Deus não estava realmente fazendo nada.”

Esse mal-entendido é o que eu chamo de “deísmo episódico”. E acredito que isso é uma teologia pobre porque diz que Deus normalmente deixa a natureza funcionar “por conta própria” exceto quando Ele intervém para empurrá-la em certas direções específicas – mas eu creio que a natureza nunca corre “por conta própria”. A Bíblia afirma repetidamente que, quando as coisas acontecem no mundo natural, ainda é Deus fazendo. O sol se põe; Deus traz trevas. As feras da floresta rondam; Deus lhes dá sua comida. As aves do céu comem sementes, insetos e minhocas, e recebem sua comida de Deus (Salmos 104: 19-21, Mateus 6:26). Quando as coisas estão acontecendo no mundo natural do modo como elas sempre acontecem, de maneiras que podemos descrever cientificamente, Deus é tão responsável quanto quando Ele realiza um milagre.

 

  1. Deus não precisou microgerenciar a evolução para obter o resultado que queria.

Algumas pessoas interpretariam a frase “evolução guiada por Deus” como algo mais ou menos assim:

“A evolução não se limita a alterações de pequena escala. E é claro que Deus está no comando o tempo todo para que a evolução nunca aconteça ‘por conta própria’. Mas a evolução tinha o potencial de percorrer muitos caminhos possíveis. Assim, Deus agiu de vez em quando para selecionar ou direcionar a evolução por caminhos específicos para produzir espécies e ecossistemas específicos.”

O desafio com este mal-entendido é que ele pode ser muito restritivo. Alguns criacionistas evolutivos sustentam essa visão, e eu acho que é uma boa visão. Na minha opinião, não há problema com a ciência e com a teologia dessa visão. Mas ela não é a única versão da criação evolutiva.

Teologicamente, creio que Deus envia chuva sobre os justos e os injustos. Cientificamente, descrevo a precipitação em termos de evaporação e condensação e frentes quentes e frentes frias. Eu não acho que Deus precisa “cutucar” as nuvens para que isso aconteça da maneira que Deus quer (embora, é claro, Deus possa fazer isso). Teologicamente, acredito que Deus faz as árvores crescerem. Cientificamente, eu descreveria árvores crescendo através da fotossíntese e transpiração e muitos outros processos químicos. Eu não acho que Deus precise empurrar as moléculas para fazer com que cada árvore cresça (embora, é claro, Deus possa fazer isso).

Eu apoio os criacionistas evolutivos que acreditam que Deus empurrou a evolução por caminhos específicos. Mas eu também apoio um criacionista evolutivo que diga algo como: “Teologicamente, acredito que Deus criou todas as espécies, incluindo os humanos. Cientificamente, descrevemos como isso aconteceu em termos de mecanismos evolutivos. Eu não acho que Deus precisou deslocar caminhos específicos para produzir o que Ele pretendia.”

E se eu disser “evolução guiada por Deus”, algumas pessoas me interpretariam mal ao excluir essa segunda versão da criação evolutiva.

Essas são três maneiras comuns e conflitantes de interpretar a frase “evolução guiada por Deus”. Não é de surpreender que elas sejam comuns. A providência de Deus e a “direção” do mundo natural é um tópico teológico complicado. A evolução é uma teoria científica complicada. Mas nenhuma dessas maneiras de interpretar a frase é o que quero dizer. Então, embora eu possa afirmar que “Deus guiou a evolução”, eu raramente uso essa frase. Em vez dela, escolho outras frases – provavelmente muito mais longas e menos assertivas, mas mais difíceis de serem mal interpretadas.

 

Sobre o Autor:

Loren Haarsma obteve seu Ph.D. em física pela Universidade de Harvard e fez cinco anos de pesquisa de pós-doutorado em neurociências em Boston e na Filadélfia. Ele é professor de física no Calvin College desde 1999. Sua pesquisa científica atual está estudando a atividade de canais iônicos em células nervosas e outros tipos de células, além de trabalhos em modelagem computacional da complexidade auto-organizada em biologia e em economia. Ele estuda e escreve sobre tópicos na intersecção entre ciência e fé, e é co-autor de “Origens: Perspectivas Cristãs sobre Criação, Evolução e Design Inteligente” (Lançado no Brasil pela Thomas Nelson Brasil em parceira com a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência), junto com sua esposa, Deborah Haarsma.

 

Tradução: Tiago Garros

 

[1] Haarsma, Loren; Terry M. Gray. “Complexity, Self-Organization, and Design.” Perspectives on an Evolving Creation: 288-309. Também em https://biologos.org/blogs/guest/creating-information-naturally-part-3-evolutionary-adaptation-and-co-option

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