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Sobre os valores – de um professor para seus alunos

Outro dia comentei sobre propósito e significado. Falei que as coisas não são importantes ou deixam de ser pelo seu tamanho ou duração, mas pelas marcas que produzem. Hoje, quero falar um pouco sobre como as coisas ganham significado e nos mantém vivos.

Bentialtas. Kichute. Pavê. Interior. Vovó. Cantina. Amigo. Amor. Vestido. Violão. Sorvete. Vaca. Eita, sô! É interessante como algumas palavras nos lembram pessoas, lugares, sentimentos, épocas e histórias. Eu não poderia provocá-los com nada além de palavras, mas tenho certeza de que certos cheiros, gostos ou músicas também lhes lembram lugares ou provocam sentimentos.

Mesmo os mais materialistas talvez não devessem pensar que somos só o corpo. Não, não vou abordar a questão como você imaginou. Simplesmente olhe para a sua mão. É maluco pensar que todos os átomos que a compõem já existiam aqui pelas redondezas há pelo menos 4 bilhões de anos. Se você se sentiu muito velho, também é esquisito pensar que nenhuma dessas células estava aí há 10 anos. É ainda pior pensar que você possui 10 vezes mais bactérias do que células. Então você é o quê?

Tenho um amigo educador que diz que o nosso maior patrimônio é a memória. Por meio dela sabemos quem somos, o que fazemos, o que nos agrada. Se perdermos a memória, tudo fica sem sentido. Não saberíamos para quem ligar, para onde ir ou voltar, quem chamar. Não reconhecemos símbolos ou palavras, o que é bom ou que não é, o que é o certo, o doloroso, o saboroso, o arriscado. Tudo perderia sentido. Sem memória, você não é ninguém.

Memorizamos e aprendemos as coisas de forma mais rápida quando elas fazem sentido para nós, quando podemos atribuir algum significado. Elas vão para o nosso repertório. Fazer sentido normalmente tem a ver com conexões que estabelecemos com nossas experiências anteriores.

Um fundamento é algo que está na base de várias dessas conexões e ajuda a ligar tudo. Matérias difíceis e que não sabemos para que servem se tornam ainda mais difíceis, mas quando se conectam com problemas que enfrentamos, se tornam desafios motivantes.

“Chutar a que para o alegria corre, bola menino!”. Pausa. Você deve ter pensado algumas coisas soltas e boa parte das pessoas provavelmente já não podem mais repetir a frase exata. Agora, leia com calma: “O menino corre para chutar a bola, que alegria!” (…) Tenho certeza que ao ver esta frase, você não somente imaginou cada coisa, mas pensou numa cena completa, em certo lugar e coisas ao redor, numa certa iluminação do dia ou da noite. Não era um menino qualquer, nem qualquer bola, nem qualquer alegria. Você já deu vida ao menino, era alegre e corria atrás da bola. Certamente ele já fez mais do que correr, já até chutou a bola. O cenário é mais rico do que a frase. Talvez você tenha até sentido algo e isso tudo fez todo o sentido. Você nem consegue parar mais esse menino! Eita, menino!

Para fazer sentido, as coisas precisam estar em ordem e conectadas. Fiat lux! A vida demanda um caminho e uma verdade. Ela clama ordem, uma estrutura, e sobre ela, as novas ideias se apoiam. A criação não para mais.

Um problema que vivemos hoje é estarmos cada vez mais unidos do lado de fora, mas pouco interligados do lado de dentro. Um mundo conectado de pessoas vazias não tem como ter sentido. Eis algumas coisas contribuindo para isso:

Primeiro, estão destruindo nossas referências – de valores, de comportamento. A sociedade se tornou alérgica a qualquer coisa que se candidate a padrão: abaixo o benchmarking! Se algo pode cair na categoria de padrão, por definição, não serve. Ria dele, declare guerra, é inimigo. O problema não é reavaliar as referências, é pensar que não precisamos de nenhuma. Há sentimento de autonomia exacerbado que elimina tudo e não constrói nada no lugar.

Segundo, formamos comunidades por similaridade de vazios. Eu não preciso seguir nada ou mudar nada em mim desde que eu ache uma meia dúzia de gente com as mesmas frustrações e troquemos falas do que nós queremos ouvir. Sou o que sou e não preciso me adaptar a nada. Não existe pedra a ser lapidada, todo belo é bruto. Se não é instintivo e inato, é falso. Não serve. Não há erro ou culpa, pois, o que afinal é um acerto? Somos autônomos. O que somos, só nós podemos dizer. Se mundo há, que se adapte ou que se isole de vez.

Terceiro, tudo é dinâmico, nada se mantém. Absorvemos muito rápido a ideia que tudo é veloz, tudo tem que mudar e se tornar obsoleto logo depois. Se é antigo, se é estável ou se já valeu antes, não serve. No meio de tudo, vão-se também os fundamentos! Aqueles que permitiam dar sentido a experiências distintas. Vai-se o bebê junto com a água da banheira. Se não há fundamento, tudo é volátil.

Quarto, tudo é simples e curto. Se a complexidade de uma ideia ultrapassa uma frase, não serve.

Quando a gasolina acabou, todos correram para fila do posto. Quando as prateleiras dos mercados ameaçaram esvaziar, todos correram para tentar se suprir. A esperança e o significado da vida estão acabando e não há pressa para encontrá-los. Somos uma sociedade em Alzheimer profundo e não sabemos mais quem somos. Cada um tem a sua verdade – e com muito orgulho – mesmo que ela não se conecte com nada de verdade, mesmo que a frase esteja totalmente fora de ordem. E rotulamos tudo isso como libertador, mesmo que nossa cabeça esteja uma bagunça. Estamos tentando amar o caos chamando-o de modernidade (ou pós-modernidade?), de futuro, enquanto ele consome sorrateiramente todo o significado que a vida pode ter.

E vem o golpe final: a única maneira de derrotar vocês definitivamente é fazer com que se esqueçam de quem realmente são – o que é o ser humano? Um computador formatado roda o vírus como se fosse o sistema operacional e se acha o Watson da IBM (a plataforma de serviços cognitivos para negócios). Há coisas importantes para fazer parte do seu repertório que podem dar mais sentido para a sua vida. Elas são as conexões fundamentais do coração. Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o seu coração. Há muito ruído. Seja seletivo.

Ah, e lembre-se do menino. Ele está tentando dizer algo. Ele bate na porta. Se você abrir, ele vai entrar e tomar um café com você. E quem sabe depois vocês não jogam uma bola com alegria no jardim! Talvez esse seja o sentido de tudo.

 

Por Raoni Bagno

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