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Questões Éticas sobre a modificação genética por John Bryant

Existe uma séria preocupação de que algumas dessas moléculas artificiais de DNA recombinante podem se revelar como sendo biologicamente perigosas. Paul Berg et al., (1974)¹

 

Resumo: Este artigo examina as origens e aplicações atuais da modificação genética de plantas, animais e seres humanos. As preocupações éticas levantadas a partir de fontes tanto seculares quanto religiosas são levadas em consideração. Conclui-se que a humanidade tenha recebido a tarefa da administração responsável de todos os recursos da terra, incluindo o DNA, e que há fortes motivações teológicas para a utilização da Modificação Genética com sabedoria e para o benefício de outros.

Sobre o autor: Prof. John Bryant é Professor Emérito de Biologia Celular e Molecular da Universidade de Exeter; Professor Visitante em Biologia Molecular na Universidade Estadual de West Virginia, EUA; Presidente da Associação Cristãos na Ciência e foi anteriormente presidente da Sociedade para a Biologia Experimental. Prof. Bryant iniciou um dos primeiros cursos de bioética para estudantes de biologia em uma universidade do Reino Unido e é o coautor de Life in Our Hands (Vida em nossas mãos), (Imprensa Interuniversitária, 2004).

 

 

Histórico

 

Em 1972, Paul Berg, da Universidade de Stanford, Califórnia, relatou a primeira construção em tubo de ensaio de DNA recombinante, ou seja, uma molécula de DNA recombinante a partir de pedaços de moléculas² de DNA pré-existente. Rapidamente, essa metodologia foi adotada por outro cientista de Stanford, Stanley Cohen, que, junto com Herbert Boyer (Universidade da Califórnia, São Francisco) e os seus colegas, mostraram que as moléculas de DNA recombinante podem ser transferidas de forma muito eficaz para o interior de células bacterianas no laboratório³. Estes primeiros experimentos de modificação genética (GM) envolveram a transferência de DNA recombinante para as células de Escherichia coli, uma espécie bacteriana amplamente utilizada como modelo na pesquisa bioquímica e genética. As moléculas de DNA recombinante não só foram mantidas e replicadas dentro das células bacterianas, mas elas também funcionaram normalmente.

 

Pouco tempo após a invenção destas técnicas, houve um desenvolvimento surpreendente. Vários dos principais biólogos, incluindo aqueles que tinham desenvolvido a tecnologia de DNA recombinante, escreveram para a prestigiosa revista científica “US Journal Science” ⁴. Eles levantaram algumas considerações sobre possíveis riscos decorrentes de algumas aplicações da tecnologia e sugeriram que alguns tipos de experiências não deveriam ser tentadas. Inicialmente, esta pesquisa foi auto-regulada, mas em 1975 a própria comunidade científica pediu a suspensão temporária do trabalho do DNA recombinante e foi realizada uma conferência em Asilomar, Califórnia⁵. Esta reunião foi amplamente reconhecida como um “marco de responsabilidade social e auto governança pelos cientistas”⁶, levando à produção de orientações para a avaliação dos riscos e da imposição de regras de prática baseado em cada nível de risco. Estas orientações de segurança formaram a base da estrutura reguladora para a realização de trabalhos com DNA recombinante, que, embora modificado à luz da experiência, ainda estão em uso nos dias de hoje.

 

Com as estruturas reguladoras em vigor, a tecnologia do DNA recombinante OGM avançou rapidamente. Um passo fundamental ocorreu na utilização de OGM para a produção de produtos farmacêuticos, tais como a insulina humana, uma das aplicações comerciais mais rápidas do conhecimento biológico já registrado, com um intervalo de apenas alguns anos entre o isolamento do gene e o licenciamento do produto para utilização em terapia humana. A insulina é hoje apenas um exemplo, dentre centenas de reagentes terapêuticos criados por OGM e utilizados na indústria farmacêutica para a cura tanto de doenças em animais quanto em humanos.

 

Logo após a sua aplicação comprovada nas bactérias, ficou claro rapidamente que as técnicas de modificação genética eram aplicáveis a uma gama muito maior de organismos: A modificação genética dos animais foi relatada pela primeira vez em 1976⁷ e ficou bem estabelecida no início dos anos 80⁸. A modificação genética de plantas foi alcançada em 1983⁹. Agora é evidente que pelo menos alguns membros de cada grupo principal podem ser geneticamente modificados: bactérias, fungos (incluindo leveduras), animais invertebrados e vertebrados, plantas unicelulares e multicelulares.

 

A recente sequenciação dos genomas de mais de 250 espécies (principalmente bactérias, mas incluindo representantes de todos os principais grupos), envolvendo a determinação da ordem precisa das bases (as letras “genéticas”) do DNA contido em um organismo individual, só foi possível por causa do uso da tecnologia da modificação genética. O Projeto Genoma Humano já foi concluído com sucesso¹⁰, assim como a sequenciação do DNA de outros mamíferos, incluindo os primatas ¹¹. A identificação das mutações do DNA que causam as doenças humanas continua a aumentar rapidamente. Com base na última contagem, diagnósticos baseados em DNA já estão disponíveis para 1033 condições diferentes (um aumento de quase 600 desde 2002) com mais 296 sob pesquisa e desenvolvimento ativo¹².

Questões éticas gerais

 

No período inicial da tecnologia de modificação genética, houveram surpreendentemente poucos debates sobre questões éticas. Assim sendo, comentaristas notaram a ausência de profissionais de ética na conferência de Asilomar (alguns advogados estavam presentes). A filosofia moral, como tal, não entrou nas discussões e a possibilidade de contestação intrínseca à modificação genética mal foi levantada. Portanto, foi meio inevitável que a base para a discussão ética fosse o consequencialismo – “o que acontece se … “- tendo a segurança como sendo a preocupação dominante. O foco era sobre como a tecnologia deve ser usada ao invés de se ela deve ser usada.

 

No que diz respeito ao envolvimento religioso neste assunto, presume-se normalmente que a religião em geral será contrária à tecnologia de modificação genética. Na verdade, não é bem assim. A situação é muito mais complexa. As atitudes religiosas para com as modificações genéticas estão principalmente preocupadas com o que é feito com a tecnologia ao invés de se deve ser feito. De fato, algumas aplicações específicas da modificação genética tiveram um forte apoio de pessoas religiosas, especialmente daqueles dentro das tradições judaico-cristãs, como sendo uma utilização positiva de talentos dados por Deus para humanidade e utilizados para o bem-estar dos outros. O tema da modificação genética é um bom exemplo de interação entre ciência, tecnologia e religião em uma esfera onde as escrituras relevantes (por exemplo, o Antigo Testamento da Bíblia na tradição judaico-cristã e o Novo Testamento na religião Cristã) não tem nada específico para dizer.

 

Apesar dessa aceitação geral da tecnologia de modificação genética, existem algumas vozes contrárias. Existem pessoas, muitas vezes do ponto de vista religioso pagão ou neo-pagão, que têm objeções intrínsecas a toda a ideia de genes em movimento. Em discussões baseadas em Aristóteles, existe a visão de que os genes de um organismo são parte de sua natureza básica, a sua telos¹³, e que essa modificação genética distorce essa natureza básica. Outros têm uma visão da natureza que considera o conceito de um gene como uma entidade móvel, e esta é demasiadamente reducionista; sobre este ponto de vista, qualquer gene é parte de uma complexa rede de vida e movê-lo para outro organismo irá abalar esta rede e pode dessa maneira perturbar “o equilíbrio da natureza”.¹⁴ Finalmente há aqueles que simplesmente consideram tais atividades como sendo “inacessíveis” para a humanidade, uma visão geralmente baseada em pontos de vista particulares dos relacionamentos entre os seres humanos e o mundo natural.

 

Dentro da religião Cristã, há uma pequena minoria que sugere que mover os genes de um organismo para outro transgride o conceito que Deus fez a criação dos “tipos” (Gênesis 1). Na opinião do atual escritor, esta sugestão é insustentável. As descobertas de microrganismos e de genes ocorreram séculos depois da escrita do Novo Testamento, o que dirá do Velho; tais temas estão completamente fora do conhecimento dos autores bíblicos. Embora, sem dúvida, o escritor de Gênesis tenha equiparado “tipos” com as diferentes espécies de animais e plantas, é difícil conciliar isso com a nossa compreensão moderna de espécie. Espécies não são fixas e de fato algumas são muito indistintas: na verdade, os biólogos têm dificuldades para chegar a uma definição irrefutável desta palavra. Isto é verdade especialmente nas bactérias, pois, muitas praticam a troca de genes levando a uma rápida evolução genética.

 

A ausência de proibições específicas nas escrituras, não significa necessariamente que tudo é permitido. É nessas situações que a aplicação dos princípios gerais se torna importante. No Antigo e no Novo Testamento, assim como no Corão, existe um tema permanente onde Deus é o criador e provedor do universo; o mundo natural é dEle.

 

Além disso, Ele deu aos seres humanos um lugar especial nele; temos a capacidade de usar o mundo natural, a curiosidade de saber mais sobre ele, além da engenhosidade e criatividade para colocar esse conhecimento em prática. No entanto, devemos usar esses dons como mordomos do mundo de Deus. Essa mordomia inclui uma atitude correta para com os nossos semelhantes homens e mulheres, de amar nosso próximo como a nós mesmos. Assim, como já mencionamos, a segurança e o risco serão preocupações importantes tanto para os cientistas de crenças judaicas ou cristãs como para os cientistas não religiosos. Será que um grupo devidamente informado e qualificado de Cristãos ou Judeus religiosos conseguiriam chegar a uma conclusão diferente daquela proveniente de Asilomar? É quase certo que não. No entanto, podem haver preocupações religiosas específicas sobre algumas aplicações da tecnologia de modificação genética e são nessas aplicações que iremos focar agora.

 

Modificação genética de plantas

 

Como mencionado acima, a comunidade científica teve que esperar dez anos a partir do relatório inicial de modificação genética das bactérias para obter a primeira experiência de modificação genética bem-sucedida em plantas. Para os cientistas de plantas, o mais interessante dessa técnica foi que assim como as técnicas originalmente desenvolvidas para as bactérias, ela se baseou em um processo natural onde a bactéria leva o DNA para dentro dos cromossomos de uma planta hospedeira. Além disso, para os criadores de plantas, essa técnica tinha a capacidade de levar genes específicos para as estirpes elite pré-existentes. Para mais detalhes técnicos, os leitores interessados devem consultar Hughes e Bryant (2002)¹⁵. Em 1985 alguns pequenos testes de campo de modificações genéticas já estavam em curso em vários países e os primeiros sucessos foram alcançados na regulamentação da expressão dos genes “estrangeiros”. No entanto, levaram mais dez anos antes que a primeira colheita geneticamente modificada, como o tomate de amadurecimento lento (e o extrato de tomate derivado dele) entrasse no mercado.

 

Hoje, a utilização de colheitas geneticamente modificadas varia muito em todo o mundo. Embora na União Europeia apenas seis países tenham adotado o plantio geneticamente modificado, o uso no resto do mundo cresce anualmente. Em 1996, os plantios geneticamente modificados foram cultivados em menos de 2 milhões de hectares, quase inteiramente nos EUA, onde 1,7 milhões de hectares foram dedicados ao plantio do principal produto geneticamente modificado e tolerante aos herbicidas, a soja. Em 2006, os plantios geneticamente modificados foram cultivados em 102 milhões de hectares em 22 países diferentes¹⁶. Em ordem decrescente de hectares cultivados, os principais países envolvidos são EUA, Argentina, Brasil, Canadá, Índia, China, Paraguai e África do Sul, sendo os maiores plantios a soja (em 58,6 milhões de hectares), o milho, algodão e óleo de colza (canola). Cerca de 90% (9,3 milhões) dos produtores de plantios geneticamente modificados são agricultores com poucos recursos trabalhando em pequenas fazendas; dos quais 6,8 milhões estão na China e também com números significativos na Índia e na África do Sul. A primeira produção comercial de arroz geneticamente modificado aconteceu em 2005 no Irã, e testes de campo sistemáticos com este arroz geneticamente modificados estão em andamento na China e aguardando uma aprovação em breve para o crescimento comercial em larga escala. A importância do arroz na economia alimentar do mundo é tão grande que é provável que haja um rápido crescimento das áreas dedicadas aos produtos geneticamente modificados.

Histórico do debate ético sobre plantas

O início da modificação genética de plantas, em 1983, recebeu pouca atenção do público na época, uma situação que estava para mudar drasticamente. De fato, a aplicação da modificação genética aos plantios comercialmente cultivados alertou muitas pessoas pela primeira vez, em meados da década de 1990 para a existência de técnicas de modificação genética, apesar de terem sido utilizadas em outros contextos desde meados de 1970 e continua havendo um intenso debate ético. No Reino Unido e outros países da UE muitos desses debates tem sido hostil aos plantios geneticamente modificados, enquanto a reação em muitas outras partes do mundo tem sido mais favorável, como sugerem as estatísticas acima. Por que a Europa é diferente? As razões são complexas¹⁷, mas incluem a ideia de que nós não “precisamos”  de modificações genéticas uma vez que já produzimos muita comida e a suspeita de uma ciência que tem suas raízes no pós-modernismo. Tais preocupações não são tão aparentes nos EUA onde as atitudes são mais pragmáticas e positivas em relação à introdução de novas tecnologias.

Ética, Riscos e Segurança

Com relação às técnicas de modificação genética em geral, como já mencionamos, houve pouca manifestação de objeção intrínseca à tecnologia, afirmando que estas técnicas são erradas em si mesmas, embora alguns dos que se opõem ao uso da modificação genética na agricultura tenham expressado esses pontos de vista. As principais objeções têm caído geralmente em duas outras categorias. A primeira dessas preocupações é o risco e a segurança, e a segunda diz respeito a questões que não surgem a partir da tecnologia em si, mas da forma como ela é comercializada. Dentro destas formas estão o patenteamento de genes, a posse dessa tecnologia e de seus produtos concentrada num pequeno grupo de organizações comerciais, a possível exploração dos países menos desenvolvidos e a relação entre os economicamente fortes e os economicamente fracos. Estes temas são todos muito importantes e dignos de uma extensa análise do ponto de vista ético, mas o espaço limitado aqui impede mais do que uma menção de passagem.

Assim sendo, a atenção é reorientada para os riscos e segurança. Entre aqueles que fazem campanha contra a comercialização de plantios geneticamente modificados, esta tem sido uma grande preocupação. Três temas podem ser distinguidos. Em primeiro lugar, a incorporação de um gene estranho é inerentemente perigosa, pois os efeitos a longo prazo são completamente imprevisíveis. Em segundo lugar, o metabolismo da planta pode ser alterado para que haja riscos para os consumidores. Em terceiro lugar, os plantios geneticamente modificados podem representar riscos ambientais ao se tornarem “super-ervas daninhas” ou ao fazer o cruzamento com espécies silvestres para que este último se torne uma super-erva daninha ou ainda afetando a biodiversidade de alguma outra forma.

Os defensores da tecnologia argumentam que essas preocupações são infundadas. Em primeiro lugar, os genomas de plantas não são desestabilizados pela adição de genes exógenos; na verdade, a absorção de material genético estranho tem sido e provavelmente ainda é, parte da evolução da planta. Além disso, nesses plantios onde genes estranhos foram introduzidos por técnicas de reprodução “convencionais”, não houveram problemas. Em segundo lugar, a introdução de um gene estranho, a menos que tenha sido especificamente selecionado para ter um efeito sobre a bioquímica, por si só não leva a alterações no metabolismo. Na verdade, argumenta-se que o cruzamento de duas estirpes, embora do mesmo plantio, irá provavelmente abalar o metabolismo tanto quanto a modificação genética. Além disso, os defensores apontam que qualquer empresa de alimentos que comercializa um produto que eles não sabem se é seguro está caminhando para o desastre comercial. Em terceiro lugar, as variedades criadas por técnicas de modificação genética não são nem mais nem menos propensas a se tornarem super-ervas daninhas, a cruzarem com as espécies silvestres ou a ter outros efeitos sobre o ambiente do que os plantios tradicionais. Isto foi ilustrado pelas extensas avaliações dos parâmetros agrícolas realizadas no Reino Unido, no intuito de examinar os efeitos dos plantios geneticamente modificados sobre a biodiversidade, mas na verdade, mostrando como o cultivo de um plantio carregando os traços específicos de tolerância aos herbicidas afeta a biodiversidade¹⁸. Naturalmente, nestes testes, esses traços foram inseridos por técnicas de modificação genética, mas o método de reprodução não foi realmente avaliado. Se esse traço estivesse disponível no mesmo plantio através de cultivos convencionais, é muito provável que os mesmos resultados, isto é, uma redução da biodiversidade, teria ocorrido.

Conduzindo o debate

É preciso deixar claro que nenhum dos lados neste debate polarizado aparecem de forma honrosa. Ambos apresentaram informações enganosas e em alguns casos completamente mentirosas¹⁹ e têm deturpado o outro lado, tornando o verdadeiro debate muito difícil²⁰. No entanto, no Reino Unido, ainda há uma maioria que não deseja ver a introdução de plantios geneticamente modificados e isso tem se tornado praticamente parte do pensamento liberal “politicamente correto” para se opor desta maneira

Atitudes religiosas em relação aos plantios geneticamente modificados

Na ausência de instruções específicas das escrituras, o foco dentro das religiões semitas é baseado mais uma vez em princípios gerais. É interessante ver que um estado islâmico como o Irã tenha adotado o arroz transgênico e que o Conselho Muçulmano da Indonésia, a nação islâmica mais populosa do mundo, tenha aprovado o consumo de plantios transgênicos e seus produtos. Muçulmanos britânicos, no entanto, têm sido de um modo geral mais cautelosos, talvez refletindo as opiniões do público britânico em geral. No judaísmo, o ensino rabínico atual indica que a tecnologia transgênica é um uso aceitável dos dons de Deus para a humanidade e que os plantios transgênicos são compatíveis com as leis de comida kasher.

Entre os cristãos, os pontos de vista são variados. Vários escritores cristãos concluíram que a modificação genética dos plantios representa um conjunto aceitável de tecnologias desde que sejam utilizadas com a devida cautela²¹; outros têm sido mais neutros²² e alguns têm manifestado sua clara oposição²³. No entanto, o que todos esses autores têm em comum, junto com os escritores muçulmanos e judeus são as suas preocupações sobre as questões relacionadas com a comercialização de plantios transgênicos, lembrando das palavras do profeta judeu, Miquéias: ” E que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus “(Miquéias 6: 8) Uma questão crítica a se fazer é: ‘Quem se beneficiará realmente com a nova tecnologia – os pobres e os necessitados.?’ Ou será que ela vai ser usada para colocar ainda mais poder nas mãos dos ricos? “Cada caso tem de ser julgado pelos seus próprios méritos, mas esta é a pergunta bíblica chave que é tão importante tanto no caso da modificação genética como é para a aplicação de qualquer outra nova tecnologia.

 

A modificação genética dos animais

A modificação genética de mamíferos é hoje considerada como um procedimento de rotina, embora com taxas relativamente baixas de sucesso. Existem dois métodos básicos pelos quais esta modificação genética em mamíferos não-humanos pode ser feita²⁴. O procedimento mais utilizado é a introdução do DNA estranho dentro de óvulos recém fertilizados (a partir da fertilização in vitro, FIV). O embrião, que agora transporta genes ‘estrangeiros’ (exógenos) integrados aleatoriamente em seu DNA é introduzido no útero de uma mãe apropriada. Se a gestação for estabelecida com sucesso (e vale lembrar que a taxa de sucesso para os embriões transgênicos é significativamente menor do que para os embriões não-transgênicos) um mamífero transgênico (geneticamente modificado) irá nascer; além disso, ele irá passar o novo gene para as gerações subsequentes. A segunda abordagem principal que é usada na maioria das vezes para interromper um gene existente em ratos para efeitos de pesquisa é a inserção de genes nas células-tronco (geradas em um embrião normal) por um processo conhecido como a recombinação homóloga. As células modificadas são substituídas no embrião, que é então introduzido no útero e depois concebido. O gene estranho é passado para a próxima geração através da linha germinal. Embora geralmente não seja aplicável aos animais maiores, como ovelhas ou gado, é um processo alternativo útil para animais que tem um período de gestação curto, como ratos.

Além disso, os genes estranhos introduzidos em mamíferos podem ser regulados de modo a limitar a manifestação do gene à células ou tecidos específicos ou para fases específicas do crescimento e desenvolvimento. No entanto, ainda existem problemas com o nível de manifestação dos genes estranhos (ou seja, se os genes funcionam direito) e isso provavelmente não será resolvido até que se torne possível a inserção do gene(s) em locais específicos dos cromossomos dos animais.

No entanto, roedores transgênicos portadores de genes humanos mutantes que causam doenças como a fibrose cística ou genes que quando ativados causam câncer (oncogenes) estão em uso rotineiro em pesquisas médicas. De acordo com dados do Ministério do Interior (que regulamenta a pesquisa em animais no Reino Unido), em 2005, haviam 957,000 procedimentos regulamentados envolvendo animais transgênicos, 96% dos quais eram ratos. Apenas um terço dos procedimentos envolveu testes experimentais diretos, a maioria sendo associado com a procriação dos animais. Entre outras aplicações podemos incluir a modificação de ovelhas para que elas produzam proteínas farmacêuticas em seu leite. Ao mesmo tempo, há uma pesquisa ativa sobre a modificação genética de suínos que se destina a alterar suas propriedades imunológicas para que seus órgãos possam ser utilizados para transplante em humanos. Por outro lado, as tentativas para aumentar o rendimento em grandes animais de criação não têm sido bem-sucedidas devido às anomalias no crescimento e no esqueleto que são efeitos colaterais dessa modificação genética específica.

Modificação Genética e o bem-estar dos animais

Não há dúvida de que a criação e posterior utilização de animais transgênicos, seja na pesquisa médica ou na produção de produtos farmacêuticos, é baseada em uma visão instrumental dos animais: eles estão sendo usados para servir as necessidades da humanidade. A esse respeito, a modificação genética dos animais não levanta questões que já não foram levantadas pelo nosso uso dos animais em outros contextos. Em geral, as respostas éticas à modificação genética dos animais variam muito entre as pessoas de fé religiosa e de nenhuma fé, variando de total oposição, como foi expresso pelo teólogo britânico, Andrew Linzey²⁶, até uma resposta muitas vezes qualificada como aceitação geral. Para os cristãos, judeus e muçulmanos não há proibição bíblica do uso de animais. O próprio Jesus usou um burro como animal de carga e também comeu carne. No entanto, isso deve se contrapor com o respeito pelos animais domésticos consagrados na lei judaica e o tema bíblico geral de que Deus cuida da criação, incluindo os animais selvagens e pássaros. Temas similares também são encontrados no Corão. Isto implica que, mesmo que os animais sejam usados como instrumentos, este uso deve ser moderado na medida do possível, considerando o seu bem-estar. No Reino Unido, este bem-estar está sagrado nos regulamentos rígidos do Ministério do Interior que rege o uso de todos os animais em pesquisas, incluindo as pesquisas envolvendo a modificação genética.

 

A modificação genética em humanos

No Reino Unido, existe uma experiência de quase trinta anos de trabalho com embriões humanos in vitro, graças à FIV. A seleção genética de embriões para casais que correm risco de ter um filho com uma doença genética grave está disponível há vários anos. Então, se as dificuldades técnicas já foram superadas, será que existe alguma razão para não irmos em frente com a modificação genética humana, ou seja, alterar a composição genética de um futuro ser humano de tal forma que a mudança seja hereditária? A Lei da Fertilização Humana e Embriologia de 1990, embora permita a experimentação genética em embriões, proíbe o uso de embriões transgênicos para a concepção de uma gravidez. No entanto, como a experiência tem demonstrado a partir das pesquisas com células tronco, os termos da Lei podem ser alterados se o Parlamento o considerar adequado.

Além disso, o especialista em ética cristã Robin Gill²⁷ não está sozinho ao sugerir que a modificação genética humana seria aceitável se fosse voltada para a correção de uma doença genética, um processo conhecido como terapia gênica germinal. No entanto, existem alguns que iriam mais longe ainda. O filósofo ateu John Harris equipara o melhoramento genético com o pagamento de aulas de música ou ballet²⁸, enquanto Gregory Stock, diretor do Programa de Medicina, Tecnologia e Sociedade da Universidade da Califórnia (UCLA), que se auto confessou como “relativamente permissivo à essas tecnologias”, sugere que isto é apenas uma questão de tempo e dinheiro e deve ser deixada por conta do mercado²⁹. Dados tais pontos de vista junto com o desenvolvimento técnico contínuo, não é de se admirar que o médico Cristão Gareth Jones acredite que a modificação genética humana é inevitável³⁰.

Ao avaliar estas questões, os seguintes pontos devem ser considerados:

Em primeiro lugar, o poder dos genes não deve ser supervalorizado. Os seres humanos são muito mais do que genes, embora se reconheça que os genes tenham alguma influência sobre alguns dos nossos comportamentos³¹. Em segundo lugar, mesmo que a terapia genética seja aprovada, fazer distinção entre terapia e melhoramento é difícil. Em terceiro lugar, a experiência com FIV indica que a modificação genética humana não deverá se tornar uma tecnologia em massa num futuro próximo ou mesmo a médio prazo. A fertilização in vitro não é um procedimento fácil e nem agradável para a mulher. Casais que optarem pela modificação genética de embriões terão de ser altamente motivados por qualquer razão. Em quarto lugar, o surgimento do diagnóstico préimplantacional, que envolve a fertilização in vitro e a análise de embriões para doenças genéticas já na fase inicial de 8 células seguido da implantação de apenas embriões “saudáveis” na mãe, torna a modificação da linha germinal para correção de distúrbios genéticos desnecessária. Em quinto lugar, embora seja possível considerar que a terapia genética da linha germinal possa se tornar disponível através de serviços de saúde pública ou privada (como já é para a terapia genética de células somáticas), qualquer manipulação que envolva o melhoramento genético provavelmente se tornará uma atividade comercial. Isso aumenta a possibilidade que um pequeno número de pessoas ricas compre aprimoramento para os seus filhos, mas é preciso haver realismo sobre o que é e não é possível. As complexidades de atributos como talento musical ou aptidão desportiva os torna alvos inadequados para a modificação genética, pelo menos num futuro próximo.

Conclusões

Deus deu a humanidade um mandato para cuidar da Terra e seus recursos, utilizando-os sempre que possível para o bem dos outros. Este mandato vale para o uso do DNA tanto quanto para qualquer outro recurso. Portanto, há fortes motivações teológicas para a utilização da modificação genética de forma positiva e com sabedoria. Ao mesmo tempo, a teologia fornece recursos éticos para definir os limites do que é aceitável e traz um pouco de realismo para amenizar as visões exageradas sobre os possíveis benefícios da modificação genética para a humanidade.

 

 

Os Artigos Faraday

Os Artigos Faraday são publicados pelo Instituto Faraday para Ciência e Religião, a Faculdade de St Edmund, Cambridge, CB3 0BN, Reino Unido, uma organização de caridade para educação e pesquisa (www.faraday-institute.org). As opiniões expressas são as dos autores e não representam necessariamente as opiniões do Instituto. Os artigos Faraday abordam uma ampla gama de temas relacionados com as interações entre ciência e religião. A lista completa dos artigos Faraday atuais pode ser encontrada em www.faraday-institute.org de onde cópias gratuitas podem ser baixadas em formato pdf. Cópias impressas como esta também podem ser adquiridas em quantidades de dez ou mais por £ 1,50 por 10 cópias mais postagem. Você pode encontrar os detalhes sobre os pedidos online de maneira segura em www.faraday-institute.org.

Data de publicação: Abril de 2007. © Instituto Faraday para Ciência e Religião

 

Referências:

  1. Berg. P. “Perigos potenciais de moléculas de DNA recombinante”, Ciência (1974) 185, 303.
  2. Jackson, D.A., Berg, P. & Symons, RH. “Método bioquímico para a inserção de novas informações genéticas no DNA do vírus símio 40: moléculas circulares de DNA SV40 contendo genes de fago lambda e operon lac em Escherichia coli”, Protocolo da Academia Nacional de Ciências, EUA (1972) 69, 2904-2908
  3. Cohen, S.N., Chang, A.C.Y., Boyer, H.W. & Helling, R. B. “Construção de plasmídeos bacterianos biologicamente funcionais in vitro”, Protocolo da Academia Nacional de Ciências, EUA (1973) 70, 3240-3244
  4. Berg, op. cit., (1)
  5. Berg, P., Baltimore, D., Brenner, S., Roblin, R.O. & Singer, M. F. “Resumo geral da conferência de Asilomar sobre moléculas de DNA recombinante”, Protocolo da Academia Nacional de Ciências, EUA (1975) 72, 1981-1984.
  6. Barinaga, M. “Asilomar revisitado: lições para hoje?” Ciência (2000) 287, 1584-1585.
  7. Jaenisch, R. “integração da linha germinal e transmissão mendeliana do vírus exógeno da leucemia Moloney”, Protocolo da Academia Nacional de Ciências, EUA (1976) 73, 1260-1264.
  8. por exemplo. Gordon, J. W., Scangos, G. A., Plotkin, D.J., Barbosa, J. A. & Ruddle, F.H. “Transformação genética de embriões de camundongos por micro injeção de DNA purificado”, Protocolo da Academia Nacional de Ciências, EUA, (1980) 77, 7380-7384.
  9. Herrera-Estrella, L., Depicker, A., Van Montagu, M. & Schell, J. “Expressão de genes quiméricos transferidos para células de plantas utilizando um vetor derivado do plasmídeo Ti”, Natureza (1983) 303, 209-213.
  10. Ver por exemplo http://genome.wellcome.ac.uk/node30075.html (último acesso em 22/11/2006).
  11. Dennis, C. “Genoma do chimpanzé: diversificando suas atividades”, Natureza (2005), 437, 17-19.
  12. http://www.genetests.org (último acesso em 23/11/2006).
  13. Como discutido por Hauskeller, M. Telos: “O renascimento de um conceito Aristotélico na ética dos dias de hoje”, Pesquisa (2005) 48, 62-75.
  14. Ver, por exemplo http://www.i-sis.org.uk/gaia.php (último acesso em 24/11/2006)
  15. Hughes, S. & Bryant, J. “Culturas e alimentos geneticamente modificados: uma perspectiva científica”, em Briant, J. Baggott la Velle, L. & Searle, J. (eds.) Bioética para Cientistas, Chichester: John Wiley & Sons (2002), pp. 115-140.
  16. ISAAA, “Situação Global dos plantios comercializados com biotecnologia de modificação genética, 2006”, Resumos da ISAAA (2006), 35. Disponível em www.isaaa.org (último acesso em 07/03/2007)
  17. Veja Barnes, B. “A avaliação pública da ciência e tecnologia “, Em Bryant, J, Baggott la Velle, L. & Searle, J. (eds.), Bioética para Cientistas, Chichester: John Wiley e Filhos (2002), pp. 19-36.
  18. Discutido em Bryant, J., Baggott la Velle, L. & Searle, J. Introdução à Bioética, Chichester: John Wiley e Filhos (2005), pp 93-98.
  19. Bryant et al., op.cit., (18)
  20. Bryant, J. & Searle, J. Life in Our Hands (Vida em nossas mãos), Leicester: Imprensa Interuniversitária (2004) pp. 82-86.
  21. por exemplo, Perry, I.N. “Plantios geneticamente modificados ‘, Ciência e Fé Cristã (2003) 15, 141-163.and pp. 78-107
  22. por exemplo. Deane-Drummond, C. E. Biologia e Teologia Hoje, Londres: SCM (2001).
  23. por exemplo. Link para Ecologia Cristã: resumo do artigo sobre plantios modificados geneticamente (2003). Disponível em www.christian-ecology.org.uk/GM-Crops.rtf (último acesso em 23/11/2006)
  24. Maclean, N. (ed.) Animais com Genes Novos, Cambridge: Imprensa da Universidade de Cambridge (1994), pp. 4-7.
  25. Isso é geralmente chamado de Injeção Pronuclear (PNI). Nesta fase inicial, o material genético do esperma e do óvulo ainda não se fundiram, mas ainda estão localizados no interior do óvulo em estruturas individuais chamadas pró-núcleos (singular: pronúcleo). O DNA “estrangeiro” é injetado diretamente em um dos pró-núcleos.
  26. Linzey, A. Teologia Animal, Londres: SCM (1994), esp. p. 143; ver também Compaixão na Pecuária Mundial: www.ciwf.org.uk/campaigns/other_campaigns/genetic.html (último acesso em 23/11/2006)
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