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Preocupações de JRR Tolkien sobre Tecnologia

Respeitando e Transcendendo a Natureza:

Preocupações de JRR Tolkien sobre Tecnologia

Professor Alister McGrath*

Tradução: Pedro Silva

Fonte: https://www.gresham.ac.uk/lectures-and-events/respecting-and-transcending-nature

 

Neste texto, quero refletir sobre a importante e difícil questão da tecnologia e da transformação do nosso mundo. Sei que muitos de vocês já pensaram sobre isso, e espero ser capaz de fornecer mais um pouco para os engenheiros intelectuais. Embora eu esteja interagindo com várias figuras significativas, o mais interessante deles é JRR Tolkien, mais conhecido por seu primeiro livro O Hobbit e seu épico posterior, O Senhor dos Anéis. Aqueles que leram os livros provavelmente já terão um bom senso da natureza das ansiedades de Tolkien sobre a tecnologia, que são expressas nos enredos e caracterizações dessas obras. Os Hobbits são um povo inocente, que vive perto do mundo da natureza e não se preocupam em dominar seus vizinhos ou se envolver em guerras. Eles querem cultivar suas plantações nas planícies férteis do Condado e assim, desenvolver tecnologias apropriadas para esta modesta tarefa. Mas essas são tecnologias muito limitadas, projetadas para cavar o solo, colher safras e preparar alimentos. A tecnologia é para aproxima-los mais da natureza e melhorar o bem-estar humano.

Agora vamos contrastar isso com as descrições sombrias e ameaçadoras de Tolkien sobre o desenvolvimento da tecnologia na terra de Mordor. No idioma sindarin élfico de Tolkien, Mor-Dor significa “Terra Negra” ou “Negra”. Isso levou alguns a sugerir que Tolkien pode ter baseado Mordor no “País Negro” da Inglaterra – um deserto industrializado, onde os processos da tecnologia transformaram uma bela paisagem em uma cena estéril de desolação. Alguns de vocês podem ter visto a exposição de 2014 “The Making of Mordor” na Wolverhampton Galeria de Arte, que explora as possíveis ligações entre a ficção de Tolkien e o passado industrial do País Negro.

Em seu atrevido romance autobiográfico Como ser Mulher (2012), parcialmente ambientado em Wolverhampton, a autora Caitlin Moran retrata seu pai refletindo no início dos anos 90 sobre a transformação do norte da Inglaterra, de paisagens rurais verdejantes para locais industriais tóxicos, usando os romances de Tolkien para enquadrar sua preocupação com a degradação do País Negro [1]. É sobre isso que o Senhor dos Anéis fala. Tolkien remete a este ponto. Ele estava escrevendo sobre como o a revolução industrial transformou as Terras Médias do Condado em Mordor. No entanto, o Senhor dos Anéis não é apenas sobre a destruição da natureza; é sobre o desenvolvimento de tecnologia como um instrumento de opressão, controle e destruição. Lembre-se que os Hobbits tinham uma tecnologia muito básica, projetada para lavrar a terra. Saruman usa a tecnologia para desenvolver armas e destruir aqueles que ficam em seu caminho. A tecnologia se torna a ferramenta daqueles que querem oprimir e destruir, não aqueles que querem promover o bem-estar humano.

Agora vamos voltar ao Tolkien em seu devido tempo. Mas você pode ver o problema o preocupa. A Tecnologia pode ser usada para curar e destruir. O filósofo John Gray fez um ponto semelhante em seu livro Cachorros de Palha (2013), um livro iconoclasta que desacredita de forma cáustica, as filosofias humanistas brandas. Para Gray, “humanos não podem viver sem ilusões” – tal como uma fé cega no progresso, ou a bondade da natureza humana [2]. Os humanistas podem e gostam de se iludir por terem uma visão racional do mundo; sua crença central no progresso moral ainda é uma “Superstição”, que é indiscutivelmente mais longe da verdade sobre o animal humano do que qualquer um do mundo das religiões. O progresso na ciência e na tecnologia é subserviente as agendas humanas egoístas e corruptoras e não conduz inevitavelmente ao progresso social e político. “Sem as ferrovias, o telégrafo e o gás venenoso, não poderia haver Holocausto” [3]. Agora há um elemento exagerado aqui; porém há também um elemento de verdade. Armas de destruição em massa são criações humanas, baseadas na aplicação da ciência para o avanço de fins nacionalistas ou ideológicas. Não é por acaso que o Primo Levi, um dos poucos sobreviventes de Auschwitz, falou de “habitar o século em que a ciência se tornou deformada”, criando uma “gigantesca máquina corrupta e manipuladora da morte”. [4]

A ciência é uma das maiores forças no mundo de hoje. É capaz de fazer grandes coisas. Mas também abriu a porta para alguns horrores. Eu me lembro de um debate na Universidade de Cambridge há alguns anos sobre o lugar da ciência no mundo de hoje. Um orador declarou que a ciência salvou a raça humana. Pois ela nos deu a penicilina e novas técnicas médicas para salvar e prolongar a vida. Ele foi imediatamente desafiado por membros da audiência, que estavam enfurecidos, a contar a história completa, não apenas os bits que se ajustavam à sua visão de ciência Panglossiana. E sim quanto às bombas atômicas e outras armas de destruição em massa? Não foram esses também produzidos por cientistas? Foi um momento desconfortável. Era como se uma cortina tivesse sido afastada, permitindo-nos ver um segredo sombrio que todos preferiam manter escondido.

A ambiguidade moral da ciência surge em parte porque a ciência é eticamente cega e em parte, porque é empreendida e aplicada por seres humanos, com princípios moralmente conflitantes. Minhas próprias reflexões sobre esse tema remontam à época em que eu estudava química na Universidade de Oxford, no início dos anos 70. Naquela época, assumi uma atitude fortemente otimista e positiva em relação às ciências naturais, via como um empreendimento intelectual que era maravilhoso por si só e que também abriria um caminho para a extensão da vida humana e a eliminação das doenças e da pobreza. E eu estava certo sobre isso, mas apenas em parte.

A complexidade das coisas começou a surgir em mim enquanto trabalhava em rotas sintéticas para orgânicos complexos e compostos. A principal autoridade sobre o assunto foi o cientista de Harvard Louis Frederick Fieser (1899-1977), cuja série clássica Reagents for Organic Synthesis me ajudou com muitas ideias para o meu próprio trabalho. Fieser e sua esposa foram pioneiros na síntese artificial de uma série de importantes compostos naturais, incluindo a cortisona e a vitamina K, necessária para a coagulação do sangue [5]. Os brilhantes procedimentos sintéticos de Fieser tornaram os importantes produtos químicos muito mais baratos e amplamente disponíveis, com resultados altamente benéficos para o atendimento ao paciente.

Foi só mais tarde, no entanto, como pesquisador graduado no Departamento de Bioquímica da Universidade de Oxford, que eu soube que Louis Fieser também estivera envolvido em outro projeto durante a Segunda Guerra Mundial. O exército dos EUA precisava urgentemente de uma arma química adequada para eliminar as concentrações de tropas nas selvas e cidades no teatro de guerra no Pacífico. Fieser e sua equipe de químicos em Harvard ganharam o contrato para desenvolver essa arma de destruição em massa. Eles inventaram o “napalm”, um gel de petróleo que ficava preso em prédios e corpos humanos. Uma vez inflamado, não pode ser removido ou extinto. Testes confirmaram ser uma arma ideal para bombardear as cidades japonesas. Napalm provou ser um sucesso militar fenomenal, matando mais civis japoneses do que as duas explosões de bombas atômicas de 1945 juntas. [6]

Quando eu soube deste fato, fiquei profundamente em conflito com Fieser. Como alguém que foi pioneiro nas formas de sintetizar produtos químicos que estenderiam a vida humana e aumentariam sua qualidade, também foi responsável pelo desenvolvimento químico especificamente projetado para acabar com a vida em escala industrial, de uma forma horrivelmente desumana? O impacto do napalm em soldados e civis japoneses era psicológico, não meramente físico, evocando o horror de ser queimado vivo de uma maneira horrivelmente dolorosa [7]. Minha percepção de Fieser mudou, tornando-se mais escura e mais inquietante, refletindo em parte minha dificuldade em manter esses aspectos de sua carreira profissional juntos em minha mente, e em parte porque isso desencadeou uma questão mais preocupante. E se essa ambiguidade moral de um grande cientista também for incorporada dentro da própria ciência?

Agora essa preocupação não é novidade. Afinal, muitos físicos experimentaram ansiedades semelhantes sobre o uso militar de sua ciência para desenvolver armas nucleares. Aos poucos, cheguei à conclusão de que a ciência não era boa; era neutra. Era algo capaz de ser usado para o bem ou para o mal. Tudo dependia das pessoas que a usava e suas motivações. A ciência é moralmente ambivalente porque os seres humanos são moralmente ambivalentes.

Então, para onde vamos? Há algumas perguntas fascinantes que eu vou tentar explicar aqui. Obviamente, vou deixar claro minha opinião, mas meu propósito real é explorar essas questões e ajudar você a pensar essas coisas por si mesmo:

  • Como podemos, de fato, tentar ver o mundo natural como algo especial e maravilhoso, em vez de algo que simplesmente exploramos para obter ganhos comerciais através da tecnologia?
  • Como podemos responder à possibilidade de aprimoramento tecnológico humano – em outras palavras, à possibilidade de podermos ampliar nossos poderes naturais através da tecnologia? Esta importante tendência é muitas vezes referida como “Transhumanismo”.
  • Como podemos, de fato, verificar a tendência de usar a tecnologia para desenvolver ferramentas de destruição, em vez de aprimoramento?

Vamos começar a pensar sobre a primeira dessas questões. Em um ensaio perceptivo intitulado “The Illusion of the Two Cultures”, o antropólogo evolucionário americano Loren Eiseley argumentou que ciência e a arte – eu incluo a religião – nascem da mesma mente e são movidos pelo poder irresistível da imaginação humana [8]. Eiseley expressou preocupação de que a academia contemporânea, através de uma implacável imposição de limites disciplinares e do seu culto ao “profissionalismo”, estivesse drenando um poder imaginativo vivificante das ciências. Os seres humanos passaram a confiar apenas nas verdades objetivas reveladas pela ciência e pelo mundo artificial que eles mesmos construíram. A categoria de mistério foi banida ou declarada redundante, significando no máximo algo que atualmente não é compreendido pela ciência. Mas e se houvesse mais coisas além disso?

Eiseley criticava o que poderíamos chamar de uma abordagem imparcial, em terceira pessoa, da ciência, que tratava a natureza como um objeto impessoal a ser investigado – e não como algo a ser respeitado, amado e admirado. Tinha que haver uma maneira de restaurar esse sentimento de admiração, e se reconectar com a sensação de fazer parte de algo maior. Os seres humanos têm o potencial de visão estereoscópica, na medida em que podem discernir o significado dentro do mundo e não simplesmente descobrir como as coisas funcionam. Uma das preocupações de Eiseley era que o progresso tecnológico estava nos transformando em criaturas de um olho só, capazes de vislumbrar um mundo reduzido, no qual as coisas são definidas em termos de sua função. A “ruptura secular de hoje entre o aspecto criativo da arte e o da ciência” representa uma fratura desnecessária e reversível, dependente de sua plausibilidade imaginativa no “embotamento deliberado da maravilha”. [9]

Em seu ensaio mais conhecido “The Star Thrower” [10], Eiseley descreve que caminhou ao longo de uma praia e encontrou um menino jogando uma estrela do mar encalhada de volta para o oceano. Eiseley inicialmente considerou isso inútil. “Você não pode salvar todos eles, então por que se preocupar em tentar? Por que isso importa, afinal?”. O garoto pensou o contrário, enquanto pegava aquela estrela do mar encalhada. “Isso fez diferença para aquela”, disse ele, jogando-a de volta ao mar.

Como cientista, Eiseley estava perfeitamente ciente de que ele não deveria ter compaixão por aquelas estrelas-do-mar, como se fossem seres reflexivos que se importam em viver ou morrer. A teoria darwiniana sustentava que o progresso evolutivo requeria a morte. Todavia, por que interferir com esse processo natural? Ainda como ser humano, ele se viu percebendo que, como cientista, ele havia perdido alguma coisa. Ele descreve: “Era como se, em algum momento o sobrenatural tenha tocado de forma hesitante, por um instante, no natural” [11]. No dia seguinte, Eiseley estava na mesma praia, jogando estrelas do mar encalhadas no oceano. Ele pensou que seria tanto um ato de renúncia de sua herança científica quanto um abraço de uma visão maior das coisas.

Talvez o mais importante, Eiseley – como um antropólogo evolucionista – sustentou que havia algo sobre a natureza humana que transcendeu suas origens biológicas. O senso humano de maravilhoso detinha a chave para a mais profunda questão da vida. Ele disse: “Nós estamos procurando por algum reino transcendente, além de nós mesmos e desejamos entender o que achamos bonito e misterioso, suspeitando que ele pode desbloquear o acesso a uma visão mais profunda da realidade”. Muitos experimentam uma sensação de estar no limiar de um mundo parcialmente vislumbrado, que parece estar além do nosso mundo cotidiano, mas de alguma forma é insinuado pelo que observamos ao nosso redor e a experiência dentro de nós.

As raízes da ciência, em última instância, estão mais ligadas a esse sentimento de admiração pela beleza e grandeza do nosso mundo do que a um desejo de entendê-lo, menos ainda de dominá-lo e redirecioná-lo para nossos próprios propósitos. É claro que é impossível separar esses três elementos do empreendimento científico. Parece que nos movemos inevitavelmente da maravilha da beleza da natureza através de uma compreensão de como a natureza funciona, através da manipulação e exploração da natureza que resulta esse entendimento. Alguns entendem isso como uma transição necessária da reflexão meramente intelectual para o negócio mais sério, de garantir a sobrevivência humana e outros como uma perda de inocência.

Eu citei sobre a manipulação da natureza, vamos nos concentrar em um aspecto específico deste tema geral: podemos mudar a natureza humana? Podemos nos manipular para eliminar recursos indesejáveis ​​e melhorar os desejáveis? Afinal de contas, já manipulamos plantas e animais para aumentar sua resistência a doenças e sua produtividade. Por que não fazer o mesmo com a natureza humana, seja através da criação seletiva ou através de algum tipo de aprimoramento tecnológico no corpo humano.

Formas clássicas do humanismo, como as que surgiram no Renascimento, enfatizavam a beleza e elegância da natureza humana, deliciando-se com a complexidade do corpo humano e com a gama de realizações. Mais recentemente, no entanto, surgiram escolas do pensamento que veem a natureza humana como “um trabalho em andamento, em que podemos aprender a remodelar de maneiras desejáveis” [12]. Se o termo “humano” designa nossa situação atual e capacidades, precisamos refletir como podemos nos tornar “pós-humanos”, transcendendo nossas origens biológicas através da tecnologia.

Estamos todos familiarizados com a maneira que poderíamos usar a criação seletiva para “melhorar” a raça humana, por exemplo, criando certas deficiências genéticas que tornam as pessoas mais propensas a doenças. No entanto, há outra opção para a transformação da humanidade em que se evita o estigma social que agora está ligado à eugenia, o aprimoramento tecnológico da humanidade. O movimento “transhumanista” defende “fundamentalmente melhorar a condição humana” através da tecnologia, permitindo-nos assim “eliminar o envelhecimento e aumentar consideravelmente as capacidades intelectuais, físicas e psicológicas humanas” [13]. Através da criação e aplicação de tecnologia, os seres humanos agora têm a capacidade de transcender seus limites biológicos. Ainda há questões complicadas sobre isso. Nick Bostrom, um dos filósofos transhumanistas mais significativos e influentes, com razão, questiona a equação simplista dos avanços tecnológicos com a noção de progresso em si [14]. Pode ser tentador referir-se à expansão das capacidades tecnológicas como “progresso”. Mas esse termo tem conotações avaliativas – de que as coisas estão melhorando – e está longe de ser uma verdade conceitual, as capacidades tecnológicas tornam as coisas melhores.

Que tipo de aprimoramento tecnológico isso pode significar?  Temos um exemplo, um dia será possível desenvolver glóbulos vermelhos artificiais, capazes de transportar oxigênio e dióxido de carbono no sangue humano. Estas células artificiais não seriam limitadas pelos materiais e pressões que surgem naturalmente, permitindo assim um desempenho muito além do alcance dos glóbulos vermelhos naturais. Alguns compreendem essa intervenção no humano como “brincar de ser Deus”. Esse é um ponto justo, embora precise de nuances cuidadosas. Afinal, os seres humanos já dependem extensivamente de intervenções científicas – como drogas e cirurgia – para promover a qualidade e ampliar o alcance de nossas vidas. A questão em discussão é se o transumanismo representa uma extensão das práticas existentes, ou uma nova abordagem, nos levando a um território ético e social desconhecido e perturbador.

Aqui está outro exemplo. Os transhumanistas destacam a importância do “atraso evolutivo” – a resposta lenta para as evoluções naturais às mudanças em nosso ambiente. A tecnologia agora nos permite inserir certos genes para traços específicos, evitando assim o atraso evolutivo. Um exemplo desse problema é a tolerância à lactose. Embora o desenvolvimento da intolerância à lactose seja adaptativo para os mamíferos, uma vez que facilita o desmame, o aumento do uso de produtos lácteos nas sociedades humanas nos últimos 5.000 anos causou problemas significativos para muitas pessoas. Este desenvolvimento é tão recente em termos evolutivos que os traços genéticos que lidam com o problema têm que se difundir para todas as populações humanas. Sendo assim, por que não inserir um gene que tenha um efeito desejável nessa situação no genoma humano, ou encontrar alguma maneira de imitar seus efeitos?

Nick Bostrom argumenta que tal aprimoramento tecnológico judicioso da humanidade poderia levar ao surgimento de “pós-humanos” com algumas ou todas as seguintes características. [15]

  1. Indivíduos poderiam viver por mais de 500 anos;
  2. O aumento considerável da capacidade cognitiva da maioria da população
  3. O sofrimento psicológico se tornaria raro.

Existem questões óbvias aqui. Esse ser humano tecnologicamente aprimorado é na verdade, algo diferente do humano? E essas melhorias tecnológicas podem ser transmitidas geneticamente? Se sim, estamos realmente falando sobre o surgimento de uma nova espécie? Os “pós-humanos” irão substituir os humanos?

Os transhumanistas frequentemente assumem que o aumento tecnológico das capacidades cognitivas humanas naturais levará à excelência moral, em relação ao egoísmo e a nossa tendência inata em direção a padrões destrutivos de pensamento e ação como devido ao retardo mental que será remediado, aumentando nossas capacidades cognitivas. É uma sugestão interessante, porém, seu status é o de uma crença não comprovada, uma aspiração encantadora, que pode não ter qualquer base na realidade. Victor Ferkis, expressou uma preocupação profunda há uma geração que talvez tenha se tornado ainda mais importante hoje, dado o rápido ritmo do desenvolvimento tecnológico. [16]

E se o novo homem combinar a irracionalidade animal do homem primitivo com a cobiça calculada e a luxúria de poder do homem industrial, embora possuindo as faculdades divinas que lhe são concedidas pela tecnologia? Este seria o horror supremo. Essa é uma das preocupações que também encontramos nos escritos de Tolkien. E se os instintos morais humanos, ou a capacidade de encenar então, forem falhos? A tecnologia moderna nos permite fazer coisas que antes eram inconcebíveis. Eles podem funcionar bem, mas eles também podem trabalhar muito mal.

Pensando sobre o problema das armas de destruição em massa. Alguns sugeriram que o anel do Senhor dos Anéis de Tolkien é realmente uma bomba atômica, uma arma tão destrutiva que ninguém se atreve a usá-lo. Não concordo com esta interpretação, embora existam certamente paralelos interessantes entre o anel do poder e as armas nucleares. Ao tentar entender o profundo pressentimento de Tolkien sobre a tecnologia, acho que é muito mais útil olhar para sua experiência de guerra tecnológica. Tolkien foi um estudante clássico no Exeter College, em Oxford, no início da Primeira Guerra Mundial. Sua família estava infeliz pois Tolkien não havia se voluntariado imediatamente para o serviço militar, mas ele decidiu terminar sua formação antes de se voluntariar no verão de 1916. Ele se juntou aos fuzileiros de Lancashire como segundo tenente, comandando homens alistados que eram principalmente das cidades de mineração, moagem e tecelagem de Lancashire. Ele foi enviado à frente Ocidental pouco antes da desastrosa ofensiva de Somme, na qual a nova tecnologia militar – especialmente a metralhadora – teve um impacto devastador na tentativa britânica de invadir as trincheiras alemãs.

Tolkien testemunhou em primeira mão os horrores e a carnificina da “Grande Guerra”, e perdeu muitos amigos íntimos. Como ele mais tarde, comentou: “Em 1918, todos os meus amigos mais chegados estavam mortos”. É bem possível que alguns aspectos representativos de Tolkien dos terrenos baldios de Mordor pode ter suas origens em sua experiência dos horrores da Frente Ocidental, especialmente durante a ofensiva de Somme. O próprio Tolkien sobreviveu, principalmente devido à recorrente e persistente febre das trincheiras, que o levou a ser invalidado de volta à Inglaterra.

Tolkien via a tecnologia como uma guerra despersonalizadora, que tornou uma batalha entre máquinas com os seres humanos como principais planejadores e vítimas desta nova forma de guerra. Em uma carta a seu filho Christopher, escrita em janeiro de 1945, durante os estágios finais da Segunda Guerra Mundial, ele novamente lamentou a mecanização da guerra. [17]

A primeira Guerra das Máquinas parece estar chegando ao seu último capítulo inconclusivo – deixando, infelizmente, todos os mais pobres, muitos enlutados ou mutilados e milhões mortos, e apenas uma coisa triunfante: as Máquinas. Como os servos das Máquinas estão se tornando uma classe privilegiada, as Máquinas serão enormemente mais poderosas. Qual é o próximo passo delas?

O amor de Tolkien pela literatura anglo-saxônica destacou a importância do herói, o guerreiro individual que mostrou bravura e honra no conflito face-a-face. Como isso se relaciona com o granizo anônimo de balas, que destruiu indivíduos como numa questão de probabilidade estatística, não envolvimento pessoal? Tolkien, formou uma amizade pessoal próxima há Oxford com CS Lewis durante a década de 1920. Seu amor pela literatura clássica inglesa era um laço entre eles; outra foi a experiência da morte anônima da guerra de trincheiras. Lewis encontrou-se idealizando as ideias de cavalheirismo, evidentes em suas descrições de batalhas nas Crônicas de Nárnia. Esta passagem de O Hobbit resume bastante as preocupações de Tolkien sobre tecnologia e guerra: [18]

Agora os goblins são cruéis, perversos e mal-humorados. Eles não fazem coisas boas e bonitas, mas fazem com muita inteligência uns … martelos, machados, espadas, punhais, picaretas, tenazes e também instrumentos de tortura, isso eles fazem muito bem. … Não é improvável que eles inventaram algumas das máquinas que desde então, tem incomodado o mundo, especialmente os dispositivos engenhosos para matar um maior número de pessoas de uma só vez… rodas, motores e explosões sempre os encantavam

Para Tolkien, a tecnologia não é necessariamente má em si mesma; os problemas estão com as motivações humanas que estão por trás do seu desenvolvimento. Embora a abordagem de Tolkien não seja totalmente clara em alguns pontos, ele parece observar pelo menos alguns aspectos do fascínio humano com a tecnologia como decorrentes de um desejo pelo poder de criação do próprio Criador. A tecnologia permite que a humanidade se torne como Deus. Tolkien, assim, distingue entre tecnologias úteis e destrutivas. Como você deve ter notado na citação que acabo de fazer de Tolkien, ele usa a frase “A Máquina” para se referir à tecnologia de coercividade, em vez de tecnologia como tal. Tolkien aqui alude ao uso da tecnologia com o propósito de dominar e coagir outras vontades [19]. A Máquina refere-se ao uso de planos ou dispositivos externos (aparelhos) em vez de desenvolvimento de poderes ou talentos internos – ou mesmo o uso desses talentos com o motivo corrompido de dominar: o mundo real, ou coagir outras vontades. A Máquina é a nossa forma moderna mais óbvia, mais relacionada com a magia do que é geralmente reconhecemos.

Deixe-me voltar aqui e extrair um tema que eu vejo nas reflexões de Tolkien. Juntamente com um louvável desejo humano de compreender o nosso mundo, há talvez outro lado menos atraente para a nossa existência – o desejo de controlar o nosso mundo e implantar esse poder para nossa vantagem. Deixe-me dar dois exemplos para ilustrar este ponto geral.

Já consideramos a ideia de “darwinismo social”. A ideia básica é bem simples. Uma vez que nós entendemos o processo pelo qual os humanos evoluem, podemos nos encarregar desse processo e redirecioná-lo para nossos próprios fins. Só os seres humanos têm inteligência e capacidade para mudar a direção de nosso próprio desenvolvimento.  A transição básica é entender como um processo natural funciona para assumir o controle disso, e usá-lo para os nossos próprios fins. Eu já explorei algumas das questões morais que surgem disso – como a suposta visão progressista da década de 1920, que tentou impedir que certos tipos de pessoas se reproduzissem, o dano que isso pode infligir no futuro potencial de sobrevivência da raça humana.

Vamos pensar em outro exemplo, que talvez seja menos conhecido, mas acho ainda mais interessante. Sigmund Freud é lembrado por sua ênfase na influência da inconsciência humana no modo como nós pensamos, individualmente e coletivamente. Outros escritores, como Gustave Le Bon, desenvolveram teorias de “psicologia da multidão”, que ajudou a dar sentido ao modo como os grupos de seres humanos se comportavam diferente daqueles indivíduos solitários. A psicologia de uma multidão difere e interage com aquela dos indivíduos dentro dele. Na década de 1920, o sobrinho de Freud – Edward Bernays – levou isso há um passo adiante. Se nós sabemos como as multidões pensam, podemos influenciar o que pensam. Novamente, vemos o mesmo padrão: entender como é um processo para poder assumir o controle desse processo. Bernays usou o termo “relações públicas” para se referir ao processo de assumir o controle do que as pessoas pensavam.

Uma de suas aplicações mais bem-sucedidas dessa abordagem foi sua vitória sobre um dos maiores tabus do início da década de 1920: mulheres fumando em público. As mulheres só podiam fumar em áreas designadas. Bernays organizou um desfile em 1929 em Nova York, que contou com modelos famosas segurando os cigarros Lucky Strike, a qual Bernays chamou de “Tochas da Liberdade”. A cobertura da imprensa sobre o evento – cuidadosamente gerido por Bernays – provou ser decisivo na mudança de atitudes do público.

Depois da Segunda Guerra Mundial, Bernays tendeu a ver a opinião pública como inerentemente perigosa. O que aconteceu na Alemanha sob Hitler mostrou como as visões de uma sociedade poderiam ser aproveitadas e controladas por uma elite corporativa, Bernays entendeu que suas ideias podiam ser manipuladas e direcionadas para fins benevolentes. Aqui está um extrato de seu trabalho de propaganda em 1928: [20]

A manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões organizados das massas é um elemento importante na sociedade democrática. Aqueles que manipulam esse mecanismo invisível da sociedade constituem um governo que é o verdadeiro poder dominante do nosso país. Somos governados, nossas mentes são moldadas, nossos gostos formados, e nossas ideias sugeridas, em grande parte por homens que nunca ouvimos falar. São eles que puxam os fios que controlam a mente do público.

No entanto, há evidências de que a ascensão dos nazistas ao poder durante a década de 1930 usou precisamente as teorias que Bernays desenvolveu na década de 1920, especialmente em seu trabalho de 1923, Crystallizing Public Opinion. Em sua autobiografia, Bernays relembra seu desânimo ao ouvir como Joseph Goebbels havia reconhecido a importância de suas ideias e as usou para provocar a nazificação na Alemanha. [21]

Karl Von Wiegand e um correspondente estrangeiro dos jornais de Hearst, e que estava nos planos midiáticos de Goebbels para consolidar o poder nazista. Goebbels mostrou a Wiegand sua biblioteca pessoal, a melhor que Wiegand já viu. Goebbels, disse a Wiegand, que estava usando meu livro Crystallizing Public Opinion como base para sua campanha destrutiva contra os judeus na Alemanha.

Voltamos ao ponto sobre o potencial de transformação da humanidade. Como vimos anteriormente, o escritor transhumanista Nick Bostrom argumenta que esse tipo de aprimoramento tecnológico da humanidade poderia levar ao surgimento do “pós-humanos” que poderiam viver por mais de 500 anos, e teriam significativamente capacidades cognitivas melhoradas. Deixe-me notar três preocupações que parecem particularmente significativas.

  • Aprimoramentos tecnológicos como estes são caros, e sua implementação será, portanto, meramente o aumentar da desigualdade global. Aqueles com os meios financeiros poderão estender seu tempo de vida; todos os outros continuaram normais. Os primeiros pós-humanos podem vir a ser americanos ricos.
  • Uma expansão significativa da expectativa de vida humana levanta imediatamente a preocupação observada por Thomas Malthus em seu ensaio sobre o Princípio da População (1798). Dado que a terra tem recursos limitados, só pode sustentar um certo número de pessoas. Embora Malthus não pudesse prever o desenvolvimento de fertilizantes químicos e culturas geneticamente modificadas, dando rendimentos melhorados, o seu ponto permanece válido.  A capacidade da Terra de produzir a comida limita o tamanho da população. Se a expectativa de vida humana aumenta para 500 anos, a população total deve ser reduzida. Caso contrário, os mecanismos de controle severos tão sombriamente notados por Malthus – guerra e fome – entraram em cena.
  • A suposição de que existe uma correlação direta entre capacidade cognitiva e discernimento moral é contestável. E se o aprimoramento tecnológico apenas ajudar e capacitar a humanidade aparentemente? Para usar uma linguagem teológica, a ascensão do transhumanismo oferece uma fuga do pecado? Ou nos faz mais vulnerável a isso? Nenhuma dessas perguntas é fácil de responder, no entanto, todos elas precisam ser questionadas. Está longe de ser claro que o avanço nos levará a decisões mais sábias e melhores do que as que fizemos no passado recente. Talvez isso nos ajude a entendemos porque alguns estão sugerindo que qualquer melhoria possível da capacidade tecnológica humana significa que, precisamos de um aprimoramento moral correspondente, se quisermos lidar com os novos – inevitáveis – desafios a nossa frente [22].Mas quem vai nos reprogramar? Afinal, essas “melhorias morais” serão desenvolvidas e escolhidas por seres humanos moralmente questionáveis, que poderiam facilmente adaptá-los para promover seus próprios interesses e preocupações.

Podemos estar no limiar de um mundo orwelliano aterrorizante no qual grupos poderosos nos reprogramam para replicar suas crenças e valores, tornando a crítica dessas coisas impossíveis através de um redirecionamento do pensamento racional humano. O admirável mundo novo de Aldous Huxley (1932) é um relato preocupante de tal desenvolvimento, no qual os seres humanos foram reprogramados em “incubatórios e centros de condicionamento”, para se adequarem à vontade de seus controladores, incluindo a geração de pessoas de menor inteligência na “Sala da Predestinação Social” para facilitar sua conformidade com as necessidades do Estado Mundial. Em vez de ter que pensar por si mesmos, eles simplesmente se conformariam ao pensamento de grupo do Estado.

De qualquer forma, tal reinicialização moral realmente mudaria as coisas? A triste verdade é que a humanidade bagunçou este mundo mais do que qualquer outro animal. Conseguimos mudar o clima global, com resultados imprevisíveis e potencialmente prejudiciais a longo prazo; desenvolvemos armas nucleares e patológicas capazes de aniquilar populações inteiras; e realizamos campanhas de genocídio sem paralelos em outras partes do reino animal. Essas melhorias nos curarão desta falha fatal? Ou será mais fácil para nós bagunçar as coisas ainda mais?

Mas o aprimoramento tecnológico pode levar à imortalidade? Anteriormente, mencionei o filósofo John Gray. Para Gray, uma das principais obsessões humanas diz respeito à imortalidade. “Ansiando pela vida eterna, os humanos mostram que eles continuam a ser o animal definido pela morte” [23]. No entanto, mesmo aqueles que não compartilham essa fixação na mortalidade humana são obrigados a reconhecer que existem limites colocados em nossa vida. Podemos procurar prolongar nossas vidas; no entanto, isso simplesmente aumentará ainda mais a pressão sobre os recursos limitados do nosso planeta e tornará a guerra ou a fome ainda mais provável. Assim por que essa ansiedade em primeiro lugar?

Muitas respostas foram dadas. O sociólogo Peter Berger sugeriu que a mortalidade humana era a verdade suprema e insuportável, apontando para a aterrorizante falta de sentido e caos que caracterizava a existência humana neste mundo. A sociedade tentou defender e proteger as pessoas deste conhecimento insuportável, protegendo-as contra esse terror, afirmando a existência de significado e ordem em um universo aparentemente sem sentido e caótico [24]. Os seres humanos precisam ser protegidos por ilusões de significado contra esse sentido, reino caótico de desordem, desintegração e morte. Tolkien falou de seres humanos girando “sonhos de realização de desejos” para consolar e enganar “nossos corações tímidos”, enquanto vê esse instinto humano como um sinal de um horizonte maior que chamou a atenção para ser explorado [25]. Essa relutância humana em aceitar nossa própria mortalidade também esteve no coração da monografia ganhadora do Prêmio Pulitzer de Ernest Becker, The Denial of Death (1973). Para Becker, os seres humanos são movidos pelo desejo de negar a morte, transcendê-la ou criar significado em sua face.

A história é generosa em sua provisão benevolente de exemplos divertidos para ilustrar as tentativas humanas de negar, enganar ou conquistar a morte. Um dos mais interessantes são as tentativas feitas pela “Comissão de Imortalidade” soviética para preservar o corpo de Lênin após sua morte em 1924 – não apenas como um símbolo poderoso da Revolução Russa, mas como uma afirmação da capacidade humana de alcançar a imortalidade sob o marxismo/leninismo [26]. Leonid Krasin era um engenheiro que acreditava que os mortos poderiam ser tecnologicamente ressuscitados. Quem melhor do que Lênin merecia ser o primeiro a compartilhar esse privilégio? Em uma série de experimentos notáveis, Krasin usou a refrigeração para preservar o corpo de Lênin, não apenas para que sua exibição pública pudesse edificar as massas soviéticas, mas pela demonstração da capacidade soviética de vencer a morte. Afinal, a União Soviética surgiu com a derrubada forçada da Rússia imperial. Por que não acabar com a tirania da morte da mesma maneira? O cristianismo falou sobre a ressurreição do corpo. O marxismo/leninismo poderia fazer melhor do que isso e falou da preservação tecnológica do corpo. Pode não corresponder à esperança da vida eterna, mas pelo menos ofereceu a esperança da preservação física eterna.

Infelizmente, embora talvez não surpreendentemente, os experimentos criogênicos primitivos de Krasin estavam fadados ao fracasso. O corpo de Lenin logo começou a mostrar sinais inconfundíveis de decadência. Krasin exigiu que um refrigerador melhor fosse importado da Alemanha para interromper esse processo de deterioração. No entanto, continuou inabalável e irresistível. Em sua morte, Lenin demonstrou sua verdadeira humanidade. Seu nariz começou a perder a forma e seus olhos começaram a recuar para as órbitas. No final, a única solução era reembalsamar o corpo de Lenin regularmente, e esperar que ninguém notasse que a morte não havia sido derrotada nem transfigurada.

O avanço do conhecimento dentro de uma União Soviética tecnocrática possibilitaria à humanidade conquistar a morte sem a necessidade de assistência divina. O problema era que ele não cumpriu essa promessa básica. O transhumanismo, claro, assumiu esse desafio, com a promessa de prolongar a vida humana. No entanto, não se fala em imortalidade. Sabiamente, o transhumanismo limitou-se ao adiamento do inevitável, em vez de prometer o impossível.

Agora, as preocupações de Tolkien sobre a tecnologia poderiam ser facilmente descartadas como uma forma de reação lúdica contra o progresso mecânico. Entendo esse ponto, mas não posso deixar de sentir que ele levanta algumas questões importantes sobre o nosso futuro humano, que precisamos considerar com cuidado, especialmente à luz das atitudes pragmáticas da nossa cultura. Vou contar uma história que parece se enquadrar estas preocupações. Em 1942, a Universidade de Stanford, na Califórnia, abriu sua nova escola de ciências humanas. A comemoração desse evento foi um pouco abafada, pois os Estados Unidos estavam presos em um novo conflito global, tendo declarado guerra ao Japão, após o bombardeio de Pearl Harbor em dezembro de 1941. [27] John W. Dodds, o primeiro decano da Escola de Humanidades, admitiu que não era um momento particularmente adequado para celebrar as conquistas culturais humanas. Por que estabelecer “um posto avançado das humanidades” e falar sobre o “lugar da cultura em nossa civilização”, quando essa própria civilização parecia estar à beira do desastre? [28]

Dodds reconheceu o ponto. Os desastres em que o mundo despencara nas últimas décadas pareciam falar mais de desumanidade e insanidade do que das grandes virtudes culturais humanas. Dodds ofereceu um relato sóbrio dos enigmas e inconsistências da natureza humana, acima de tudo a necessidade de confrontar nossa capacidade de destruição.

O desenvolvimento tecnológico humano foi acompanhado por uma progressiva desumanização da sociedade. O homem ganhou domínio de seu ambiente, mas ele parece ser cada vez menos senhor de si mesmo. Hoje o vemos virando as armas de seu cérebro contra si mesmo, tateando em meio ao ruído de uma civilização cambaleante, por alguma fé no homem a quem ele possa se apegar.

Essa era a grande preocupação de Tolkien – que uma tecnologia projetada por seres humanos para dominar o mundo poderia acabar conquistando a própria humanidade e degradando os aspectos mais fundamentais do ser humano. Existe alguma falha dentro de nós que nos impele a fazer isso?

REFERÊNCIAS:

* Alister McGrath é professor de ciência e religião de Andreos Idreos na Universidade de Oxford e um dos teólogos mais respeitados

  1. Caitlin Moran, How to Build a Girl (London: Ebury 2015), 53; [edição em português: Como ser Mulher (São Paulo: Editora Paralela, 2012)]
  2. John Gray, Straw Dogs: Thoughts on Humans and Other Animals (London: Granta, 2002), 29; [edição em português: Cachorros de Palha: Reflexões sobre Humanos e Outros Animais (São Paulo: Editora Martins Fontes, 2013)]
  3. Gray, Straw Dogs, 14.
  4. Primo Levi, The Black Hole of Auschwitz (Cambridge: Polity, 2005), 4-5.
  5. Louis F. Fieser, “The Synthesis of Vitamin K.” Science 91 (1940): 31-6.
  6. For the story of Fieser’s intimate association with this development, see Robert M. Neer (Napalm: Na American Biography. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2015), 5-44.
  7. Described in Neer, Napalm, p. 60.
  8. Loren Eiseley, The Star Thrower (New York: Harcourt Brace & Co., 1978, 267-79.
  9. Eiseley, The Star Thrower, 271.
  10. Ibid., 169-85.
  11. Ibid., 182.
  12. http://www.nickbostrom.com/ethics/values.html
  13. Julian Savulescu, R. H. J. ter Meulen, and Guy Kahane, Enhancing Human Capacities . (Oxford: Wiley-Blackwell, 2011).
  14. http://www.nickbostrom.com/papers/future.pdf
  15. http://www.nickbostrom.com/papers/future.html
  16. Victor C. Ferkiss, Technological Man: The Myth and the Reality (New York: New American Library, 1970), 34; [edição em português: O Homem Tecnológico: Mito ou Realidade (São Paulo: Editora Zahar, 1972)]
  17. Humphrey Carpenter (ed.), The Letters of J.R.R. Tolkien (Boston: Houghton Mifflin , 1981), 111; [edição em português: Biografia J.rr Tolkien (Nova Iorque: HarperCollins, 2018)]
  18. J. R. R. Tolkien, The Hobbit, or, There and Back Again. 4th ed (London: Allen and Unwin, 1978), 62; [edição em português: O Hobbit (São Paulo: Editora Martins Fontes, 2012)].
  19. Tolkien, Letters, 146.
  20. Edward Bernays, Propaganda (New York: Liveright, 1928), 27.
  21. Edward Bernays, Biography of an Idea: Memoirs of Public Relations Counsel (New York: Simon and Schuster, 1965), 652.
  22. Ingmar Persson and Julian Savulescu, Unfit for the Future: The Need for Moral Enhancement (Oxford: Oxford University Press, 2012).
  23. John Gray, The Immortalization Commission: The Strange Quest to Cheat Death. (New York: Farrar Straus & Giroux, 2011), 235.
  24. Peter Berger, The Sacred Canopy (New York: Doubleday, 1965); [edição em português: Dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião (São Paulo: Editora Paulus, 2018)].
  25. J. R. R. Tolkien, Tree and Leaf (London: HarperCollins, 2001), 87; [edição em português: Árvore e a Folha (São Paulo: Editora Martins Fontes, 2013)].
  26. For what follows, see Gray, Immortalization Commission, 156-67.
  27. Charles Dorn, “Promoting the ‘Public Welfare’ in Wartime: Stanford University During World War II.” (American Journal of Education 112, no. 1, 2005): 103-28.
  28. John W. Dodds, “The Place of the Humanities in a World of War”. Vital Speeches of the Day 9 (1943): 311-314.

 

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