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Por que tantos cientistas desprezam a filosofia?

Por que tantos cientistas desprezam a filosofia?
 
Originalmente publicado em: The Week
Autor: Pascal-Emmanuel Gobry
Tradução: Tiago Garros

A ciência tem um enorme prestígio e autoridade em nossa cultura – por razões muito compreensíveis! E isso tem levado os cientistas (e os não-cientistas que veneram a ciência) a reivindicar autoridade pública, o que é muito bom, nas suas áreas de especialização. O problema é quando eles reclamam autoridade em áreas onde eles não têm muita experiência.

Um exemplo recente é Bill Nye, “the Science Guy” [a versão popular americana do que foi o Beakman no Brasil] , que não é um cientista de verdade, mas que deve sua carreira como artista popular à sua suposta competência científica. Recentemente foi pedido para Bill Nye opinar sobre se a filosofia é uma carreira que vale a pena ser buscada.

[Veja o vídeo aqui: https://youtu.be/ROe28Ma_tYM ]

Como observa Olivia Goldhill no [site] Quartzo, a resposta de Nye foi tão auto-confiante como incrivelmente ignorante. Aqui está Goldhill:

O vídeo, que fez toda a comunidade de filósofos dos EUA coletivamente se engasgar com seu café expresso da manhã, é difícil de assistir, porque a maioria das declarações de Nye estão erradas. Não apenas meio erradas, mas profundamente, ridiculamente erradas. Ele funde questões sobre consciência e realidade como se elas fossem um e o mesmo tema, e interpreta erroneamente o argumento de Descartes “Penso, logo existo” – para mencionar apenas dois dos muitos exemplos. [Quartz]

Nye caiu na mesma armadilha em que Neil de Grasse Tyson e Stephen Hawking já foram apanhados. A filosofia, esses homens da ciência opinaram, é em grande parte inútil, porque não pode nos dar o tipo de respostas seguras que a ciência pode, e ela equivale a pouco mais do que especulação.

Há, obviamente, um grão de verdade nisso. A filosofia não nos dá a certeza que a matemática ou a ciência experimental nos dão (mas, mesmo assim – como muitos filósofos nos lembrariam – estes campos não nos dão tanta certeza quanto às vezes se reivindica). Mas isso não significa que a filosofia seja inútil, ou que não tem rigor. De fato, em certo sentido, a filosofia é inevitável. Só o argumentar que a filosofia é inútil já é fazer filosofia. Além disso, algumas questões existenciais simplesmente não podem ser ignoradas, e a filosofia é uma das melhores maneiras, ou pelo menos a menos pior, que inventamos para abordar essas questões.

Mais direto ao ponto, e mais praticamente, todas as instituições que tornam a vida moderna possível, incluindo certamente a ciência experimental, mas também coisas como o capitalismo de livre mercado, o estado de bem-estar, a democracia liberal, os direitos humanos, e mais, são construídos sobre filosofia. Todas estas coisas são instituições culturais: elas existem porque muitas pessoas acham certas ideias valiosas e decidem agir baseados nelas. Do ponto de vista histórico, a razão pela qual temos o método científico moderno é porque ele foi inventado por pessoas, incluindo filósofos como Francis Bacon, e refinada por outros filósofos como Karl Popper. E se as ideias que estão na base destas instituições culturais se perderem, ou tornem-se mal interpretadas ou mal-compreendidas, estas instituições culturais podem funcionar mal. Este é exatamente o caso da ciência.  O que significa que precisamos, no mínimo, de elites que possam entender essas ideias.

Em vez disso, nós nos tornamos em uma cultura filosoficamente analfabeta no geral. Praticamente todos os dias você pode encontrar exemplos de pessoas que exibem o analfabetismo cultural de forma impressionante – pessoas em posições onde isso simplesmente não deveria acontecer. A grande tradição filosófica sobre a qual a nossa civilização é construída simplesmente não é ensinada. Mesmo os currículos de liberal arts [“artes liberais, conforme a organização americana de cursos superiores“] em muitas faculdades não ensinam os pensadores mais influentes. Se as nossas elites não estão sendo ensinadas sobre essa grande tradição, então não deve ser nenhuma surpresa que um subconjunto dessa elite – os cientistas experimentais e seus puxa-sacos – também não saibam disso.

Isso é parte do problema. Mas é apenas uma parte dele. Afinal, como um grupo, os cientistas têm um interesse objetivo óbvio em que a ciência experimental seja reconhecida como o único caminho para o conhecimento válido e, portanto, têm um interesse em desprezar outros caminhos para o conhecimento como menos válidos. As pessoas que ouvem a opinião de cientistas sobre a filosofia devem sempre ter isso em mente.

E depois há outro fator em jogo. Muitos, embora certamente não todos, dos cientistas que opinam mais alto sobre a inutilidade da filosofia são ateus públicos. A forma de ateísmo que eles promovem é geralmente conhecido como “eliminativismo” (ou materialismo eliminativo), ou a noção de que a matéria é a única coisa que existe. Esta teoria é motivada pelo “cientificismo”, ou a noção de que as únicas coisas cognoscíveis são cognoscíveis pela ciência. Um tanto paradoxalmente, essas proposições são essencialmente religiosas – para descartar porções inteiras da experiência humana e do pensamento humano é necessário um empreendimento de fé. Tais proposições também não são “religião” muito inteligente, uma vez que eles acabam simplesmente “afastando aos gritos” proposições inconvenientes.

O fundamentalismo não é um sistema de crenças ou uma religião, é um estado de espírito. Pode haver religião fundamentalista, ateísmo fundamentalista, socialismo fundamentalista, libertarianismo fundamentalista. O que todos eles têm em comum é, nas palavras de David Bentley Hart, “uma recusa obstinada de pensar.” O fundamentalista não é aquele cujas ideias são muito simples ou muito rudimentares. Ele é o aquele que teimosamente se recusa a refletir, seja sobre outras ideias, ou sobre suas próprias.

Infelizmente, muitas das nossas maiores mentes nos dão um exemplo deste estado de espírito.

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