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Os três Big Bangs (Parte 3)

por Roberto Covolan

 

 

Noogênese: a singularidade da consciência

“A física dos quanta e a metafísica dos qualia”: este seria o título de um artigo que eu escreveria se tivesse (estofo intelectual para isso e) uma ideia, escassa que fosse, porém minimamente defensável, de algum possível tipo de conexão entre estes dois entes. E por que haveria de haver algum? Explico. Antes, porém, alguma terminologia.

Quanta é o plural da expressão em latim quantum, que tem sido utilizada há mais de um século para designar o fato de que, em física atômica e subatômica, as grandezas físicas se manifestam em quantidades discretas, chamadas justamente de quanta. Fótons, por exemplo, são quanta de luz. Qualia, por sua vez, é também o plural de uma expressão em latim, quale, que designa a dimensão qualitativa de uma experiência subjetiva. Poderíamos ficar com esta definição sucinta, mas a importância do assunto requer uma caracterização mais detalhada.

Quale é “este sentimento irredutivelmente subjetivo de como é experimentar algo, o aspecto fenomenal do conhecimento, a impressão privada que se tem de uma realidade sensível (uma cor, um tom musical, uma fragrância, uma pontada de dor, etc.), ou de uma realidade mais impalpável, mas ainda perceptível (uma atmosfera emocional, uma memória, uma fantasia, um efeito estético, um humor pessoal). Qualia é o que define e diferencia nossas experiências, o que torna possível distinguir o azul do vermelho, do amarelo ou do verde como propriedades sensíveis, ou distinguir um som de uma visão, é o que determina nossos gostos e desgostos, prazeres e desagrados, o que confere às coisas do mundo este ou aquele caráter para nós.” [1]

A questão dos qualia é central, pois está na base de nossa vida mental (noética), pois eles “constituem a dimensão mais pura, mais imediata e inalienável da consciência pessoal, sem a qual não pode haver experiência privada, nem identidade pessoal; sem os qualia não há consciência subjetiva.” [1]

O problema da natureza da consciência subjetiva tem atravessado os séculos incólume, embora nas últimas décadas tenha recebido investidas de diferentes fronts, da física quântica à filosofia da mente, passando pela neurociência computacional e, obviamente, pela neurologia.  Passando até por aqueles que tentam “resolver” o problema, negando a sua existência (e.g. Daniel Dennett). Uma boa introdução ao tema é o livro do filósofo da mente David Chalmers, The Conscious Mind [2]. Um apanhado sobre as vertentes mais difundidas pode ser encontrado em O Mistério da Consciência, do também filósofo John Searle [3].

Ao examinar o enigma da consciência, muitos (quem sabe, a contragosto) acabaram por convergir para o que se convencionou chamar de hiato explanatório (explanatory gap). Este hiato explanatório pode ser colocado nos seguintes termos: ainda que cheguemos a ter o conhecimento pleno da estrutura e funcionamento dos neurônios e de toda a bioquímica associada, ainda que venhamos a caracterizar de forma total e acabada todas as possibilidades de interconexão neuronal e conectividade cerebral, ainda que venhamos a desvendar até os mínimos pormenores todas as estruturas organizativas e funcionais de todas as redes neurais, ainda assim permanecerá uma lacuna de conhecimento que nos impedirá de explicar como tal portento neurofisiológico pode dar origem ao fenômeno subjetivo de experienciar algo.

Ou seja, ainda que tenhamos uma quantidade infindável de informações que deslindem todos os meandros de funcionamento do nosso aparato cerebral, isso não irá permitir avançar um milímetro sequer no entendimento de onde se originam os aspectos qualitativos associado a uma experiência subjetiva, qualquer que seja.

E por que não? Porque o hiato explanatório referido acima não é meramente conceitual ou mecanicístico, mas ontológico, e aponta para um aspecto absolutamente singular da realidade em que vivemos imersos. Nós vivemos no mundo e o mundo vive em nós. Num certo sentido, o mundo tem existência em nós. Em nossa consciência.

Esta constatação, porém, não é mais do que um vestígio de algo bem maior, já ideado por pensadores de outros tempos: “As tradições contemplativas e filosóficas, orientais e ocidentais, insistem nisso: que a origem e fundamento da unidade da mente é a realidade transcendente da unidade enquanto tal, a simplicidade de Deus, fundamento único da consciência e do ser. Para Plotino, a unicidade do nous, o ápice intelectivo do self, é uma participação no Uno, a origem divina de todas as coisas e fundamento da abertura da mente e do mundo um para o outro.” [1]

Talvez agora fique mais claro para o leitor porque eu chamaria aquele meu artigo de “A física dos quanta e a metafísica dos qualia” e tenha aludido à ausência de nexo entre os respectivos campos. Aqui, novamente, há um gap fundamental, uma descontinuidade essencial, uma singularidade irremovível.

O meu intuito ao colocar em evidência estas questões (cosmogênese, biogênese e noogênese) não é tanto elaborar em profundidade sobre elas, mas chamar a atenção para estas singularidades, que são alvo de grandes debates e disputas nos campos científico e filosófico, e apontar aspectos fundamentais associados a elas que, na minha visão, abrem fendas definitivas em qualquer tentativa de se estabelecer uma narrativa naturalista monolítica sobre a realidade do mundo natural. Decididamente, a natureza não é um sistema causalmente fechado. Por essas fendas mesmo o mais persistente cético pode ter vislumbres do Absoluto.

 

Cristo: a singularidade essencial

“No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.” (João 1:1-3)

É curioso que João, no prólogo de seu evangelho, apresente o Senhor Jesus com a expressão Logos, que possui vários significados carregados de sentido filosófico. Em decorrência disso, esta é uma palavra que pode ser traduzida de muitas maneiras. Por volta do ano 400 d.C., quando Jerônimo traduziu a Bíblia para o latim, dando origem à Vulgata, usou a expressão Verbum. Às vezes, em nossas traduções, aparece a expressão Palavra. Mas, um dos significados mais recorrentes para Logos é Razão.

Ainda que o significado preciso e originário intencionado por João seja matéria de investigação e disputa entre os experts, faz sentido pensar no âmbito da cosmovisão cristã que, como todas as coisas vieram à existência pelo Logos divino, toda a criação seja marcada pela racionalidade logóica e tenha a sua dinâmica conduzida de acordo com princípios racionais que, com o advento da ciência moderna, foram identificados como leis naturais. Quanto a nós, seres humanos, faz sentido considerar que o privilégio com o qual fomos contemplados, de termos sido criados à imagem e semelhança de Deus, nos confira a condição especial de sermos dotados de uma racionalidade que reflita a racionalidade divina, a mesma que foi impressa em toda a criação. Assim, pode-se dizer que há um logos (razão) implantado no coração da criação, manifesto nas regularidades, padrões e dinâmicas que governam os processos naturais; e que este logos (razão) procede do Logos divino, está submetido a Ele e para Ele converge (Efésios 1:10).

Esta visão, inteiramente ancorada nas Escrituras e plenamente satisfatória do ponto de vista intelectual, torna, por um lado, compreensíveis as razões pelas quais é possível fazer ciência e, por outro, oferece uma explicação notavelmente simples para o enigma que tanto incomodava Einstein, na sua expressão de que: “Uma das coisas mais incompreensíveis a respeito do universo é que ele seja compreensível.”

O enigma de Einstein simplesmente evapora diante do entendimento de que “se acreditarmos que a estrutura da realidade pode verdadeiramente ser refletida na estrutura do nosso pensamento, devemos também acreditar que existe uma dimensão ideal ou abstrata ou puramente inteligível da realidade que corresponde às categorias e conceitos que nos permitem compreender o mundo.” [1]

Refletindo a respeito dos últimos avanços da física e da biologia molecular, Bentley Hart faz um comentário que vai direto ao ponto: “… ambas as ciências continuam de maneiras muito diferentes a revelar camadas de inteligibilidade cada vez mais profundas, sendo ambas inspiradas pela fé na racionalidade das leis naturais e no poder dos paradigmas conceituais de refletir as verdades racionais sobre as quais a realidade é construída.” [1]

Esta convicção de que a realidade foi construída sobre verdades racionais, em grande parte acessíveis à nossa razão (mas, nem tudo: vide as singularidades mencionadas anteriormente), me leva a uma conclusão bastante otimista quanto ao futuro desenvolvimento da ciência: quanto mais a ciência avançar, mais se tornará evidente que o universo tem sua origem última (e primeira) no Logos divino. “Ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste.” [4]

 

* Está é a terceira e última parte de um artigo publicado originalmente no Boletim da ABC2 de Dezembro/2017.

 

Referências

[1] David Bentley Hart: The experience of God (Yale University Press, 2013).

[2] David J. Chalmers: The Conscious Mind (Oxford University Press, 1996).

[3] John R. Searle: O Mistério da Consciência (Paz e Terra, 1998).

[4] Colossenses 1:17

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