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O Problema de Só Fazer o Seu Trabalho – Parte I

por Fernando Pasquini Santos

 

“Meu caro, eu só estou fazendo o meu trabalho.”

 

Certa vez, ao demonstrar minha irritação no meio de uma chamada de telemarketing no meio de um almoço com a família, ouvi esta resposta. Desde então, tenho reparado no quanto ela é comum, e isso tem me deixado perplexo. Não são poucos os autores que tenho lido que, ao lidar com a especialização do trabalho moderno, principalmente na ciência e tecnologia, chegam à conclusão a maioria de nossos males existem por causa de pessoas que “só estão fazendo o seu trabalho”. E, ao contrário da maioria das discussões de bar, creio que a questão vai mais longe do que simplesmente jogar Hitler na conversa como um exemplo extremo (no caso, falar de seus soldados que matavam apenas cumprindo ordens). Portanto, deixe-me desenvolver melhor o que é que tem me preocupado, e aplicar isso principalmente ao trabalho que se realiza hoje com ciência e tecnologia. Começarei com um comentário de Arnold Pacey, em seu livro “Meaning in Technology”:

 

“A ciência, na melhor das hipóteses, é a mais alta conquista do intelecto humano, mas a prática da ciência e sua aplicação na tecnologia está cheia de paradoxos, nos quais os ideais mais nobres de verdade (e caridade Baconiana) coexistem muito de perto – às vezes nas mesmas mentes – com tendências fortemente hostis à vida humana. […]

 

O desenvolvimento da divisão de trabalho e sua elaboração em burocracias podem também tornar mais difícil ver as conexões entre o trabalho diário de alguém e as pessoas afetadas por ele, assim como a operação de uma economia de mercado. Onde quer que o trabalho seja altamente especializado e burocrático, ou remoto ao comprador final, o indivíduo geralmente está ciente apenas da tarefa imediata. A responsabilidade técnica no escritório ou a retidão financeira no mercado se tornam mais importantes do que a responsabilidade moral pelo que os produtos e os processos na verdade fazem.

 

Por exemplo, a subdivisão de tarefas em uma fábrica de napalm, e o fato de que ninguém esteja conectado com seu uso militar, garante que nenhum indivíduo é completamente responsável pelos bebês queimados que resultam de seu uso. A maioria dos trabalhadores na fábrica podem entender o processo que operam como uma aplicação da tecnologia moralmente neutra, e que a possibilidade de que algum ser humano seja queimado não estaria em suas intenções. Quando o napalm foi usado pela primeira vez, ele não era sempre efetivo uma vez que, se a vítima fosse rápida o suficiente, ele ou ela poderiam removê-lo da pele. Durante a Guerra do Vietnã, os químicos industriais foram perguntados sobre como fazê-lo grudar, uma solicitação que poderia ser disfarçada com abstrações científicas, e que foi resolvida com a adição de poliestireno. Para os químicos, esta era uma questão estreitamente técnica, e eles não precisavam refletir sobre a forma na qual o napalm iria agora ‘continuar queimando até chegar aos ossos’. Nem a tripulação aérea que o jogava nos aldeões vietnamitas precisavam pensar nisso, à medida que tinham vislumbres bastante vagos de seus alvos. Ninguém chegou a encarar a realidade daquilo que estava fazendo.

 

As pessoas podem, desta forma, ser criativas em tarefas com objetivos impensáveis, e frequentemente desejam se destacar na performance técnica daquilo que fazem, uma vez que as burocracias e a divisão do trabalho têm o efeito de tornar meios em fins. Rotinas em laboratórios, fábricas e oficinas, ou em aeronaves, tornam-se trabalhos a serem feitos conscientemente como fins em si mesmos.” [1]

 

Pacey chega a sugerir, com base em literatura adicional, que até mesmo que o sucesso da invenção da câmara de gás na Alemanha nazista devia-se ao isolamento entre o executor e suas vítimas [2] (enfim, citou-se Hitler…). Ao não presenciar o sofrimento, o executor nazista não tinha a consciência tão incomodada, algo que não ocorria antes, com os fuzilamentos. O sujeito estava “apenas fazendo o seu trabalho”.

 

Estes são exemplos extremos, mas se prestarmos um pouco mais de atenção, veremos que o problema do distanciamento entre o trabalho e suas consequências se estende a todas as outras áreas da sociedade, para além de aplicações militares ou que causem danos diretos à vida humana ou ao meio ambiente. A discussão sobre responsabilidade em uma época na qual atribui-se um caráter “sistêmico” à tecnologia tem sido foco de atenção de vários autores. Sytse Strijbos, em um interessante artigo intitulado “Ethics and the Systemic Character of Modern Technology” (“Ética e o Caráter Sistêmico da Tecnologia Moderna”), faz questão de citar um comentário de Ulrich Beck aludindo a uma situação bastante típica:

 

“O sociólogo alemão Ulrich Beck observou que a sociedade moderna se tornou um laboratório no qual ninguém é responsável pelo resultado do experimento. Ele até mesmo se aventura a falar de uma irresponsabilidade organizada. Os políticos, por exemplo, livram-se de qualquer responsabilidade, dizendo que não produzem tecnologia, e podem, no máximo, apenas influenciar o seu desenvolvimento indiretamente. Enquanto isso, cientistas e tecnólogos alegam que sua única tarefa é se engajar em pesquisa sólida e criar novas possibilidades tecnológicas. Eles negam a responsabilidade pelo que é feito com os seus resultados. Os líderes de negócios, no entanto, também afirmam que não são eles que acabam determinando o que acontece ou não. Eles dependem do mercado para determinar isso. O consumidor, argumentam eles, tem a palavra final para decidir o que é o preferido.” [3]

 

Questões como essas também são alvo de crítica na obra do professor Willem H. Vanderburg. Ele compara a super-especialização e o pensamento compartimentalizado (que ele chama de “abordagem baseada em disciplinas”, em contraste a uma abordagem dialética, ou baseada em cultura) a um homem que dirige um carro olhando somente os medidores de velocidade e instrumentos, sem olhar pelas janelas. Diz:

 

“Os especialistas […] não conseguem ‘ver’ intelectualmente, e muito menos lidar com, a maioria das consequências negativas de suas decisões porque estas vão além de seus domínios de expertise. Eles não conseguem simbolizar suas experiências profissionais em relação a todas as outras coisas.” [4]

 

Com isso,

 

“Temos que confrontar a possibilidade de que nossas crises econômicas, sociais e ambentais têm uma raiz comum: nós não mais ‘conectamos os pontos’ para garantir que aquilo que alcançamos em uma área (quando medido por um certo critério) não é prejudicado pelas suas consequências em outras áreas (quando medidas por outros critérios).” [5]

 

Em outras palavras, temos que confrontar a possibilidade de nossas crises existirem pelo fato de que todos estão “apenas fazendo o seu trabalho”. Isso soa pesado, não? Mas às vezes noto como é difícil, em nossos dias, levantar qualquer questionamento acerca da fonte de renda de alguém (inclusive a própria) a partir de considerações sobre seus efeitos no mundo. Isso ocorre não só porque o utilitarismo social predominante faz todos acreditarem que estão servindo a sociedade de alguma forma (que nunca se sabe como), mas também porque, mesmo quando um efeito negativo do trabalho acaba sendo percebido, é muito fácil transferir qualquer responsabilidade sob a alegação de neutralidade tecnológica (“as pessoas podem usar para o bem ou para o mal”). Certamente, há muito a se refletir sobre como tratar esta questão, e até mesmo como ser sensível com as pessoas ao tocar em assuntos sérios como esse; afinal, uma fonte de renda não é um assunto trivial. Inclusive, precisamos reconhecer que muitas pessoas não têm muitas alternativas além de uma cooperação com a Babel moderna, e eu diria que é praticamente impossível não fazer isso hoje (entrarei nesses assuntos no último post). No entanto, também temo que, por trás de muitas das ofensas decorrentes do questionamento de certos tipos de trabalhos, exista uma idolatria, vendo o trabalho como fonte da mais alta e inquestionável dignidade humana, como se fosse bom em si mesmo, independente de seu conteúdo. Se sustenta a família – e ninguém negaria que a família é algo bom – então está automaticamente justificado.

 

O problema é que o individualismo moderno, mesmo quando sob uma justificativa de sustentar famílias, não é uma razão suficiente para julgarmos todo trabalho como bom. Assim, excluindo os casos onde as pessoas podem não ter escolha ao fazer o que fazem, perguntamos: se nosso trabalho pode ser tão ruim ao separar o trabalhador dos resultados de seu trabalho e, assim, gerar crises sociais e ambientais, por que, então, nos sentimos tão confortáveis com ele? Este, afinal, é um dos objetivos do livro de Arnold Pacey, o qual, ao analisar a experiência humana da tecnologia, pretende mostrar como a atividade científica e tecnológica muitas vezes manifesta um conflito entre o significado pessoal da prática tecnológica e o significado social e político da mesma [6]. Este será o assunto do próximo post, no qual apresentarei alguns dos problemas que Pacey e outros autores têm identificado, que cooperam para que nos sintamos confortáveis demais, ou auto-justificados, em nossos trabalhos. Subsequentemente, concluirei a série com um post apresentando direções para uma resposta cristã a esta questão.

 

CONTINUE LENDO – SEGUNDA PARTE

 

Notas

[1] Arnold Pacey, Meaning in Technology, Cambridge: MIT Press, 1999, pp. 172-7. Tradução livre minha.

[2] Ibid., 180.

[3] Sytse Strijbos, “Ethics and the Systematic Character of Modern Technology.”, Techné: Research in Philosophy and Technology 3.4 (1998): 160-169.

[4] Willem H. Vanderburg, Our War in Ourselves, Toronto: University of Toronto Press, 2011, p. 15. Tradução minha.

[5] Ibid., 3-4.

[6] Pacey, Meaning in Technology, 89.

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