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O Problema de Só Fazer o Seu Trabalho – Parte 3

Direções para uma Resposta Cristã

por Fernando Pasquini Santos

 

Nos últimos dois posts, analisei os problemas e causas relacionadas a uma atitude comum hoje em dia de estarmos satisfeitos demais em “apenas fazer o nosso trabalho”, principalmente em áreas de alta especialização como na ciência e tecnologia. Os problemas apontados foram (1) o distanciamento entre trabalhador e seu produto, (2) a autoabsorção compulsiva, (3) a sedução da sensação de poder e controle e (4) o escapismo em direção a problemas convergentes, em detrimento de problemas divergentes. O autor Willem H. Vanderburg, por exemplo, sugere que tais questões são responsáveis pela maioria das crises modernas que temos passado [1].

 

Assim, neste último post, pretendo deixar de lado a postura de crítica negativa e apontar algumas direções para uma reação e resposta baseada na fé cristã. Isso não significa que vamos resolver o problema – nem na teoria, e nem na prática -, uma vez que a solução cristã nunca dependerá da força humana. No entanto, para o seguidor de Cristo, há esperança, e também há a necessidade de que vivamos esta esperança neste mundo de forma digna de nosso Senhor. Neste sentido, me preocupa a quantidade de discursos e estudos sobre o cristão e o trabalho sem qualquer menção ao conteúdo destes trabalhos. “Não importa o que você faça, você deve…” é um tipo de comentário muito comum. Precisamos recuperar uma teologia do trabalho e uma teologia da cultura capazes de nos oferecer um melhor direcionamento no mundo em que vivemos. Cosmovisões contrárias ao cristianismo acerca do significado e propósito do trabalho têm ocupado o coração de muitos crentes e continuam lá, intocados, devido à separação entre natureza e graça. A própria noção de que o erro do trabalho especializado se deveria apenas às suas consequências negativas já consiste em um desvio da ética cristã. Nossa preocupação não deve estar apenas focada em uma erradicação sistemática dos males da humanidade, mas também em nossa resposta ao chamado divino para o amor e o serviço, quebrando, assim, nossa passividade comodista, que geralmente diz “deixe meu trabalho em paz, porque ele não está fazendo mal a ninguém”.

 

Assim, no desejo de reverter esta tendência, apresento a seguir quatro pontos no qual o cristianismo pode oferecer uma resposta a nosso tempo.

 

  1. Temos lidado apenas com problemas convergentes, que não demandam aquela “provisão de forças superiores”? O cristão que deseja pensar sobre questões de ciência e tecnologia não pode se limitar a simples questões técnicas ou agendas intelectuais. Brian Brock, em seu livro “Christian Ethics in a Technological Age” é bastante enfático neste ponto, e alerta que, como cristãos, não podemos sucumbir ao espírito do século, tomando uma “forma de pensamento que, ao rejeitar qualquer papel da ação divina, vem a tratar todas as coisas e relacionamentos como suscetíveis à ordenação e gestão humanas” [2] (ou seja, problemas convergentes). Ellul também alerta: “estamos hoje em um estágio de evolução histórica no qual tudo o que não é técnico está sendo eliminado. Os desafios para um país, um indivíduo, ou um sistema são somente desafios técnicos” [3]. Isso inclui a própria ética de nosso tempo, exemplificada pela área de estudos que tem sido chamada de “avaliação de tecnologias” (technology assessment). A ética cristã, no entanto, não pode se acomodar a uma “ética técnica”, lidando com os problemas de nosso mundo como se fossem problemas convergentes – observados a uma distância objetiva, tratando pessoas ou ideias como simples dados ou informações.

 

O problema do homem é primariamente espiritual, e tem implicações sérias para as instituições de que fazemos parte. É indispensável para o cristão atual a capacidade de discernir uma gramática espiritual para a atividade tecnológica [4]. Esta deve envolver uma análise profunda do próprio coração, suas aspirações e, principalmente, sua atentividade à voz divina, chamando-o para evitar compulsões e se dirigir a questões que, muitas vezes, não serão convergentes, mas que irão demandar todo o seu envolvimento pessoal, disposição de sofrer e, por isso mesmo, a dependência para com a graça divina, ao invés da confiança em métodos algorítmicos e “estradas de tijolos amarelos” [5]. Chesterton nos leva a perguntar se seríamos filhos da lua ou filhos do sol: “aquele transcendentalismo pelo qual todos os homens vivem ocupa primeiramente a posição semelhante à do sol no céu. Temos consciência dele como uma espécie de esplêndida confusão; é algo brilhante e informe, ao mesmo tempo fulgor e borrão” [6].

 

Assim, não adianta sentar na cadeira do naturalista [7] e buscar apenas agendas “gospel” para o mundo, que não demandem arrependimento e submissão à vontade divina. Parece simples, mas quão fácil é esquecer de que não existe trabalho cristão – incluindo o ter ideias para uma “cosmovisão cristã em tecnologia” – sem espiritualidade cristã. A cidade de Deus e a cidade dos homens não são simplesmente dois projetos – são também dois amores [8].

 

  1. O desejo e o prazer da sensação de poder na experiência com a tecnologia não pode ser considerado mau em si mesmo, dado que somos seres criados à imagem de Deus e mordomos da criação. Veja só o comentário de Donald E. Knuth, um nos nomes mais renomados na área de ciência da computação: “penso que pessoas que escrevem programas de computador têm, por esta razão, pelo menos um pequeno vislumbre da natureza de Deus, uma vez que criar um programa geralmente significa que você tem que criar um pequeno universo [9]. No entanto, tal poder e autoridade não pode ter a pretensão de ultrapassar os limites criacionais ou a “soberania das esferas”, como colocado pela tradição kuyperiana. O cristianismo tem um modo particular de enxergar o exercício da autoridade humana, e que é contrário à nossa inclinação natural (e pecaminosa). Lembremos das palavras de Jesus: “Os reis dos povos dominam sobre eles, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores. Mas vós não sois assim; pelo contrário, o maior entre vós seja como o menor; e aquele que dirige seja como o que serve” (Lucas 22.25-26). Como, portanto, o serviço e o cuidado com a criação e o próximo podem se manifestar em nossa atividade cultural? [10]

 

  1. Pacey pode ter algumas sugestões interessantes para reagir às tendências destrutivas do trabalho moderno, centrado em objetos, ao sugerir alguns exemplos de tecnologias centradas em pessoas (people centered technologies). No entanto, a impressão passada no último capítulo de seu livro é que vários exemplos são dados, mas há poucos princípios realmente capazes de direcionar alguém em qualquer área de trabalho (e pode ser que seja assim mesmo: afinal, não precisamos de oração e direcionamento divino?). Parece que o abismo entre a divisão especializada do trabalho e a participação na cultura ainda não foi tratado, dando-se um simples salto de um lado para outro. Além disso, o humanismo antirreligioso de Pacey também só o permite propor a prática de atividades com “propósito sem propósito”, inspiradas no comportamento do mundo natural [11]. Tal solução de fato possui ressonâncias com a visão judaico-cristã do Sabbath, que nos permite ver o mundo não como um mecanismo impessoal, mas um lugar de celebração e louvor a Deus, no qual a arte, a recreação e a brincadeira são partes essenciais [12]. No entanto, cremos que somente o cristianismo pode apresentar a solidez de propósito nessas atividades, e não um fingimento pós-moderno.

 

Assim, mesmo que nós também, como Pacey, ainda não tenhamos chegado a uma resposta definitiva, podemos pensar na adoração cristã e na celebração do Sabbath como princípios guiadores cruciais para fugirmos de trabalhos compulsivos e alienados e, por isso, sem significado no drama da reconciliação de todas as coisas em Cristo. Enquanto a mentalidade tecnicista envolve aquilo que Heidegger chamou de “ocultação” ou “encobrimento” diante do outro, a adoração cristã é capaz de abrir nossa sensibilidade e atentividade à voz de Deus, falando em nosso aqui e agora, e resulta da obra do Espírito Santo em dar-nos do amor do Pai pelo Filho, que transborda até a criação. Não se trata de uma ausência ou alienação do trabalho – a Regra de São Bento, por exemplo, sugere que “a interrupção das tarefas mundanas causada pela adoração não é temporal (pois a adoração nunca cessa), mas sim a interjeição de um impulso crítico nas mesmas” [13]. Da mesma forma, o Sabbath também não pode ser visto como “uma cessação da ação humana, mas um caráter da ação humana que se harmoniza com a economia divina” [14]. Na comunhão com o Deus Trino, começamos a vivenciar uma reconciliação com a forma material da criação divina e, assim, nosso interesse, dedicação e amor passam a se direcionar não apenas à beleza dos mundos abstratos da ciência (que o próprio Deus, afinal, permitiu que conhecêssemos), mas também à sua obra incessantemente maravilhosa que você pode encontrar, agora mesmo, se olhar o céu pela janela, ou nas pessoas que o rodeiam, no lugar onde você está. Você não pode “fazer” algo com esta obra, e muito menos controlá-la, mas deve considerá-la e amá-la; por mais que, hoje, ficar olhando para o céu por quinze minutos seja considerado quase um castigo… De fato, é muito difícil desenvolver esse tipo de atitude e, ainda mais difícil, é reorientar nosso trabalho a partir dela, mas há esperança para aqueles que crêem naquele que começou boa obra em nós há de completá-la.

 

  1. Isso, enfim, me leva a considerar que, depois de ler tudo isso, você até pode concordar que, como cristão, não deve “apenas fazer o seu trabalho”, e muito menos sucumbir a uma mentalidade tecnicista buscando apenas problemas convergentes. No entanto, demorará pouco tempo até você começar a ser soterrado por perguntas difíceis como: “quais as consequências de determinado trabalho? Quem é responsável pelo quê? O que Deus quer realizar no mundo através do trabalho humano? O que ele quer realizar através de mim? Devo mudar de trabalho? O que devo fazer? O que deve ser buscado e aceito? O que deve ser rejeitado e desencorajado? Antítese ou graça comum: qual deles é realmente o meu caso? Como conciliar meu contexto imediato com meu trabalho teórico e abstrato?” Todas estas são perguntas válidas e urgentes para nós. No entanto, é sempre importante lembrar que, como dito anteriormente, nenhuma delas fará sentido se nossos joelhos não estiverem no chão. Tanto um comodismo de “só estou fazendo meu trabalho” quanto um idealismo de responsabilidade social são vaidade (Eclesiastes 1.14) se vistos à parte da soberania e providência de Deus, que faz tudo formoso em seu devido tempo (Eclesiastes 3.11). E este é o tempo da tribulação e cruz; por isso, não espere que as coisas se resolvam enquanto você estiver aqui, debaixo do sol, rodeado de cardos e abrolhos. Aliás, se o seu trabalho é ruim por causa dos outros ou da sociedade, não espere algo diferente se só dependesse de você, que também é um pecador. Dessa forma, mesmo no meio de adversidades e dúvidas, jamais devemos esquecer de ser gratos a Deus por nosso trabalho, sabendo que ele reina, e há de cumprir seus bons propósitos. Mas também ansiamos pela cidade que tem alicerces, cujo arquiteto e edificador é Deus (Hebreus 11.10), e oramos para que, se aprouver a Deus, ele possa dar sinais dela a este mundo incrédulo, por meio de cristãos que não fazem apenas o seu trabalho, mas o de seu Senhor.

 

Notas

[1] Willem H. Vanderburg, Our War in Ourselves, Toronto: University of Toronto Press, 2011, p. 3-4.

[2] Brian Brock, Christian Ethics in a Technological Age, Cambridge: Eerdmans, 2010, p. 26, tradução minha.

[3] Jacques Ellul, The Technological Society, New York: Vintage books, 1964, p. 84, tradução minha.

[4] Esta é a intenção de Brian Brock, em seu livro Christian Ethics in a Technological Age. Brock busca aplicar a teologia de Agostinho, Barth e Bonhoeffer, focalizando temas como atentividade à voz divina e a celebração do Sabbath, para as realidades de nossa sociedade tecnológica.

[5] Vide o artigo de Arthur W. Hunt, “What’s a Person to Do? Work Beyond the Yellow Brick Road”, em: Surviving Technopolis: Essays on Finding Balance in our New Man-Made Environments, Eugene, OR: Wipf and Stock Publishers, 2013.

[6] G. K. Chesterton, Ortodoxia, p. 50.

[7] A alusão é a Francis Schaeffer, Verdadeira Espiritualidade, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, capítulo 5: “O universo sobrenatural”.

[8] “Dessa maneira, duas cidades foram formadas por dois amores: a terrena por amor ao próprio ego, mesmo em desacato a Deus; a celestial, por amor a Deus, mesmo em desacato ao próprio ego. A primeira glorifica-se no próprio ego, a última, no Senhor. Uma busca a glória dos homens; mas a maior glória da outra está em Deus, testemunha da consciência. Uma ergue sua cabeça na própria glória; a outra, diz para seu Deus: ‘És a minha glória e o que exaltas a minha cabeça’ (Salmo 3.3) […] Uma tem prazer em sua própria força, representada pelas pessoas de seus governantes; a outra diz a seu Deus: ‘Eu te amo, ó Senhor, força minha (Salmo 18.1).” Agostinho, A cidade de Deus, Livro XIC, cap. 28.

[9] Donald E. Knuth, Things a Computer Scientist Rarely Talks About, Stanford, California: Center for the Study of Language and Information, 2001, p. 168.

[10] Por exemplo, Brian Brock, no capítulo 6 de Christian Ethics in a Technological Age, desenvolve (com base no trabalho de Bernd Wannenwetsch, “Members of One Another: Charis, Minsitry and Representation; A Politico-ecclesial Reading of Romans 12”) o conceito da igreja cristã como constituída por “membros uns dos outros”, que é uma visão diferente da autoridade baseada unicamente em expertise e compartimentalização do trabalho.

[11] Pacey, Meaning in Technology, p. 37: “In this way, it is possible to accept a scientific worldview and appreciate nature as neither animate nor guided by divine purpose, while at the same time seeing the natural world as having spontaneity, direction and an ‘inner flow of life’ in the same sense as music has these qualities, but machines do not. It is possible, then, to suggest a musical model differing significantly from the mechanical models that have predominated since the scientific revolution.”

[12] “Falando em feras e pássaros, já percebeu esse contraste? Quando você lê o relato científico de qualquer vida animal, fica com a impressão de uma atividade econômica laboriosa, incessante, quase racional (como se todos os animais fossem alemães), mas quando você estuda algum animal conhecido, o primeiro aspecto que lhe chama atenção é a alegre tolice, a falta de propósito em quase tudo que faz. Diga o que quiser, Barfield, o mundo é mais excêntrico e divertido do que se supõe.” C. S. Lewis, “Collected Letters”, p. 930, citado em Michael Reeves, “Deleitando-se na Trindade”, p. 66.

[13] Brock, Christian Ethics in a Technological Age, p. 301.

[14] Brock, Christian Ethics in a Technological Age, p. 294.  Veja também o comentário de Norman Wirzba: “o ensino do Sabbath nos equipa melhor para pensarmos na atitude ou direção última da vida humana. Ele nos dá um vislumbre do contexto divino todo abrangente em termos do qual podemos formular e avaliar nossos planos de vida. Melhor do que qualquer outra coisa, ele nos ajuda a apreciar e entender o propósito final de nossa vida.” (Living the Sabbath: Discovering the Rhythms of Rest and Delight, Grand Rapids, MI: Brazos Press, 2006, p. 20.).

 

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