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O Problema de Só Fazer o Seu Trabalho – Parte 2

Ciência, Tecnologia e Palavras-Cruzadas

por Fernando Pasquini Santos

No último post, ao citar vários autores, levantei a possibilidade de que boa parte das crises modernas se devem ao fato de estarmos apenas fazendo os nossos trabalhos, principalmente nas áreas de ciência e tecnologia. O distanciamento entre o conteúdo do trabalho e seus resultados a curto ou longo prazo, devido à superespecialização, tem sido um problema sério, mas que é geralmente ignorado sob a alegação de neutralidade tecnológica ou de que “o trabalho dignifica o homem” (não importando qual seja ele). Assim, Arnold Pacey, em seu livro “Meaning in Technology”, coloca a questão em termos de um conflito entre o significado pessoal da prática tecnológica e o significado social e político da mesma [1]. O que isso significa? Quais são as causas deste conflito?

Pacey indica uma possível causa ao relatar estudos sobre a personalidade de cientistas e técnicos, revelando que muitos deles são diagnosticados com níveis leves (ou altos) de autismo, e outros têm problemas sérios ao lidar com pessoas, incluindo a própria família, e preferindo lidar com fórmulas matemáticas e objetos, em um tipo de escapismo [2]. Tal diagnóstico pode não ser o caso conosco, mas de fato indica uma tendência preocupante. Se, enquanto o distanciamento entre o trabalhador e o produto de seu trabalho aparece um problema estrutural, decorrente da organização do trabalho, a questão da autoabsorção em um raciocínio focado em objetos surge como um problema individual, relacionado ao caráter. Ambos os problemas interagem entre si e reforçam um ao outro. E de fato, ninguém nega a beleza, por exemplo, da lógica matemática empregada na ciência e tecnologia, e muitos de fato têm prazer ao trabalhar com isso. No entanto, devido a um foco excessivo neste tipo de atividade, é muito fácil perder de vista o contexto no qual estes mundos abstratos estão inseridos, que inclui pessoas e a própria natureza.

Todos nós sabemos o que é ficar absorto em uma tarefa que gostamos de fazer. Eu mesmo, afinal, tive que me sentar e esquecer do mundo ao meu redor para escrever este texto. De fato, há algo de bom nisso: Mihaly Csikszentmihalyi, por exemplo, desenvolveu o conceito de flow (ou fluidez) para descrever o estado mental altamente focado em um trabalho, no qual reside a felicidade e realização do indivíduo [3]. A relação disso com a criatividade também é bastante clara. No entanto, é essencial aprender a diferença entre dedicação e compulsão. Conheço pesquisadores na minha área que conseguem a façanha de se sentar na frente de um computador, em um porão de um prédio, e ficarem das cinco da tarde até três horas da manhã programando e analisando dados. O indivíduo se esquece das horas, do lugar, de suas necessidades fisiológicas, do sono e até da fome – no final, quando a pessoa estava quase desmaiando, ela se lembrou de que era um ser vivo orgânico e, infelizmente, ainda não podia se conectar numa tomada para carregar. Lembro-me de presenciar a situação e ficar inquieto e entediado, me perguntando: “como pode?”. Como outro exemplo, podemos também nos lembrar do videogame em nossa geração. Se, enquanto programar e analisar dados pode ser justificado com uma noção abstrata de ajudar a sociedade (seja lá como), ou de gerar renda, o pré-adolescente hoje que passa horas jogando (ou assistindo gameplays) de Minecraft está completamente absorto na construção de seus mundos de voxel pessoais. O fato é que, pague-se um salário por isso ou não, podemos muito facilmente focalizar em tarefas específicas e esquecer todo o seu significado dentro de nosso contexto pessoal e social. Então, nós geralmente nos desculpamos dizendo que “é minha vocação” ou “é o que eu gosto de fazer”. Pacey, por exemplo, comenta sobre um professor seu que dizia que sua devoção era aos projetos, ao passo que de sua esposa era a pessoas [4]. Será isso mesmo? Não creio que Deus chame alguém para fugir de seu mundo imediato e se afastar de suas responsabilidades pessoais. Há um ponto muito óbvio, porém esquecido, em análises como a de Csikszentmihalyi: nós simplesmente não podemos simplesmente ignorar o conteúdo de nossas tarefas, por mais prazerosas que elas sejam.

Pacey também oferece uma explicação para esta compulsividade em nossa experiência com a tecnologia: a enorme sensação de poder e controle que ela nos proporciona. Desde o meu vizinho que se acha muito macho por arrancar o silenciador do escapamento de sua moto e irritar a vizinhança inteira com o barulho, até o estudante de microcontroladores que passa horas tentando fazer uma luzinha piscar, todos nós gostamos da sensação de poder. Pacey até mesmo sugere que tal atitude está bastante presente na personalidade masculina, o que explica o pioneirismo masculino e a (até então) predominância de homens nas áreas científicas e tecnológicas.

Outra explicação, que também pode estar relacionada à primeira, é o conceito do sublime tecnológico, proposto por David Nye – uma explicação baseada na estética para nossa empolgação tanto individual como coletiva para com a tecnologia [5]. É interessante a forma como outros autores já percebiam isso, antes de David Nye, como o comentário de Jacques Ellul:

“O homem moderno pode pensar apenas em função de figuras, e quanto mais alta for a figura, maior é sua satisfação. Ele não olha para nada além do maravilhoso mecanismo de escape que a técnica o permitiu, para compensar as próprias repressões causadas pela vida que a técnica o força a levar. Ele é reduzido, no processo, a uma quase nulidade. Mesmo que ele não seja um trabalhador numa linha de produção, sua parte de autonomia e iniciativa individual torna-se menor e menor. Ele é constrangido e reprimido em pensamento e ação por uma realidade onívora que é externa a ele e imposta sobre ele. Não lhe é mais permitido demonstrar qualquer poder pessoal. Então, subitamente, ele aprende que o avião que sua fábrica manufatura voou a 700 milhas por hora! Todo o seu poder reprimido eleva-se em vôo naquela figura. Nessa velocidade recorde ele sublima tudo o que foi reprimido nele. E ele andou mais um passo em direção à fusão com a multidão, pois é a multidão como um todo que é movida por uma performance que encarna sua vontade no poder. Cada homem moderno expressa sua vontade no poder dos recordes que ele mesmo não estabeleceu para si.” [6]

Por fim, também é notável que, por trás da compulsividade com o trabalho em tecnologia também pode-se encontrar uma motivação escapista. E. F. Schumacher, em seu livro “Small is Beautiful: Economics as if People Mattered”, toca nessa questão com uma citação de G. N. M. Tyrell, apresentando a distinção entre problemas divergentes e convergentes:

“A vida se mantém em curso com problemas divergentes, que devem ser ‘vividos’ e são solucionados apenas na morte. Os problemas convergentes, no entanto, são a invenção mais útil do homem; eles não existem, como tais, na realidade, mas são criados por um processo de abstração. Quando eles são resolvidos, a solução pode ser escrita e repassada para outros, que podem aplicá-las sem necessidade de reproduzir o esforço mental para encontrá-la. Se esse fosse o caso com as relações humanas – na vida familiar, econômica, política, educação, e assim por diante – bem, não sei como terminar esta frase – não haveria mais relações humanas, mas apenas reações mecânicas; a vida seria uma constante morte. Os problemas divergentes, como tais, forçam o homem a esticar-se para um nível acima de si mesmo; senão até demandam, e portanto provoquem, uma provisão de forças de um nível superior, trazendo, assim, amor, beleza, bondade e verdade para nossas vidas. É apenas com a ajuda destas forças superiores que os opostos podem ser reconciliados na situação vivida. […]

A luta com os problemas divergentes costuma ser cansativa, desgastante e preocupante. Por isso, as pessoas tentam evitá-los e correr para longe deles. Um executivo ocupado que esteve lidando com problemas divergentes o dia todo irá ler uma história de detetive ou resolver uma palavra-cruzada em seu caminho para casa. Ele usou seu cérebro o dia todo: porque ele continua a usá-lo? A resposta é que a história de detetive e a palavra-cruzada apresentam problemas convergentes, e este é o relaxamento. Eles requerem um pouco de trabalho cerebral, até mesmo de trabalho cerebral intenso, mas não exigem este esforço e alongamento para um nível superior, que é o desafio específico do problema divergente, um problema no qual opostos irreconciliáveis devem ser reconciliados. […]

As ciências físicas e matemáticas estão preocupadas exclusivamente com problemas convergentes. É por isso que elas podem progredir cumulativamente, e cada nova geração pode começar justamente onde seus antepassados pararam. O preço, no entanto, é alto. Lidar exclusivamente com problemas convergentes não nos leva à vida, mas sim, para longe dela.” [7]

Problemas convergentes, embora não se resumindo a isso, são de fato uma característica do raciocínio lógico-matemático, já tão questionado pela filosofia continental nos séculos XIX e XX, e tantas outras escolas de pensamento (embora, muitas vezes, com motivações e conclusões diferentes). Autores na tradição reformacional, por exemplo, têm se preocupado em apontar o reducionismo matemático e o tecnicismo como uma busca por autonomia e controle humanos sobre a realidade [8]. G. K. Chesterton, como sempre, também é perspicaz ao descrever a condição do homem moderno: um lunático.

“Mas o círculo da lua é tão claro e inconfundível, tão recorrente e inevitável, como o círculo de Euclides sobre um quadro-negro. Pois a lua é absolutamente razoável; e a lua é a mãe dos lunáticos: ela deu a todos eles o seu nome” [9]

É claro que atividades focalizadas, abstratas ou centradas em objetos nem sempre são problemáticas, e creio que nenhum dos autores citados quer sugerir isso. Os problemas reais estão (para resumir) (1) no distanciamento entre trabalhador e seu produto, (2) na autoabsorção compulsiva, (3) na sedução da sensação de poder e controle e (4) no escapismo em direção a problemas convergentes, em detrimento dos divergentes. Todos estes são problemas sérios; talvez as causas, como afirmou Vanderburg, de nossas crises modernas, decorrentes de superespecialização. Nós geralmente apenas damos risadas, e não percebemos a seriedade da realidade dos alunos nerds trancados dentro de laboratórios e fórmulas que, após terminarem seu curso superior, precisam passar por psicólogos para fazer uma “reintegração social”. E. F. Schumacher, no entanto, comenta que “a violência que está destruindo o mundo é a violência fria, calculista, imparcial, sem coração e inflexível que surge de mentes operando fora de controle e além dos limites sob corações subdesenvolvidos” [10]. Tal violência, afinal, não é somente ativa (como os soldados de Hitler ou pesquisadores do napalm), mas também passiva, incluindo nossa conformação em não fazer nada, trancados em nossos escritórios e ganhando dinheiro, “só fazendo o nosso trabalho”.

Dado este quadro, fico a pensar quanto à atitude dos cristãos diante de um mundo de “lunáticos”. Este será o tema do próximo e último post.

CONTINUE LENDO – PARTE 3

Notas
[1] Arnold Pacey, Meaning in Technology, Cambridge: MIT Press, 1999, 89. Outro autor que reconhece e trata desta questão, sendo citado recorrentemente no livro de Pacey, é Langon Winner. Vide Langdon Winner, The Whale and the Reactor, Chicago: University of Chicago Press, 1986.
[2] Ibid., 48-50, em referência à obra de Anne Roe. Vide: Anne Roe, The psychology of occupations, 1956.
[3] “Fluidez, o segredo da felicidade”, TED Talks, https://www.ted.com/talks/mihaly_csikszentmihalyi_on_flow?language=pt-br
[4] Pacey, Meaning in Technology, p. 172.
[5] Confira o interessante comentário de Michael Sacasas sobre este conceito em “American Technological Sublime: Our Civil Religion”, The Frailest Thing, https://thefrailestthing.com/2011/10/21/american-technological-sublime-our-civil-religion/
[6] Jacques Ellul, The Technological Society, New York: Vintage books, 1964, p. 303, tradução minha.
[7] Citado em E. F. Schumacher, Small is Beautiful: Economics as if People Mattered, edição Kindle, posição 1120-50, tradução minha.
[8] Vide Egbert Schuurman, Fé, esperança e tecnologia: ciência e fé cristã em uma cultura tecnológica, Viçosa, MG: Ultimato, 2016. página 32: “A força do conhecimento científico reside no fato de que, dentro de uma estrutura de abstrações, os cientistas aprenderam enormemente. Sua fraqueza se torna evidente quando observamos que, com as abstrações, os limites passaram a ser desconsiderados. Na interpretação do conhecimento científico, aquilo que foi ignorado ou posto entre parênteses precisa ser reavaliado.”
[9] G. K. Chesterton, Ortodoxia, São Paulo: Mundo Cristão, 2008, p. 50.
[10] Citado em Joseph Pearce, Small Is Still Beautiful: Economics as if Families Mattered, Wilmington, DE: ISI, 2006, p. 313.

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