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O Pensamento de Egbert Schuurman sobre a Cultura Tecnológica

 

 

 

Quem é Egbert Schuurman (1937-…)?

 

Formado em engenharia civil (Delft) e filosofia (Vrije), sua Tese de doutorado foi intitulada: “Technology and the future: A philosophical challenge”. Foi professor de filosofia em Delft, Eidenhoven e Wageningen. Atua como membro do parlamento holandês (RPF, ChristianUnion). Fez parte do Broad DNA Comittee, Responsible Technology Project. Fundou e dirigiu o Prof. Dr. G. A. Lindelboom Institute de ética médica e o Institute for Cultural Ethics. Recebeu um doutorado honorário na África do Sul e o Prêmio Templeton de educador.

 

Para Egbert Schuurman, a causa-raiz dos principais problemas que ameaçam a cultura ocidental é o tecnicismo. Este pode ser entendido como o depósito da fé e da esperança na tecnologia, buscando repousar sobre ela o olhar do coração. Como tal, o tecnicismo envolve a inclinação dos afetos para a técnica, entregando-lhe lágrimas de súplica e exclamações de louvor; temor e maravilhamento. Portanto, trata-se de uma atitude religiosa para com a tecnologia. A fonte última de significado, legisladora sobre todos os aspectos da vida, é atribuída à invenção e ao uso de ferramentas capazes de moldar a realidade.

 

Nesse sentido, o tecnicismo é motivado distintivamente pelo ideal de controle, que vê na tecnologia o cetro por meio do qual o ser humano poderá, finalmente, reinar sobre a matéria e o século, realizando o seu antigo desejo de liberdade autônoma. A técnica é tida como uma potestade que outorga à humanidade o caráter de Sujeito – a quem tudo deve se sujeitar, pela imposição da vontade subjetiva aos objetos externos. Por isso, o desenvolvimento tecnológico é venerado, recebendo os sacrifícios das vidas e as ofertas dos capitais e competências de uma sociedade.

 

A tese de Schuurman é que o tecnicismo, assim caracterizado, é uma idolatria ainda mais fundamental para os problemas do Ocidente do que o cientificismo e o economicismo. Afinal, apesar de geralmente atuar em conjunto com a confiança irrestrita na razão e no mercado, o tecnicismo prevalece mesmo quando a racionalidade humana e o progresso são questionados. Nesses casos, a fé e a esperança na técnica apenas se transfiguram em uma versão individualista de construtivismo, como se vê na pós-modernidade. Portanto, o tecnicismo – e não alguma outra forma de reducionismo – seria a unidade básica por trás da diversidade dos grandes problemas enfrentados neste início do século XXI, fornecendo-lhes coerência estrutural.

 

Segundo Schuurman, o tecnicismo consegue essa inigualável influência cultural, pois, sendo a principal disposição espiritual do Ocidente nos últimos séculos, ele inevitavelmente se expressa nos pensamentos e ações dos atores sociais, impregnando tanto a práxis quanto as instituições. Dessa forma, a tecnologia, ao invés de libertar, acaba por aprisionar toda a cultura na obediência às suas normas imperativas de eficácia e eficiência. A essa capacidade do espírito tecnicista de permear todos os setores da sociedade, tornando-se culturalmente onipresente, Schuurman denomina “tecnicização”. A manifestação desse fenômeno pode ser percebida, por exemplo, na abstração de plantas, animais e dos próprios seres humanos às suas funções, tratando-os como meros objetos-máquinas que podem ser moldados conforme o engenho dos sujeitos livres que os manipulam. Quando esses processos de tecnicização são liderados pelos poderes políticos e econômicos, tem-se a instauração de uma verdadeira tecnocracia.

 

Obviamente, muitas soluções tecnológicas foram obtidas a partir dessa exaltação cultural da tecnologia na história recente, abrindo novas oportunidades deslumbrantes para a humanidade. Contudo, tem-se tornado inegável que diversos problemas pessoais, sociais e ambientais também resultam dessa cultura técnica e a ameaçam.

 

Consequentemente, filosofias igualmente diversas se apresentam, tentando fazer sentido dessas problemáticas e apontar caminhos de reorientação cultural para o Ocidente. Algumas mantêm uma inclinação tecnicista, buscando saídas para os becos da cultura tecnológica internamente, por meio de pequenos ajustes de rota ainda dentro do mapa mental predominante. Outras rompem com a tendência à tecnicização tecnocrática, chegando, em alguns casos, ao extremo oposto: o de abraçar apaixonadamente a natureza, rejeitando, com desprezo, a tecnologia. A maioria se posiciona em algum ponto intermediário nesse espectro, entre os polos do tecnicismo e do naturalismo. Contudo, todas constroem seus sistemas filosóficos partindo do ideal materialista e secularista de autonomia humana.

 

Schuurman rejeita essa motivação comum, propondo uma filosofia cristã da tecnologia, que se abra para além da matéria e do século, reconhecendo a verdadeira liberdade humana na submissão às leis estabelecidas pelo Deus triúno para o espaço-tempo. Assim, a tentativa de se aproximar do conhecimento dessa cosmonomia divina para o desenvolvimento tecnológico, tendo em Deus o legítimo Legislador de toda e qualquer atividade cultural, é a principal marca da abordagem filosófica de Schuurman. Daí a sua ênfase na necessidade de um contínuo esforço cristão por buscar derivar (e refinar) um framework ético abrangente para o empreendimento tecnológico, a partir dos princípios normativos implícitos na ordem criacional. Tal referencial contribuiria para promover uma ética cultural de responsabilidade, pois reconheceria em Deus aquele “de quem, por meio de quem e para quem” a atividade tecnológica deve ser realizada, encontrando nEle seu significado.

 

Nesse sentido, os cristãos deveriam, sim, fomentar, no espaço público, a reflexão e discussão acerca – não de uma “tecnologia gospel”! – mas de uma ética (e de seus desdobramentos políticos) que favoreça o florescimento cultural responsável intencionado por Deus para sua criação. Afinal, como aqueles que depositam fé e esperança em Cristo, os cristãos seriam chamados a sinalizar o reino de Deus por meio de seus pensamentos, ações e influências institucionais, cooperando virtuosamente no desenvolvimento tecnológico de suas sociedades, sem, contudo, compactuar com utopias tecnicistas ou naturalistas.

 

Em particular, o paradigma bíblico da cidade-jardim habitável sintetiza, para Schuurman, a perspectiva cristã correta de futuro, substituindo as falsas expectativas fabricadas pelo coração humano ao absolutizar determinado aspecto da criação (como a tecnologia ou a natureza) no lugar de relativizar todas as coisas ao Criador. Ao olharmos para o modelo da Nova Jerusalém, encontraríamos um chamado à boa mordomia da criação, tanto pelo desenvolvimento quanto pela preservação dos recursos com vistas à sustentabilidade, para a manifestação transparente e permanente da glória de Deus na cultura.

 

Que os cristãos brasileiros caminhem nessa direção, oferecendo vozes e mãos ativas para contribuir com a necessária reorientação de nossa decadente cultura tecnológica. Essa é a chamada deixada pelo pensamento de Egbert Schuurman para a ABC².

 

Obs: Este texto foi publicado no Boletim 1 de 2017 da ABC²/ Traduzido por por JSF

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Recursos em português introdutórios ao pensamento de Egbert Schuurman:

. Schuurman, E. (2016). Fé, esperança e tecnologia: Ciência e fé cristã em uma cultura tecnológica. Editora Ultimato. 272 p.

. Schuurman, E. (2016). Cristãos em Babel. Editora Monergismo. 41 p.

. Assi, G. (2016). ABC² entrevista Egbert Schuurman. Disponível em: http://bit.ly/2ocim0R.

 

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