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O Deus das ondas gravitacionais

A descoberta das ondas gravitacionais na semana passada foi aclamada como o início de uma nova era na astrofísica. Estas vibrações no espaço-tempo, que reivindicam a teoria da gravidade de Einstein cem anos depois que ele a propôs pela primeira vez, nos permitem “ouvir” o cosmos, bem como enxergá-lo.

Cientificamente falando, as ondas gravitacionais são uma nova forma de experimentar nosso universo – e quem pode afirmar o que se irá descobrir, ouvir e ver a partir de agora? Eu sou cristã e astrônoma, então eu não tenho outra alternativa senão considerar o que isso significa para a minha fé quando as fronteiras da ciência avançam de maneira tão expressiva.

Muitos cristãos acham essa descoberta ameaçadora. Eles raciocinam da seguinte forma: Se a ciência é capaz de explicar cada vez mais os fenômenos do mundo natural, então haverá cada vez menos espaço no cenário para Deus. O criacionismo é o exemplo mais conhecido dessa lógica. Um criacionista acredita que a teoria da evolução é insidiosa porque, à sua maneira de pensar, se aceitarmos a ideia de que a vida surgiu a partir da “sopa primordial” e evoluiu para os seres humanos, como podemos reivindicar que ela foi criada por um Criador divino?

Este tipo de raciocínio surge com tanta frequência que o apelidamos de o “Deus das lacunas”. Para os cristãos, o problema de raciocínio com o “Deus-das-lacunas” é que ele coloca a ciência e a fé uma contra a outra. Se aceitarmos a premissa de que as reivindicações da Bíblia devem ser sopesadas contra as teorias científicas, então, inevitavelmente tem-se que escolher uma e desprezar a outra. Como ocorrem as descobertas científicas e as “lacunas” em nosso conhecimento científico diminuem, precisamos cada vez menos da ideia de Deus para explicar o mundo físico. Em uma batalha fé-contra-ciência, a fé está em desvantagem – pela simples razão de que a ciência é muito eficiente para explicar as coisas que vemos ao nosso redor.

Não é nenhuma surpresa, então, que apontar para o raciocínio “Deus-das-lacunas” é uma tática favorita de Richard Dawkins e outros críticos do cristianismo. Por outro lado, estudiosos cristãos reconhecem que uma imagem como a que eu acabei de descrever não é uma teologia muito robusta.

Ambos os lados parecem considerar insustentável qualquer filosofia que se baseia em nossa falta de conhecimento para criar espaço para Deus.

Não me interpretem mal, mas Deus não é útil enquanto uma teoria científica. Pensar em Deus desta maneira foge do ponto. Toda a noção de um Deus das lacunas depende de uma imagem filosófica em que a ciência tem um ponto final. Por isso, quando descobrimos ondas gravitacionais, ou encontramos um novo número primo, ou fazemos progressos em direção à cura da doença crônica, nos aproximamos do “fim” [finalidade] da ciência.

Esta é uma noção muito empobrecida do que é ciência, e eu ainda não encontrei um cientista que pensa dessa maneira. A ciência diz respeito a um processo de fazer perguntas. A tentativa de responder às nossas perguntas sobre como as coisas funcionam leva a uma compreensão mais profunda do mundo que nos rodeia, mas sempre levanta mais questões. A ciência é uma resposta humana ao desconhecido – por isso, enquanto houver humanos para fazer perguntas, nunca haverá um fim para a ciência.

Pela mesma razão, não devemos ter medo de abraçar o desconhecido – as lacunas no nosso conhecimento do divino – como um caminho para a compreensão de Deus. Na fé, assim como na ciência, fazendo perguntas quando confrontados com o mistério é a natureza humana. É ingênuo pensar que temos a capacidade de diminuir o poder, amor, ou o âmbito da ação de Deus, simplesmente fazendo perguntas. Na verdade, eu defendo que um espírito questionador deve desempenhar um papel importante na vida de fé de um cristão. Longe de desencorajar o pedido, a Bíblia exorta: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei e abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede, recebe; e quem busca, acha; e ao que bate, abrir-se-lhe-á.”, disse Jesus no Sermão da Montanha. [Mateus 7: 7-8]

Nossas perguntas assumem diferentes formas. Podemos usar nosso raciocínio para sondar o universo físico que Deus criou. Podemos desafiar a Deus por respostas em momentos de dor e tristeza; podemos ler a Escritura e perguntar o que ela significa para as nossas vidas. É claro que, em nenhum lugar ela nos garante respostas concretas. Mais frequentemente do que um “não”, Deus não dá respostas completas, mas em vez disso ele responde com mais perguntas.

O Livro de Jó é uma exploração profunda deste questionamento dinâmico. Quando Jó desafia Deus, exigindo uma explicação para suas aflições, cada um de seus amigos oferece um raciocínio diferente. Quando Deus o responde, varre ao longe suas respostas simplistas, e, ao invés de uma resposta pronta, interroga Jó: “…porque te perguntarei, e tu me responderás. Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Faze-mo saber, se tens entendimento.”[Jó 38: 3-4].

A narrativa da criação que se segue, sob a forma de perguntas dirigidas a Jó, é uma das passagens mais impressionantes nas Escrituras. Quando Deus concluiu, Jó realmente não teve uma resposta para a pergunta original – Por que estou aflito? – Mas ele teve uma nova e mais profunda compreensão de Deus.

“Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem.” [Jó 42: 5]

Nós já tínhamos visto o universo com a visão dos olhos, mas agora nossos ouvidos o ouvem. Ondas gravitacionais levantam mais perguntas do que respostas, mas sua descoberta nos dá uma maneira profunda de compreender o cosmo que não tínhamos antes. Se temermos as lacunas em nosso conhecimento, retrocedemos em fazer as perguntas que nos levam a descobertas como essa, e perdemos a oportunidade de conhecer a Deus um pouco melhor através da criação.

Jenna Freudenburg é astrônoma na Ohio State University.

Traduzido e adaptado por Áquila Mazzinghy.

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