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O Cristianismo e a História da Tecnologia – Final

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Continuação…

O Cristianismo e a História da Tecnologia – por Michael Sacasas – tradução Fernando Pasquini
Texto original: http://thefrailestthing.com/2012/03/01/christianity-and-the-history-of-technology-longform/

 

David Noble: A Religião da Tecnologia

Noble descreve “uma tradição ocidental milenar na qual o avanço das artes utilitárias era inspirada e fundamentada na expectativa religiosa”. Ademais, Noble afirma que tecnologia e fé “estão e sempre estiveram mescladas, e o empreendimento tecnológico é, ao mesmo tempo, um esforço essencialmente religioso.” Noble insiste que esta não é uma afirmação metafórica, mas literalmente verdadeira: “A tecnologia moderna e a religião evoluíram juntas, […] e, como resultado, o empreendimento tecnológico tem sido e continua sendo impregnado de crenças religiosas.”

Entretanto, no fim é difícil isolar exatamente aquilo que Noble identificou por meio de sua discussão sobre o monasticismo, o milenarismo, o entusiasmo baconiano, a maçonaria, e as tecnologias do século XX de transcendência, incluindo a bomba atômica, o vôo espacial, inteligência artificial e biotecnologia. Noble, por um ângulo, descobriu a história de uma religião alternativa, a religião da tecnologia, que pode ser melhor entendida como uma heresia cristã com uma escatologia imanentizada. Ele se baseia no trabalho de White, Benz, e Ovitt para argumentar a favor de uma grande transformação ocorrida por volta do século XI na visão do cristianismo sobre artes mecânicas e, em sua opinião, foi durante este período que o progresso tecnológico passou a ser equiparado com o progresso para a restauração material da ordem criada. Foi esta fé no progresso tecnológico que passaria a caracterizar o núcleo da “religião da tecnologia.”

Por outro ângulo, porém, Noble apenas mostrou que a linguagem religiosa e as aspirações religiosas são frequentemente associadas com a tecnologia, particularmente pela elite profissional que dirige o desenvolvimento e implantação de novas tecnologias. Qualquer esforço para se chegar a uma conclusão mais definida que essa irá vacilar sob um exame mais minucioso, uma vez que Noble reúne uma coleção extremamente diversificada de provas e não traça relações causais muito precisas. Em vez disso, seu método apenas pretende nos deixar com uma impressão geral do entrelaçamento entre tecnologia e religião, citando o máximo de casos plausíveis para sua alegação. O uso intercambiável de Noble de “fé” e “religião” também é indicativo da natureza generalista de suas alegações.

É também problemático que os usos que Noble faz de Benz, White, e Ovitt não deem qualquer indicação de que haja uma conflito subjacente em suas respectivas avaliações da relação do cristianismo com a tecnologia. Por exemplo, embora ele esteja claramente familiarizado com a obra de Ovitt, ele cita com aprovação, e sem qualquer reserva, a tese de White em “As raízes históricas de nossa crise ecológica”.

Além disso, seu uso de terminologia teológica no capítulo de abertura não inspira confiança em sua compreensão das nuances da literatura teológica relevante. Mas Noble não está interessado em juntar-se ao debate; o que ele deseja é registrar uma reclamação mais geral. Noble está claramente preocupado com as esperanças religiosas acerca de transcendência, que têm sido repetidamente associadas a novas tecnologias ao longo da história da sociedade ocidental. Em sua opinião, esta tendência ofusca a nossa capacidade de pensar com clareza sobre tecnologia, um problema que se torna cada vez mais grave à medida que nossas tecnologias evoluem para realidades mais complexas e potencialmente perigosas. No fim, podemos dizer que Noble identificou a a presença de um “verniz” religioso que aparece com freqüência na superfície da tecnologia, influenciando seu desenvolvimento e adoção sem esclarecer ou sistematizar as variedades, fontes e consequências desse mesmo verniz.

Bronislaw Szerszynski: Tecnologia, Natureza, e o Sagrado

Em seu livro de 2005, “Natureza, Tecnologia, e o Sagrado”, Bronislaw Szerszynski traça a evolução do entendimento acerca da natureza e do sagrado, a fim de fornecer uma avaliação alternativa da secularização e do desencantamento, dois processos aos quais a tecnologia tem sido tradicionalmente atribuída um papel fundamental.

Para começar, ele argumenta que seria melhor se entendêssemos a evolução das ideias sobre a natureza na transição das sociedades pré-modernas para as modernas não como um processo de secularização ou desencanto, mas sim como um processo de despersonalização. O advento do cristianismo não simplesmente esvaziou, como sugeriu Lynn White (entre outros), a natureza de seu conteúdo metafísico, deixando-a vulnerável à exploração. Em vez disso, o cristianismo removeu as agências pessoais que habitavam a natureza e as substituiu por uma camada semiótica de significado. A natureza tornou-se viva não mais devido a divindades menores e espíritos, mas aos significados que poderiam ser interpretados alegoricamente. Essa concepção da natureza como um sistema de sinais significativamente religioso agiu como um freio sobre a potencial exploração da natureza que White e outros imaginaram ser consequência do triunfo cristão sobre a visão de mundo pagão.

No entanto, a Reforma Protestante, na visão de Szerszynski, levou a uma situação como aquela imaginada por White, ao colapsar todos os significados e interpretações a níveis literais e efetivamente os conteve no texto bíblico. Desta forma, o manto semiótico que protegia natureza foi retirado, deixando-a indefesa contra os avanços da ciência e da tecnologia.

A Reforma foi decisiva, mas não agiu sozinha na reconfiguração da economia do sagrado em relação à natureza. No final do século XII, as concepções de natureza já estavam começando a mudar, devido à crescente influência da teologia voluntarista, que privilegiava a irrestrita vontade e poder de Deus sobre a potencial inteligibilidade da ordem criada. No entanto, Szerszynski segue Ellul e Ovitt, contra White, ao entender a atitude medieval do cristianismo para com a tecnologia e a natureza como predominantemente ambivalente, não sendo por si só a causa da mentalidade tecnológica ocidental. Mesmo a Reforma, na visão de Szerszynski, não deixou a tecnologia completamente livre de restrições morais e religiosas. Os primórdios desta ruptura são melhor traçados em Francis Bacon, privilegiando techne sobre episteme. A partir deste ponto, Szerszynski segue diretamente a descrição de Ellul sobre a evolução da sociedade tecnológica.

Nesta conjuntura, Szerszynski introduz o conceito de David Nye acerca da exploração do sublime tecnológico,  de forma a reforçar sua conclusão de que, no século XIX, a tecnologia comandava um reverência quase religiosa. Essa reverência religiosa, no entanto, “ecoa” uma transformação voluntarista mais antiga na concepção teológica de Deus: a tecnologia, como o Deus voluntarista, deve ser “amada por si mesma, para além da sua adequação aos propósitos e vida humana.”

Combinada à noção do aumento da bio-energia, conforme documentado por Michel Foucault, que se concentrou estritamente na preservação e governo da vida biológica, isso significava que todos os pontos de referência transcendentes que poderiam limitar a influência da tecnologia agora estavam efetivamente deslocados. Como Noble observou, a tecnologia, em si mesma, tornou-se objeto de aspirações transcendentes.

Considerações Finais

Após Lynn White, o exame da relação entre cristianismo e tecnologia tem sido firmemente ancorado no período medieval. Com a exceção de Szerszynski, nenhum dos autores em questão explorou de forma extensiva o significado da Reforma para a história da tecnologia, e o trabalho de Szerszynski foi escasso em fontes históricas. Mais trabalho é necessário acerca da Reforma e sua relação com a tecnologia. É claro que muito trabalho já foi feito acerca da Reforma e da história de uma determinada tecnologia: a imprensa.

As pesquisas, até agora, também só estiveram focadas no papel do cristianismo no surgimento da tecnologia ocidental. Parece que um trabalho mais sério e cuidadoso deve ser feito sobre a forma em que a tecnologia tem moldado o cristianismo. Susan White apontou nesta direção, mas seu trabalho foi em grande parte apenas derivado dos estudos realizados por Lynn White e Lewis Mumford, e foi focado em apenas poucos casos ilustrativos.

Joseph Corn, cujo trabalho não foi discutido acima, tem mostrado a importância de se explorar o papel da religião na construção social de determinadas tecnologias. O livro de Corn, “O Evangelho Alado”, fornece um estudo de caso da construção social do avião.

Baseando-se em uma ampla variedade de fontes, incluindo jornais, revistas populares e profissionais, memórias, e uma variedade de efemeridades culturais, Corn apresenta o seu caso sobre as dimensões religiosas da construção social do avião. O avião foi recebido inicialmente com uma dúvida como a de Tomé, demandando “ver para crer”, mas depois acabou frequentemente descrito com uma linguagem que apela para o sobrenatural – o vôo foi um milagre. Adicionalmente, o uso do avião e sua comemoração foram muitas vezes marcados por rituais e cerimônias que tinham uma semelhança impressionante com elementos do culto e da prática cristã. Finalmente, atitudes em relação ao avião assumiram o caráter de um “messianismo tecnológico”, uma fé no poder do avião de conduzir uma reordenação quase escatológica da sociedade. No final, é claro, essas esperanças são regidas pela realidade.

Estudos similares focando-se em tecnologias particulares e o papel que a crença religiosa desempenhou na sua construção social iriam fortalecer nossa compreensão da relação entre tecnologia e religião, que, até agora, tem sido tratada, na maioria dos estudos, apenas de forma geral.

Finalmente, as ciências da religião também podem oferecer um conjunto útil de categorias para a compreensão do papel da tecnologia na sociedade, especialmente dado o profundo inter-relacionamento entre tecnologia e religião, conforme documentado por Noble. Estudos sobre rituais, por exemplo, podem ser úteis em aumentar nossa compreensão das interseções do uso da tecnologia com a prática encarnada. A incorporação de categorias durkheinianas, realizada por David Nye em seu estudo sobre o sublime tecnológico também fornece um modelo útil para aquilo que esta troca interdisciplinar de métodos pode realizar.

 

 

 

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