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Genes, Determinismo e Deus – DENIS ALEXANDER

 

Genes, Determinismo e Deus – DENIS ALEXANDER

Tradução: Tiago Augusto

Cambridge Papers (2013), vol 22, n 4, Published by The Jubilee Centre

Disponível em http://www.jubilee-centre.org/genes-determinism-and-god/

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“Nós pensávamos que nosso destino estava em nossas estrelas. Agora sabemos, em grande parte, que nosso destino está em nossos genes.”

–  James Watson[1]

 

Resumo

Este artigo tem três objetivos principais. O primeiro é fornecer informações biológicas para ajudar na interpretação das descobertas genéticas mais recentes. O segundo é argumentar que não há nada na genética comportamental contemporânea que subverta a experiência profundamente humana de agir livremente. O terceiro é mostrar que a convicção judaico-cristã de que a humanidade é feita à imagem de Deus fornece um sólido fundamento para a liberdade humana e para o valor absoluto de cada indivíduo humano, independentemente de sua condição genética.

 

Introdução

Por mais de meio século (aproximadamente de 1880 a 1940), acreditou-se amplamente que a hereditariedade determinava raça, classe, saúde mental e inteligência. A legislação eugênica garantiu a esterilização compulsória de centenas de milhares de “deficientes físicos e mentais” nos EUA, na Dinamarca, na Suécia e na Alemanha. Em 1940, o autor de uma revisão acadêmica declarou que pessoas com debilidade mental deveriam ser impedidas de se reproduzir porque famílias débeis “são amplamente caracterizadas por promiscuidade, deserção, ilegitimidade, crime, infelicidade, problemas de saúde e outras condições patológicas associadas”.[2] O escritor não tinha dúvidas de que os genes determinavam a “debilidade mental” e suas patologias associadas. O Terceiro Reich tomou emprestado dos EUA a sua legislação de esterilização.[3] A aplicação mais extrema da eugenia levou aos fornos a gás de Auschwitz e Buchenwald. Hoje tais atitudes e práticas são certamente vistas com horror. Definitivamente, o tipo de determinismo genético que alimentou a eugenia é uma coisa do passado? Sim e não. O determinismo genético de hoje é mais uma espécie de influência traiçoeira e insidiosa, absorvida por um processo de osmose cultural a partir da mídia, pelo abuso da linguagem genética no discurso diário e também, infelizmente, pelas declarações incorretas de alguns acadêmicos.

Como relatado recentemente na seção News Feature da revista Nature:[4] ‘Um número crescente de estudos sugere que a biologia pode exercer uma influência significativa em crenças e comportamentos políticos’, sugerindo que ‘os genes poderiam influenciar comportamentos relativos a assuntos como aborto, imigração, a pena de morte e o pacifismo.’ John Hibbing, um cientista político da Universidade de Nebraska-Lincoln, é citado dizendo que ‘…é difícil mudar a opinião de alguém sobre questões políticas porque suas reações estão enraizadas em sua fisiologia’. Observe a premissa do determinismo. Genes e fisiologia são vistos como algo diferente de “nós” e “nossa consciência”, e eles parecem estar nos controlando, então não podemos nem mudar nossa opinião.

O sequenciamento do genoma humano (as 3,2 bilhões de ‘letras genéticas’ em nosso DNA) publicado em 2004 acelerou a popularidade da linguagem genética no discurso cotidiano. ‘O genoma humano codifica o projeto da vida’, grita a manchete. O genoma é muitas vezes referido como ‘um manual de instruções’, dando a impressão de que o corpo humano é montado usando o manual da mesma forma que você pode montar um móvel IKEA usando o kit e as instruções fornecidas. A situação não é ajudada pela mídia constantemente relatando a descoberta de um gene ‘para’ isso, aquilo ou aquilo outro: ‘Pesquisa com adolescentes revela gene para a felicidade’ (New Scientist)[5]; ‘A Ciência do Estresse – seu filho tem o gene da preocupação?’ (The Times)[6], e assim por diante. Todavia, um gene é de fato apenas um trecho de DNA que codifica uma proteína ou uma molécula reguladora de RNA[7], e é isso. Não existe um único gene que codifique qualquer tipo de comportamento em qualquer organismo vivo, muito menos em seres humanos.

 

Isso importa?

O que está em jogo? Importa se as pessoas pensam que suas decisões são determinadas por sua carga genética? A convicção cristã é que o livre arbítrio, implícito em centenas de passagens bíblicas[8], é fundamental em assegurar a responsabilidade moral para com Deus e para com os outros, de maneiras que são inteiramente compatíveis com a ordenação soberana e providencial de Deus sobre as relações humanas.[9] Como Jesus nos advertiu: “Eu lhes digo que, no dia do juízo, os homens haverão de dar conta de toda palavra inútil que tiverem falado.” (Mateus 12.36).[10] O próprio Jesus orou: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua.” (Lucas 22.42). A presunção da responsabilidade humana é central para a fé cristã e um importante elemento de manutenção da coesão social, sustentando o sistema de justiça e as escolhas que dão valor aos relacionamentos. O livre arbítrio é um dom precioso concedido a nós por Deus.[11]

Para os cristãos, não é surpresa descobrir que a saúde social e mental se correlaciona positivamente com a crença no livre-arbítrio, como mostram estudos psicológicos e sociológicos recentes. Crenças sobre a imutabilidade da identidade humana, seja por razões consideradas genéticas ou ambientais, podem ter um impacto extremamente negativo sobre o florescimento humano.[12] Sujeitos previamente expostos a textos pró-determinismo, em vez de textos que apoiam o livre arbítrio, são menos propensos a serem pró-sociais e mais propensos a se engajarem em comportamentos antissociais. Possuir uma forte crença no livre arbítrio é indício de melhores posturas profissionais e desempenho no trabalho[13], e parece também influenciar a disposição das pessoas a pensarem independentemente das opiniões de grupo – uma crença mais forte no livre arbítrio está associada a uma medida mais elevada de não-conformidade.[14] Crenças geneticamente deterministas também se correlacionam com atitudes não-igualitárias.[15] O que as pessoas acreditam sobre o livre arbítrio vai realmente fazer a diferença.

 

Definindo o determinismo

Este artigo não é sobre a filosofia nem a teologia do livre arbítrio.[16] No entanto, é necessária alguma definição do termo “determinismo” para a discussão biológica que se segue. Podemos definir o determinismo em sua forma mais rígida como a tese de que “considerando nosso genoma particular, alguns elementos de nossas vidas não dependem realmente de nós, incluindo certas escolhas aparentes.” Há também uma forma mais branda de determinismo genético que afirma que “considerando nossos genomas particulares, nossas vidas são mais propensas a seguir um futuro específico.” O determinismo genético rígido é mais relevante dentro da genética médica, onde, de fato, uma patologia específica às vezes acarreta restrições para um futuro em particular, infelizmente. No que diz respeito ao determinismo brando, é o crescente campo da genética comportamental que se mostra mais relevante. Mas antes de considerar a genética comportamental, é importante avaliar como a biologia contemporânea mudou radicalmente nossa compreensão de como os genomas funcionam.

 

Natureza, criação e DICI

Francis Galton introduziu pela primeira vez o contraste dos termos ‘natureza’ e ‘criação’ em seu livro Of Men of Science: Their Nature and Nurture (1874). Como Galton apontou, ‘a frase “natureza e criação” é um conveniente jogo de palavras.’[17] Galton favoreceu o termo ‘natureza’ como uma explicação, enfatizando que ‘nenhum cuidado sobre a criação pode superar as más tendências de um físico intrinsecamente ruim, um cérebro fraco ou uma disposição brutal.’ As estruturas dicotômicas dominaram a discussão sobre o comportamento humano desde então em vários emparelhamentos, como ‘hereditário e comportamental’; ‘inato e adquirido’; ou, o mais comum hoje, ‘genes e meio ambiente’. No discurso público, a dicotomia natureza-criação permanece ainda notavelmente resistente à mudança, apesar de os biólogos terem declarado regularmente, por pelo menos nove décadas, que a frase é obsoleta. Livros de ciência populares com ‘natureza’ e ‘criação’ em seus títulos continuam a proliferar.[18]

O problema com essa linguagem dicotômica é que ela promove e reflete uma imagem fragmentada da personalidade humana na qual as forças reificadas[19] dos genes e do ambiente puxam em direções diferentes, como se a personalidade humana fosse um campo de batalha de influências concorrentes. A mídia fala sobre o ‘debate natureza versus criação’[20] como se houvesse duas essências rivais – uma chamada ‘natureza’ e outra chamada ‘criação’. Mas a biologia contemporânea subverte a ideia de que os genes são um ‘manual de instruções’ que determina os destinos humanos. Precisamos reestruturar a discussão sobre genes e ambientes dentro de uma matriz que faça mais justiça à rica complexidade dos organismos biológicos.

A sigla que nos ajudará nessa jornada de exploração biológica é DICI, que em inglês significa Developmental Integrated Complementary Interactionism (Interacionismo Complementar Integrado de Desenvolvimento), um acrônimo usado aqui como um cabide para pendurar essas quatro palavras-chave que, juntas, nos ajudam a subverter todas as formas de linguagem dicotômica. Cada palavra (destacada em negrito abaixo) pode ser ilustrada considerando o desenvolvimento complexo de um ser humano individual.

Vamos começar com um óvulo humano recém-fertilizado – um zigoto. O que é herdado dos pais não é o DNA puro, que por si só não pode fazer nada, mas um complexo sistema de DNA, RNA, proteínas e nutrientes que juntos operam para regular o crescimento e a divisão celular. O óvulo humano imediatamente antes da fertilização contém pelo menos 3.000 proteínas diferentes e milhares de moléculas de RNA envolvidas na regulação da expressão gênica (i.e., como os genes são ativados/desativados).[21] Todos esses componentes são integrados para organizar o desenvolvimento fetal. Genes, como pessoas, funcionam de acordo com as companhias que eles mantêm. No zigoto inicial, não é o DNA que causa o início do desenvolvimento, mas sim as proteínas herdadas da mãe, agora dentro do zigoto, que regulam quais genes no DNA são ativados e desativados. As proteínas são os músicos da orquestra do DNA que fazem com que os genes produzam a sinfonia integrada da vida.

Desde o início do desenvolvimento os genes existem em dois ambientes simultaneamente: o microambiente dentro da célula mais o macroambiente fora da célula, primeiro da mãe, depois do indivíduo em crescimento. O DNA e esses dois tipos de ambiente interagem desde o momento da fertilização. Muitos processos complementares acontecem em paralelo, subvertendo a linguagem de relações causais lineares.

O cérebro infantil não é uma versão em miniatura do cérebro adulto, mas um sistema auto-organizado que só é montado corretamente se as contribuições ambientais corretas (como luz, som e linguagem) estiverem disponíveis no momento certo. Continuando ao longo de nossa trajetória de desenvolvimento até a idade adulta, o interacionismo integrado entre os genes, microambientes e macroambientes torna-se ainda mais surpreendente. O indivíduo em crescimento faz escolhas fundamentais de estilo de vida que modificam seu DNA epigeneticamente, ligando ou desligando genes. Se o genoma é o hardware da herança, então a regulação epigenética representa o software, modificações que são preservadas quando as células se dividem; alguns podem até ser herdados, em humanos, através de pelo menos duas gerações. A regulação epigenética fornece uma via de comunicação chave que conduz dos macroambientes através dos microambientes para o genoma. As escolhas de estilo de vida que fazemos podem influenciar medicamente nossos netos, um pensamento muito sério.[22]

A estrutura do DICI simplesmente ignora as noções de ‘natureza’ e ‘criação’: as balizas foram movidas. Não há duas entidades reificadas separadas que interajam uma com a outra – elas não existem. A ideia do DICI, a abordagem do desenvolvimento, é que 100 por cento do fenótipo[23] de qualquer organismo complexo envolve genética e 100 por cento envolve os ambientes. Certamente não somos ‘folhas em branco’ no nascimento, mas tampouco somos o produto de um manual de instruções genéticas.

Uma metáfora simples pode ajudar: a história do desenvolvimento de um bolo de chocolate Floresta Negra. A maior parte do bolo é farinha – mais de 50%; sem farinha, sem bolo. Menos de 1% é fermento em pó; sem fermento, sem bolo. Cerca de 8% é chocolate em pó; sem chocolate, sem bolo de chocolate. Sem o calor correto do forno, sem bolo. Assim, o bolo é o produto de um processo complexo de desenvolvimento no qual as proporções da receita são de fato críticas para o resultado final, mas seria estranho e, de fato, impossível tentar atribuir a proporcionalidade dos componentes originais no produto acabado – neste estágio, os componentes iniciais não existem mais. O bolo como um todo tem propriedades emergentes que não são redutíveis aos seus componentes iniciais.

Meditar sobre o desenvolvimento do indivíduo humano – muito mais complexo que um bolo! – deve despertar nosso louvor e admiração junto com o salmista: “Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Disso tenho plena certeza.” (Salmo 139. 13-14). Somos muito mais que a soma de nossas partes.

 

Genética comportamental

Quando a mídia anuncia a descoberta de um novo gene “para” a felicidade ou a impetuosidade ou a inteligência, a pesquisa relatada vem do campo da genética comportamental. Portanto, é importante entendermos o que esse campo reivindica, e o que não reivindica.

O objetivo da genética comportamental quantitativa[24] é investigar quanto da variação comportamental em uma população humana específica está associada à variação genética, usando estudos de gêmeos e de adoção. Gêmeos idênticos têm em comum sua sequência genômica, enquanto gêmeos não-idênticos compartilham, em média, 50% de seus genes em comum.[25] O objetivo é separar a influência de genes, ambiente compartilhado e ambiente não compartilhado na variação de uma população particular para um traço específico (por exemplo, QI ou personalidade). As influências ambientais compartilhadas incluem fatores como status socioeconômico, dieta ou estilo parental. Influências ambientais não compartilhadas são aquelas que tornam uma pessoa diferente das outras em relação a um determinado traço, por exemplo, bullying na escola ou diferentes níveis de consumo de drogas ou álcool.

A investigação mede a “herdabilidade” de uma determinada característica, um termo técnico frequentemente mal compreendido. Até a década de 1940, a “herdabilidade” era sinônimo de herança. Desde então, ganhou um significado técnico adicional, difícil de entender, mas que vale o esforço, porque nos ajuda a entender por que a mídia com frequência divulga erroneamente as descobertas genéticas. Um estudo de herdabilidade calcula a proporção da variância total entre indivíduos[26], entre gêmeos idênticos ou gêmeos não-idênticos, que está associada tanto a genes quanto aos dois tipos de ambiente. As três proporções de variância somam 1. A herdabilidade é definida como a proporção da variância de uma característica em uma população específica que pode ser atribuída à variação genética. A herdabilidade pode ser escrita como uma porcentagem, que é frequentemente mal interpretada como se se referisse à proporção da herança de uma característica, quando tudo que ela representa é a porcentagem da variância total em uma população específica. A herança refere-se aos conjuntos de variantes genéticas que recebemos de nossos pais. É sobre indivíduos. A herdabilidade, em seu sentido técnico, é sobre o nível de variância genética relevante em uma população. Infelizmente, a palavra agora frequentemente se desloca de um significado para outro, até dentro do mesmo texto, de modo que, por exemplo, quando se obtém um valor de herdabilidade de 50%, a impressão dada é que uma determinada característica em um determinado indivíduo é realmente causada 50% por seus genes e 50% por seu ambiente, que não é o que significa a herdabilidade. Esta é a fonte de muita falta de comunicação na mídia.

Um exemplo simples[27] pode ajudar. Primeiro, notamos que quase todas as pessoas têm duas pernas. Quando têm apenas uma perna, é quase sempre devido a um acidente, ou seja, devido ao ambiente. Portanto, a variação na característica ‘possuir pernas’ na população é 100% ambiental e 0% hereditária. Isso parece estranho porque todo mundo sabe que você precisa de genes para ter pernas. É apenas que, na prática, o sistema genômico responsável pela construção das pernas durante o desenvolvimento quase sempre encontra o mesmo contexto ambiental, e assim o sistema invariavelmente constrói duas pernas. Da mesma forma, a herdabilidade de ter um cérebro é zero, porque não há variação em uma população nessa característica em particular. A herdabilidade não nos diz nada sobre a interação complexa de componentes como descrita pelo DICI que de fato leva ao desenvolvimento de características.

Infelizmente, o próprio método de cálculo da herdabilidade perpetua a distinção dicotômica linguística entre genes e ambiente, natureza e criação, que tende a distorcer a natureza unitária da personalidade humana. Uma vez que os valores matemáticos são atribuídos a três diferentes proporções de variação que, por definição, somam 1, então é inevitável que essas proporções venham a ser vistas como entidades reificadas que, de alguma forma, interagem ou competem na geração de algo. Na realidade, essas proporções são construtos estatísticos, não entidades físicas, mas a percepção gerada nos relatórios de valores de herdabilidade segue muitas vezes essa linha.

Podemos ver, portanto, a genética comportamental como uma abordagem experimental que envolve uma ficção necessária para fins matemáticos, particularmente útil para sinalizar o papel dos genes variantes em condições médicas (como o autismo). Assim como a venerável lei dos gases de Boyle implica a visualização do ar como feito de partículas que não interagem (o que não é), a genética comportamental envolve visualizar proporções de variação sendo atribuídas a diferentes entidades reificadas, que na realidade não existem. O DICI fornece uma imagem muito diferente. Milhares de variantes genéticas, diferentes contribuições ambientais, mudanças epigenéticas sutis e escolhas humanas pessoais, todos interagem no desenvolvimento para contribuir para a rica diversidade entre os indivíduos humanos. É a complexidade em si, juntamente com suas propriedades emergentes, que é a chave.

Se aceitarmos, como eu certamente acredito, que a experiência da liberdade pessoal conforme fazemos nossas escolhas diárias é uma das mais consistentes e convincentes de todas as nossas experiências humanas básicas, então não há nada na genética comportamental contemporânea, exceto algumas patologias psiquiátricas severas atribuíveis a genes mutantes, que torna a realidade dessa experiência menos plausível. De fato, é a formação biológica confiável (Salmos 139.13-14) que ocorre durante o desenvolvimento do ser humano, incluindo a geração dos grandes lobos frontais de nossos cérebros, que nos permite fazer escolhas responsáveis ​​e livres. Sem DICI, nenhuma liberdade. Sem liberdade, nenhuma responsabilidade. Sem responsabilidade, nenhuma justiça, divina ou humana, e nenhuma dignidade. Sem dignidade, nenhuma humanidade.

 

A genética e a humanidade feita à imagem de Deus

Até onde podemos olhar na história humana, encontramos um fascínio pelos fatores que determinam o destino humano – astrologia, maldições e os poderes dos deuses. Para muitas sociedades antigas da Mesopotâmia, seus destinos estavam nas estrelas juntamente com os planetas, o sol e a lua. Nestas sociedades estratificadas, governantes e servos tinham papéis sociais fixos, e a ordem sociopolítica era vista como um microcosmo do mundo mais amplo dos deuses. Para a massa da humanidade, a ideia de assumir uma responsabilidade pessoal por um tipo de futuro possivelmente diferente era impensável.

O contraste com a revelação dada pelo único Deus verdadeiro e sua visão igualitária para a humanidade, mapeada nos primeiros capítulos de Gênesis, é surpreendente. Aqui, a humanidade feita à imagem de Deus (Gênesis 1.26-27), criada com dignidade e valor, é chamada a desempenhar um papel delegado de realeza, tanto masculino quanto feminino, para governar sobre a Terra e cuidar da ordem criada. Para os leitores antigos, essa compreensão de seu papel, derivada do texto de Gênesis, seria reforçada pelos muitos textos contemporâneos que se referiam ao rei como sendo à imagem divina de um dentre os diversos deuses politeístas que eram reverenciados pelas nações vizinhas.[28] Ser “à imagem de Deus” era uma linguagem de realeza. Os papéis real e sacerdotal atribuídos a poucos privilegiados por um panteão de deuses na visão de mundo politeísta são delegados, em Gênesis, pelo único Deus criador para toda a humanidade.

Esse entendimento coloca a liberdade e a responsabilidade humanas diretamente no centro dos planos de Deus para a humanidade. Isso pode parecer óbvio para nós agora, mas a própria sugestão representava uma profunda ameaça à ideologia mesopotâmica dominante em seu contexto original. Qualquer desvio do padrão divino original era visto como regressão e, assim, deveria ser resistido. A livre escolha não entrou nessa. Em contraste, em Gênesis, a responsabilidade delegada para subjugar e cuidar da terra foi dispensada a toda a humanidade. Além disso, uma escolha clara foi apresentada. A ordem é dada em Gênesis 2 para não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. O comando é desobedecido; a autonomia humana parece muito mais atraente. Há consequências terríveis: separação da árvore da vida. A premissa da responsabilidade humana genuína é inescapável.

Hoje, esse choque de visões de mundo ainda está se desenrolando, ainda que em um contexto completamente diferente, mas com alguns paralelos notavelmente semelhantes. Os deterministas genéticos, como o Prof. Hibbing citado acima, que realmente parecem pensar que nosso destino está em nossos genes, com pouca esperança de mudança, contrastam com aqueles que veem a variação genética como parte do grande ‘exercício de tecelagem’ de Deus, no qual os genes são integrados a centenas de outros componentes durante o desenvolvimento para gerar um grande leque de personalidades distintas, cada uma das quais tendo a responsabilidade de cultivar sua própria história através da vida sob a orientação providencial de Deus.

A humanidade, sendo feita à imagem de Deus, também destaca o valor e a condição de cada indivíduo humano de um modo que é independente de seu perfil genético. Houve um tempo em que a ideia da imagem de Deus era compreendida mais como uma lista de características, como racionalidade e criatividade, que distinguiam a humanidade do resto do reino animal. Por mais válida que esta lista seja, ela não nos leva ao cerne da ideia, como vemos em Gênesis. Em vez disso, vemos mais a ideia da delegação de um valor e de uma posição concedida por Deus, que existem independentemente da fragilidade e transitoriedade da vida humana. Assim, o valor e a condição da humanidade são estabelecidos não por capacidades intrínsecas, mas pelo decreto divino (Gênesis 1.26-27). Aqueles que vivem em uma monarquia são súditos do monarca em razão de sua cidadania, embora, é claro, pessoas diferentes irão variar no quanto obedecem ao seu monarca – mas mesmo que suas crenças pessoais sejam republicanas, elas permanecem como cidadãos. Aplicar a ideia da Imago Dei como uma condição divinamente concedida e não como uma conquista pessoal significa que aqueles cuja carga genética os leva a sofrer alguma desvantagem na vida, seja ela física ou mental ou ambas, compartilham tanto da imagem de Deus como qualquer outra pessoa. O fato de a humanidade ser feita à imagem de Deus subverte qualquer movimento de fazer distinções entre pessoas com base em seus atributos genéticos.

 

Conclusões

Não há nada na genética contemporânea que subverta nosso genuíno senso de liberdade pessoal e responsabilidade humana. Somos realmente responsáveis ​​uns pelos outros e para com Deus. Podemos ser responsabilizados – poderíamos ter feito de outra forma – e devemos nos responsabilizar mutuamente. Por essa razão, devemos resistir às narrativas retóricas que retratam os humanos como peões indefesos de seus genes e seus ambientes. E devemos criticar as tentativas de fragmentar a biologia da personalidade humana em elementos concorrentes, lembrando que Deus nos cria pessoas inteiras, integradas e entrelaçadas em uma rica tapeçaria na qual e através da qual Deus exerce sua vontade providencial. Só assim poderemos expressar a realidade de sermos feitos à imagem de Deus, como indivíduos e em comunidades relacionais.

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Dr. Denis Alexander é diretor emérito do Instituto Faraday para Ciência e Religião no St. Edmund’s College, em Cambridge (www.faraday-institute.org). O autor gostaria de agradecer a Nell Whiteway pela assistência em pesquisa e ao Prof. Keith Fox por revisar o artigo.

Do autor, a Editora Ultimato publicou em parceria com a ABC2 o livro “Criação ou Evolução: Precisamos Escolher?” (2017).

 

[1] Time, 5 de março de 1993.

[2] American Sociological Review, agosto de 1940, 5, p.658.

[3] D. J. Kevles, In the Name of Eugenics, Harvard University Press, 1995, pp.116-118.

[4] L. Buchen, Nature, 2012, 490, pp.466-468.

[5] http://www.newscientist.com/article/mg21028126.300-teen-survey-reveals-gene-for-happiness.

html. Acessado em 12 de março de 2013.

[6] B. McMahon, ‘Body and Soul’, The Times, 9 de março de 2013, p.4.

[7] O RNA é uma molécula química semelhante ao DNA que transmite informações do DNA para outras partes da célula.

[8] e.g. Ex 19.5; Js 25.15; At 2.38; Gl 5.13; 1 Pe 4.3, e muitos mais.

[9] Ver, por exemplo, D. A. Carson, How Long O Lord?, Inter-Varsity Press, 1990.

[10] Veja também Rm 14.12; Hb 4.13.

[11] Este artigo é como uma imagem espelhada de um Cambridge Paper anterior, de autoria de David MacIlroy, intitulado Infinite Choice (Vol.22, No.3, Setembro de 2013), que mostra como o próprio ato de escolher pode se tornar supervalorizado. Ironicamente, essa valorização da escolha coexiste em uma sociedade na qual a própria ideia da livre escolha é ameaçada pelas ciências biológicas.

[12] Revisado em Roy F. Baumeister e Lauren E. Brewer, ‘Believing versus Disbelieving in Free Will: Correlates and Consequences’, Social and Personality Psychology Compass, 2012, 6, pp.736-745.

[13] T. F. Stillman, et al., ‘Personal Philosophy and Personnel Achievement: Belief in Free Will Predicts Better Job Performance’, Social Psychological and Personality Science, 2010, 1, pp.43-50.

[14] J. L. Alquist, et al., ‘Determined to conform: Disbelief in free will increases conformity’, Journal of Experimental Social Psychology, 2013, 49, pp.80-86.

[15] J. Castera, et al., ‘Comparison of French and Estonian students’ conceptions in genetic determinism of human behaviours’, Journal of Biological Education, 2013, 47, pp.12-20; J. Keller, ‘In genes we trust: the biological component of psychological essentialism and its relationship to mechanisms of motivated social cognition’. J Pers Soc Psychol, 2005, 88, pp.686-702.

[16] Existe uma enorme literatura sobre este tópico, e.g. Peter van Inwagen, An Essay on Free Will, OUP, 1986; J. K. Campbell, Free Will, Polity Press, 2011.

[17] N.T.: Em inglês: “Nature” and “Nurture” formam uma expressão aliterada, para a qual não há tradução literal em português. Foram utilizados aqui, respectivamente, “Natureza” para os aspectos do indivíduo influenciados pela herança genética e “Criação”, para se referir à influência de fatores ambientais.

[18] Tente pesquisar por nature+nurture na Amazon; os resultados são interessantes.

[19] “Reificar” significa a tentativa de “coisificar” aquilo que é um processo e não uma “essência”.

[20] http://en.wikipedia.org/wiki/Nature_versus_nurture.

[21] mRNA refere-se ao “RNA mensageiro”, que contém a informação da sequência derivada do DNA, que especifica a sequência de aminoácidos da proteína codificada pelo gene.

[22] cf Ex 34.5-7. Exemplos até agora incluem fumar e gula.

[23] O termo ‘fenótipo’ na biologia refere-se às características observáveis de um organismo.

[24] Para uma descrição mais completa, consulte um livro-texto padrão, como: R. Plomin et al., Behavioral Genetics, Worth Publishers, 6th edn, 2013. Críticas à abordagem podem ser encontradas em Evelyn Fox Keller, The Mirage of a Space Between Nature and Nurture, Duke University Press, 2010; D. Goldhaber, The Nature – Nurture Debates: Bridging the Gap, CUP, 2012.

[25] Na realidade, varia dentro do intervalo 37% – 62%. Isto significa que uma média de 50% dos seus genes codificadores de proteínas são idênticos.

[26] Uma medida da distância média entre cada conjunto de pontos de dados e seu valor médio; igual à soma dos quadrados do desvio do valor médio.

[27] Usado por Patrick Bateson, Universidade de Cambridge.

[28] J. Richard Middleton, The Liberating Image: the Imago Dei in Genesis 1, Grand Rapids, MI: Brazos Press, 2005.

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