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Criação, Evolução e Cristãos Leigos – Tim Keller – Parte 6

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Esta é a última de uma série de seis partes considerando perguntas que cristãos leigos trazem aos seus pastores quando apresentados ao ensinamento de que a evolução biológica e a ortodoxia bíblica podem ser compatíveis. Até então, o Dr. Keller abordou o conflito entre evolução e uma leitura literal de Gênesis, argumentou que um relato evolucionário das origens não necessariamente diminui a dignidade humana e discutiu os problemas que cercam nosso entendimento de pecado, sofrimento e salvação, caso não aceitemos um Adão histórico. Neste post, o Dr. Keller conclui a série delineando um dentre vários ‘modelos’ possíveis para harmozinar uma queda histórica e uma origem biológica evolutiva dos seres humanos.

Um Modelo

Se Adão e Eva eram figuras históricas, poderiam eles terem sido produtos de PBE? Em um comentário evangélico mais antigo sobre Gênesis, Derek Kidner oferece um modelo de como isso poderia ter acontecido. Em primeiro lugar, ele observa que em Jó 10:8-9 é dito que Deus moldou Jó com suas “mãos”, como um oleiro dá forma à argila a partir do pó da terra, embora Deus obviamente fez isso através do processo natural de formação no útero. Kidner pergunta porque a mesma terminologia de oleiro em Gênesis 2:7 não poderia denotar um processo natural como a evolução 21. Kidner diz então que:

 

O homem na Escritura é muito mais do que homo faber, o fabricante de ferramentas: ele é constituído homem pela imagem e sopro de Deus, nada menos que isso… Os seres inteligentes de um passado remoto, cujas formas corporais e relíquias culturais conferem o status claro de “homem moderno” para o antropólogo, podem ter sido decisivamente abaixo do plano de vida que foi estabelecido na criação de Adão… Nada exige que a criatura na qual Deus soprou a vida humana não deveria ter sido de uma espécie preparada em todos os sentidos para a humanidade…22

 

Assim, neste modelo, havia um lugar na evolução dos seres humanos em que Deus levou um membro da população de fabricantes de ferramentas e dotou-o da “imagem de Deus”. Isso teria elevado este homem para um novo “plano de vida”. Deste ponto de vista, então o que aconteceu?

 

“Se esta… alternativa implica qualquer dúvida sobre a unidade da humanidade seria, naturalmente, bastante insustentável. Deus… fez todas as nações “de um só” (Atos 17:26)… Ainda assim, é pelo menos concebível que após a criação especial de Eva, que estabeleceu o primeiro casal humano como vice-regentes de Deus (Gênesis 1:27,28) e resolveu o fato de que não existe uma ponte natural do animal ao homem, Deus pode então ter conferido Sua imagem nos parentes colaterais de Adão, para trazê-los para a mesma esfera do ser. A direção “federal” da humanidade de Adão estendeu-se, se este for o caso, para fora, para seus contemporâneos, bem como seguiu para a sua descendência, e sua desobediência deserdou a ambos.” 23

 

Aqui Kidner fica criativo. Ele propõe que o ser que se tornou Adão sob a mão de Deus evoluiu primeiro, mas Eva não. Em seguida, eles foram colocados no jardim do Éden como representantes de toda a raça humana. A sua criação à imagem de Deus e sua queda afetou não só a sua prole, mas todos os outros contemporâneos. Neste relato, Kidner representa tanto a continuidade entre animais e seres humanos que os cientistas veem, como a descontinuidade que a Bíblia descreve. Somente os seres humanos tem a imagem de Deus, caíram em pecado e serão salvos pela graça.

 

Esta abordagem poderia explicar questões perenemente difíceis da Bíblia, tais como: quem eram as pessoas que Caim temia que poderiam matá-lo para vingar o assassinato de Abel (Gênesis 4:14)? Quem foi a esposa de Caim e como Caim poderia construir uma cidade cheia de habitantes (Gênesis 4:17)? Podemos até perguntar por que Gênesis 2:20 sugere que Adão se lançou em uma busca para “encontrar” um cônjuge se houvessem apenas animais ao redor? Na abordagem de Kidner, Adão e Eva não estavam sozinhos no mundo e isto responde a todas estas perguntas.

 

Mas há uma questão que paira sobre as outras. Neste modelo, como poderia ter havido sofrimento e morte antes da queda? Uma resposta pode estar no segundo verso da Bíblia, onde nos é dito que “a terra era sem forma” e estava cheia de escuridão e caos. A maioria dos intérpretes tradicionais acreditam que Deus inicialmente fez o mundo neste estado “sem forma” e, em seguida, passou a dominar a desordem através do processo criativo da separação, elaboração e desenvolvimento descrito em Gênesis 1 24. No entanto, mesmo esta interpretação tradicional significa que não havia ordem e paz perfeita na criação desde o primeiro momento. Além disso, Satanás parece estar presente no mundo antes da queda. O que nos faz pensar que Satanás e seus demônios não estavam no mundo antes do momento que a serpente aparece? Uma das maiores questões teológicas sem resposta (e irrespondíveis) é o que Satanás estava fazendo lá? Por definição, se Satanás estava em algum lugar no mundo, nem tudo era perfeito.

 

A teologia tradicional nunca acreditou que a humanidade e o mundo em Gênesis 2-3 estavam em um estado glorificado, perfeito. Agostinho ensinou que Adão e Eva eram posse non peccare (capazes de não pecar), mas caíram no estado de non posse non peccare (incapazes de não pecar). Nosso estado final de salvação completa, no entanto, será peccare non posse (incapazes de pecar). O Éden não era o mundo consumado do futuro. Alguns têm apontado que no Jardim do Éden teria de haver algum tipo de morte e decadência ou as frutas não seriam comestíveis.

 

Pode ser que Adão e Eva tenham recebido imortalidade condicional e, no jardim, uma antecipação de como a vida no mundo seria com seres humanos à imagem de Deus, vivendo em perfeita harmonia com Deus e sua criação. A eles foi oferecido trabalhar com Deus para “subjugar” a terra (Gênesis 1:28). De qualquer modo, a ideia de “ter domínio” e “subjugar” a terra significava que a criação era, pelo menos, altamente subdesenvolvida. Mesmo antes da queda, o mundo ainda não estava na forma que Deus queria que fosse. Os seres humanos trabalhariam com Deus para cultivar e desenvolver o mundo.

 

O resultado da queda, no entanto, foi “morte espiritual”, algo que nenhum ser no mundo conhecia, pois ninguém tinha sido criado à imagem de Deus. Os seres humanos tornaram-se, ao mesmo tempo, capazes de realizar coisas muito maiores e muito piores do que quaisquer outras criaturas. Agora morremos eternamente quando morremos fisicamente. E já que agora estamos alienados de Deus, o mundo está sob o poder das forças das trevas de uma forma que não teria ocorrido sem a queda. O mundo físico ‘geme’ sob desintegração porque os seres humanos falharam em ser mordomos da criação de Deus. O ‘mal natural’ é combinado como mal moral e humano, para criar um mundo de fato caótico e escuro. O mundo vai finalmente ser renovado, e tornar-se tudo o que foi projetado para ser (Romanos 8: 19-23), somente quando finalmente se tornar tudo o que deve ser feito através do trabalho do Segundo Adão (1 Cor. 15: 42-45)

Outros Modelos

Seria este o único modelo possível para aqueles que acreditam em uma queda histórica, mas também acreditam que Deus usou a evolução para formar a vida na Terra? Não. Alguns acreditam em evolucionismo teísta, que tanto Adão e Eva foram os produtos da evolução e receberam a imagem e sopro de Deus 25. Outros pensam que faz mais sentido, teologicamente e filosoficamente, acreditar na ‘criação progressiva’, em que enquanto Deus usou a evolução em geral para formar a vida, ele criou Adão e Eva com um ato especial, e que a tese da ancestralidade comum com outros animais é completamente falsa 26. O modelo de Kidner é uma espécie de híbrido entre o evolucionismo teísta e o criacionismo progressivo, de terra antiga. Qualquer que seja o seu “modelo” para trabalhar a relação da Bíblia com a ciência, no entanto, Kidner insiste:

 

O que é bastante claro a partir destes capítulos, à luz das outras escrituras, é sua doutrina de que a humanidade é uma unidade, criada à imagem de Deus e decaída em Adão por um ato de desobediência. E estas coisas são tão fortemente afirmadas neste entendimento da Palavra de Deus, como em qualquer outro.27

Pensamentos Finais

Como podemos correlacionar os dados da ciência com o ensino das Escrituras? A resposta mais simples para os cientistas provavelmente seria dizer “quem se preocupa com as Escrituras e a teologia?”, mas isto não consegue fazer justiça com a autoridade da Bíblia, algo que o próprio Jesus tomou com muita seriedade. A resposta mais simples para os teólogos, provavelmente seria dizer “quem se preocupa com a ciência?” mas isso não confere à natureza a sua devida importância como criação de Deus. Salmos 19 e Romanos 1 ensinam que a glória de Deus é revelada à medida que estudamos sua criação, mas, no final, ambas as passagens dizem que é apenas a Escritura que é a revelação “perfeita” da mente de Deus (Salmos 19:7). Devemos interpretar o livro da natureza com o livro de Deus. “Não se pode dizer fortemente que a Escritura é o veículo perfeito para a revelação de Deus… sua ousada seletividade, como a de uma grande pintura, é o seu poder. Lê-la com um olho em qualquer outro relato é borrar sua imagem e perder sua sabedoria.28

 

A minha conclusão é que os cristãos que estão buscando correlacionar Escritura e ciência devem ser uma ‘tenda maior’ do que tanto os religiosos anti-científicos ou os cientistas anti-religiosos. Mesmo que neste artigo eu tenha argumentado para a importância da crença em um Adão e Eva literal, eu demonstrei aqui que existem várias maneiras de realizar isso e ainda acreditar em Deus usando PBE. 29

 

Quando Derek Kidner concluiu seu relato sobre as origens do homem, ele disse que sua opinião era uma “sugestão exploratória… apenas experimental, e é um ponto de vista pessoal. Ele convida correção e uma melhor síntese.30 Essa é a atitude certa para todos nós trabalhando nesta área.

 

21 Derek Kidner, Genesis: An Introduction and Commentary (IVP, 1967) p.28 n.

22  Kidner, p.28.

23  Kidner continua a escrever: “Com uma possível exceção [Gen 3: 20], a unidade da humanidade “em Adão” e o nosso estado comum de pecadores através de sua ofensa são expressos nas Escrituras não em termos de hereditariedade, mas simplesmente de solidariedade” (p.30). Kidner comenta nesta possível exceção – Gênesis 3:20, que denomina Eva  “a mãe de toda a humanidade”. Ele considera que ao invés disto, a tradução poderia ser algo como “a mãe de toda a salvação”, uma vez que a salvação virá ao mundo através de sua “semente”, e este é o contexto do nome.

24  Outro ponto de vista popular destes versos é a teoria das “Lacunas”, isto é, Deus criou os céus e a terra para serem um lugar de ordem e luz, e, em seguida, o versículo 2 nos diz que o mundo tornou-se caótico e escuro através de alguma luta ou desastre e que Gênesis 1 é a história de como Deus recriou o mundo. Gramaticalmente, esta teoria não é provável, mas houveram pelo menos quatro maneiras diferentes de ler a relação das cláusulas de Gênesis 1:1 e 2. Ver o resumo deste debate feito em Gordon J. Wenham, Genesis 1-15 (Word Biblical Commentary, 1987), pgs.11-17.

25 Veja Denis Alexander, Creation or Evolution: Do We Have to Choose?

26 Veja a edição de Setembro de 1991 da Christian Scholar’s Review para artigos por Alvin Plantinga, Howard Van Till, e Ernan McMullin. Para um resumo desses argumentos, veja W. Christopher Stewart, “Religion and Science” em Reason for the Hope Within, ed. Michael J. Murray (Eerdmans, 1999), p.331.

27 p.30.

28 Kidner p.31.

29 Denis Alexander, em Creation or Evolution: Do We Have to Choose? (Monarch Books, Oxford, UK, 2008) fala de vários “modelos” pelos quais podemos relacionar o ensino de Gênesis 2-3 com a biologia evolutiva O “Modelo A” vê Gênesis 2-3 como uma parábola sobre cada ser humano individualmente (isto é, todos nós pecamos). O “Modelo B” vê Gênesis 2-3 como um relato figurado de algo que realmente aconteceu com um grupo de seres humanos primitivos. O “Modelo C” vê Adão e Eva como figuras históricas reais, mas aceita completamente o fato de que a vida humana veio de PBE. O “Modelo D” é o criacionismo de terra antiga, enquanto o “Modelo E” é o criacionismo de terra jovem (Veja os capítulos 10 e 12). Embora Alexander liste estes cinco modelo, eu não tenho certeza que estes esgotam as possibilidades. A proposta de Derek Kidner não se encaixa em nenhum dos modelos de Alexander.

30  Kidner, p.30

Traduzido do original disponível em http://biologos.org/blogs/archive/creation-evolution-and-christian-laypeople-part-6

Por Leopoldo Teixeira

 

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