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Criação e Evolução não Criação ou Evolução

Criação e Evolução não Criação ou Evolução

R.J.Berry

Resumo

Este artigo argumenta que é um equívoco contrapor os conceitos de criação e evolução. ‘Criação’ é um termo teológico que reconhece a dependência de tudo que existe sobre a autoria do Criador. ‘Evolução’ refere-se a nossa compreensão atual de como Deus trouxe a diversidade biológica a existência. Ambos conceitos são obrigados a fazer jus ao que nós, como cientistas observamos.

 

A Bíblia começa com um relato da criação do universo: “No princípio Deus criou os céus e a terra.” Diante disto, esta parece ser uma declaração simples e inequívoca, mas ela provocou debates intermináveis durante os últimos séculos. Quando isto aconteceu? Como Deus fez isso? Que materiais Deus usou? Será que Deus foi realmente o criador e designer de tudo? Estas questões se tornaram mais claras no final do século XVIII, quando ficou claro que a Terra era consideravelmente mais velha do que a suposição geral de 6000 anos, um período de tempo com base contagem de trás para frente das genealogias na Bíblia (por exemplo, Gênesis 4, Mateus 1: 1-16; Lucas 3: 23-38).

A razão para se aprofundar na história da criação não tinha nada a ver com crença ou descrença religiosa, mas foi baseada no estudo das rochas sedimentares e a associação de fósseis particulares com estratos particulares. As suas conclusões foram confirmadas e quantificadas por calibrações rádio-isotópicas e por muitos outros métodos1. O período de tempo prolongado, inevitavelmente, levou a perguntas sobre a interpretação da Escritura, aguçadas pelos debates entre “uniformitaristas” (que acreditavam que processos semelhantes vinham acontecendo no mesmo ritmo ao longo do tempo geológico) e “catastrofistas” (algumas vezes chamados de “diluvialistas”, por causa de sua ênfase nas inundações pré-históricas; eles acreditavam que um ou mais cataclismas tiveram um grande impacto na sobrevivência de plantas e animais). Embora o debate prosseguiu por bastante tempo, em meados de 1860, era difícil encontrar qualquer clérigo argumentando que os “dias” de Gênesis 1 deveriam ser interpretados como períodos literais de vinte quatro horas2. Como Francis Schaeffer destacou, o tempo no início dos capítulos de Gênesis não é usado em ordem cronológica e as genealogias (que são a base das datas calculadas) não estão completas. E para ele, ‘No que diz respeito ao uso da palavra hebraica  dia em Gênesis 1, não é que nós temos que aceitar o conceito de longos períodos de tempo que a ciência moderna coloca, mas sim que … antes da época de Abraão não há nenhuma meio possível de datar a história do que encontramos nas Escrituras.’³

Na época em que a idade da Terra estava sendo prolongada, ideias sobre mudança biológica (ou evolução) começaram a circular. Os traços dos registros dos fósseis estavam se tornando mais nítidos, mostrando organismos cada vez mais parecidos com os seres viventes das rochas mais jovens, ao invés das rochas mais antigas. Não obstante, a visão predominante permaneceu de um mundo inalterado e imutável, criado por um artesão divino, que, em seguida, se retirou para cima do céu azul brilhante e olhou com bondade para a sua criação. O defensor chave desta interpretação era William Paley, arcediago de Carlisle. Em sua Teologia Natural de (1802) ele argumentou que Deus criou cada coisa perfeitamente e deseja o bem de todas as suas criaturas. Darwin ficou impressionado; ele escreveu em sua autobiografia,

“A lógica deste livro me deu tanto prazer como fez Euclides. O estudo cuidadoso das obras [de Paley] era a única parte do curso Acadêmico [na Universidade de Cambridge] que tinha menos utilidade para mim na educação da minha mente.’

Em 1844, Edimburgo editor Robert Chambers publicou Vestígios da história natural da criação, de fato era um tratado contra o deísmo de Paley. Chambers escreveu: “Se há uma escolha entre a criação mágica e a operação de leis gerais instituídas pelo criador, eu diria que eu prefiro muito mais esta última, uma vez que ela implica numa visão muito maior do poder divino e da dignidade do que a primeira. “Para Darwin,” a narração era perfeita, mas a geologia parecia tão ruim e sua zoologia ainda muito pior”. No entanto, este livro gerou muito debate na GrãBretanha: então Darwin o acolheu, alegando que “este livro prestou um excelente serviço ao chamar a atenção do país para este assunto e o afastamento dos preconceitos”.

A Origem das Espécies foi publicada em 1859. A percepção de Darwin se baseava na combinação de dois conceitos facilmente testáveis – a luta pela existência na natureza e a existência de variações hereditárias. Nele, Darwin apresentou um mecanismo (seleção natural) por meio do qual a adaptação ao ambiente poderia ocorrer, eliminando assim a necessidade de um designer. O relojoeiro divino de Paley (Richard Dawkins), tornou-se uma máquina impessoal, “O Relojoeiro Cego”.4 O que era mais importante na época, é que Darwin reuniu evidências para o fato de que a evolução tivesse ocorrido, fazendo sentido de uma gama de fenômenos: a possibilidade de classificar racionalmente organismos, explicando semelhanças entre supostos parentes e seus anversos (órgãos rudimentares) e interpretar anomalias biogeográficas (ou seja, a restrição dos cangurus na Austrália, pinguins para o Antártico, ursos polares ao Ártico, etc.)

Os argumentos da Origem foram rapidamente aceitos, apesar das afirmações contínuas de oposição feitas por aqueles não familiarizados com a literatura histórica relevante. Declarações sobre um grande conflito entre a ciência e a religião são muito exageradas. Por exemplo, o debate infame entre o bispo de Oxford e Thomas Huxley na Associação Britânica em1860 sobre o Avanço da Ciência não era realmente sobre a evolução versus criação ou mesmo ciência versus religião. Do lado do Bishop era sobre o perigo de legitimar essa mudança num período em que acreditava-se que isso teria efeitos deletérios tanto sociais quanto teológicos; Huxley estava destacando a secularização da sociedade e seu objetivo era estabelecer a legitimidade da ciência contra o que ele considerava ser uma influência imprópria de líderes da igreja5.  Em 1884, uma sanção episcopal havia sido dada à Origem por Frederick Temple, Bispo de Exeter e que em breve se tornaria arcebispo de Canterbury: ” Podemos dizer que [Deus] não criou as coisas, mas ele deu a elas o poder de se refazerem … isso tem ido muitas vezes contra o argumento de Paley que apresenta o Todo-Poderoso como um artífice, em vez de um criador … mas essa objeção desaparece quando colocamos o argumento nos moldes que a doutrina da evolução exige6.”

 

‘Em 1884, uma sanção episcopal havia sido dada à Origem por Frederick Temple, Bispo de Exeter e que em breve se tornaria arcebispo de Canterbury’

 

Cinco anos mais tarde, o teólogo de Oxford Aubrey Moore escreveu, “O desmembramento do sistema medieval de pensamento e de vida resultou em um atomismo que se tivesse sido mais coerente consigo mesmo, teria sido fatal tanto ao conhecimento quanto à sociedade … Deus estava “entronizado numa magnífica inatividade em um canto remoto do universo”… A ciência tinha afastado o Deus dos deístas para cada vez mais longe e no momento em que parecia que ele seria jogado completamente para fora, o Darwinismo apareceu, e sob o disfarce de um inimigo fez o trabalho de um amigo.7

A Evolução Darwiniana

Embora em meados de 1880 houve pouca discordância de que a evolução tivesse acontecido8 ou que a seleção natural darwiniana era um mecanismo plausível para ela, não havia nenhuma compreensão clara dos detalhes dos mecanismos evolutivos e, em particular, sobre suas causas e a manutenção dessa variação. Isso mudou em 1900, com o “redescobrimento” dos resultados de Mendel e a fundação da ciência da genética. Alterações (“mutações”) nos fatores hereditários (ou genes) estudados pelos primeiros mendelistas (ou geneticistas) eram a fonte óbvia de novas variações, que forneciam o material para que a seleção acontecesse. No entanto, as mutações foram, em geral:

  • efeitos deletérios (e.g. remoção de um órgão ou função);
  • importante no que diz respeito às consequências, no entanto, Darwin sugeriu que as variantes úteis para a seleção teriam efeitos pequenos; e
  • herdadas como características recessivas, enquanto traços ‘vantajosos’ na natureza foram quase todos herdados como dominantes.

Isso levou à percepção de que a evolução não foi impulsionada pela seleção natural e uma infinidade de especulações sobre possíveis mecanismos alternativos, incluindo nomogenesis, ‘idade e área geográfica’, o holismo e uma variedade de operadores internos que dependiam de um impulso interior ou élan vital.

Por sorte, três histórias convencionais de biologia (por Nordenskiöld, Radl e Singer) foram escritas na década de 1920, num período em que a seleção natural era vista como um processo totalmente negativo e irrelevante para a evolução e a descrição errônea deles sobre isso, ainda continua em circulação.

“Há certamente dados que poderiam, em princípio, minar a teoria da evolução”

A divisão entre geneticistas e evolucionistas (principalmente Paleontologistas) foi resolvida na década de 1930 pelo trabalho teórico de R.A. Fisher, J.B.S. Haldane e Sewall Wright e estudos experimentais por Theodosius Dobzhansky e E.B. Ford.9 Ele envolveu:

  1. uma melhor compreensão da herança de variação contínua (ajudada especialmente pela teoria de Fisher sobre a evolução da predominância) e a percepção de que as mutações estudadas pelos geneticistas laboratoriais foram eventos extremos;
  2. a reformulação de ideias sobre eventos na natureza em termos de populações em vez de “tipos”, levando em conta a existência das variações e o erro do conceito estático clássico das espécies, que remonta a Platão; e
  3. aceitação por especialistas de diferentes disciplinas que eles pudessem aprender e contribuir para as disciplinas vizinhas.10

A “síntese neodarwinista” resultante permanece como sendo a ortodoxia atual. Um grande desafio veio nos anos 60 e 70, quando a introdução de técnicas moleculares revelou uma grande quantidade inesperada de variações hereditárias que pareciam ser “neutras”, ou seja, não ter nenhum efeito sobre seus portadores. O problema foi resolvido por uma série de abordagens que não tem relevância direta aqui, mas que em grande parte confirmou o acerto da compreensão dos selecionistas.11 O que vale comentar é que a controvérsia mostrou a ciência em ação, testando novas ideias e modificando a doutrina existente. Não é verdade, como às vezes se afirma, que a evolução é puramente um dogma instável.

Dois outros pontos gerais sobre a evolução:

  • quando os cientistas falam da “teoria da evolução”, eles estão usando a palavra “teoria”, no sentido de um “grupo de compreensões científicas aceitas”, e não da maneira que a palavra “teoria” é usada em romances policiais; e
  • A descrição da evolução como “não sendo ciência” feita pelo filósofo Karl Popper, dizendo que ela era “infalsificável” foi retirada rapidamente por ele mesmo. Ele aceitou que as “ciências históricas” (ele incluiu a astronomia nesta categoria) eram ciências válidas, ainda que com uma metodologia diferente de ciências experimentais como física ou química.

Existem, certamente, dados que poderiam em princípio minar a teoria da evolução: por exemplo, se houvesse sido constatado que o código genético era diferente para diferentes grupos de animais, ou se tivéssemos descoberto que os humanos modernos tinham vivido no mesmo período que os dinossauros. Na realidade, todos os seres vivos estudados até agora têm essencialmente o mesmo código genético (com algumas variantes menores), e os humanos modernos definitivamente não estavam vivos na época dos dinossauros. Mas questões como “e se?” são importantes para a ciência, pois ponderam sobre o fato de que a teoria da evolução é uma teoria refutável, assim como qualquer outra teoria científica.

A Evolução e a Bíblia

Há uma grande diferença entre aceitar a Bíblia como fidedigna e acreditar que ela pode funcionar como um livro de ciência. Se ela é para ser entendida ao longo dos séculos, ela tem que ser escrita em linguagem não técnica. É comum usarmos esse tipo de linguagem, por exemplo: dizemos que ‘o sol se põe’ e não que o ‘sol se tornou invisível no meu ponto de vista, porque a Terra rodou de forma que eu não posso mais ver o sol’. Galileu escreveu sobre sua própria convicção de que a Terra se move em torno do Sol e não vice-versa, “a Bíblia nos ensina a ir para o céu e não como os céus se vão”, mas ele foi ridicularizado por seus contemporâneos porque “a terra é fixa de modo tão firme que não pode ser movida” (Sl 96:10; ver também Sl 19:5,6). Exemplos como este devem nos tornar conscientes da importância de distinguir entre o texto da Bíblia e sua interpretação. No final do século XIX, o teólogo de Princeton e defensor da infalibilidade bíblica, BB Warfield escreveu: “Eu não acho que há qualquer declaração na Bíblia ou em qualquer parte do relato da criação, seja como é descrita em Gênesis 1 e 2 ou insinuado em qualquer outra parte, que precisa ser oposta à evolução.”12

Um exemplo crucial da necessidade de cuidados é visto na interpretação do relato de Gênesis 1 da criação como tendo acontecido em seis “dias”. Como Henri Blocher13 expõe com detalhes, “dia” no contexto pode ser legitimamente interpretado como uma passagem de tempo (talvez uma era geológica), como um período de revelation14, como um tempo de reconstrução (após um período de caos), ou como um artifício literário para destacar o Shabat – “o sétimo dia”. Uma vez que aceitamos que a criação pode ter acontecido ao longo de mais do que seis vezes vinte e quatro horas, a mudança na extensão da criação pode ser considerada: do nada para alguma coisa, do inorgânico para o orgânico, de animais para humanos. Na verdade, toda a Escritura é um relato de mudanças: de jardim a cidade, de deserto a terra prometida, do pecado para a salvação, de encarnação ao apocalipse. O Deus bíblico é aquele que supervisiona a mudança e não aquele que preserva a estagnação. E mais: algo que não aparece nas traduções é que o texto original usa duas palavras diferentes para ‘criar’ ou ‘fazer’: bara que implica uma obra soberana de Deus com Deus como seu sujeito (e que é usado neste contexto só para a criação da matéria, dos grandes monstros e a humanidade), enquanto a palavra mais comum asah e é uma palavra mais geral com o sentido de dar forma (e é usado em todas as outras ocasiões no relato da criação).

Uma coisa que não é dito na Bíblia é como Deus criou. Isso não é incomum: é raro na escritura termos descrições sobre como Deus fez qualquer um de seus atos poderosos, embora a Bíblia está cheia de descrições deles. No entanto, a Bíblia é clara ao dizer que a criação é obra de Deus (Sl 24: 2, 95: 5, 148; Jo. 1:. 3; Cl 1:16; Hebreus 1:. 2; Rev. 4:11) e nós é dito explicitamente que devemos entender isso pela fé e não porque necessariamente compreendemos todos os processos envolvidos (Heb. 11: 3).

“As palavras nesta página podem ser consideradas como realidades físicas, mas elas também são símbolos que transmitem uma mensagem para quem as lê. De forma semelhante podemos tratar o mundo tanto como a criação maravilhosa de Deus como o resultado de milhões de anos de evolução”

A melhor abordagem é a de reconhecer que qualquer evento pode ser considerado como tendo mais de uma causa. Aristóteles identificou quatro: material, formal, eficiente e final. Muitas vezes distinguimos entre mecanismo (como algo acontece) e propósito (por que algo acontece). As palavras nesta página podem ser consideradas como realidades físicas, mas eles também são símbolos que transmitem uma mensagem para quem as lê.15 De forma semelhante podemos tratar o mundo tanto como a criação maravilhosa de Deus como o resultado de milhões de anos de evolução. Nós estamos falando sobre a mesma coisa, mas as duas explicações não se contradizem de forma alguma. As duas explicações podem ser descritas como “complementares’ 16; seria logicamente errado afirmar que uma explicação qualquer esgota todas as possibilidades; este é o erro de reducionistas doutrinários como Richard Dawkins. Deus é o criador. Aqueles que acreditam em Deus são livres para crer que Ele tem usado o mecanismo da evolução para realizar seu propósito.

Algumas vezes opõe-se ao fato de que a evolução por seleção natural seja um processo acaso e, portanto, não pode ser obra de Deus. Há duas respostas para isso: primeiro, que “acaso”, geralmente nada mais é do que uma confissão de ignorância. Mas o mais importante é que a evolução é impulsionada pela adaptação e não pelo acaso. Embora não sabemos todas as causas da mutação (que é o principal fundamento das variações), não devemos deixar de salientar o papel do acaso [mutação] na produção das variações: a maioria das variações observadas (que é o material para a seleção e, portanto, a adaptação) são o resultado de recombinações e não simplesmente mutações. De fato, Simon Conway Morris argumentou que as possibilidades de qualquer nova variação são tão restritas que a evolução pode quase ser considerada como conduzida.17

Outra objeção é que a evolução seja um processo dispendioso e cruel, ‘vermelho com dentes e garras’. Este era um problema que perturbou ao próprio Darwin. Ele escreveu para seu amigo e protagonista americano, Asa Gray, professor de Botânica na Universidade de Harvard, “Eu não posso me convencer de que um Deus benevolente e onipotente teria concebido o Ichneumonidae [vespas parasitas] com a intenção expressa de se alimentarem dentro do corpo de lagartas vivas”. Não obstante, temos de reconhecer que a dor é um mecanismo de proteção valioso e, também, que a Bíblia é clara que o sofrimento é o caminho para a maturidade (Pv 23:13; Romanos 5: 3; Hebreus 5: 8). A resposta final para o cristão é que Deus nos deu um caminho para sair do sofrimento através da morte de Cristo na Cruz (1 Pe 3:18.), uma expiação que afeta tanto o mundo natural como o reino humano (Col. 1:20). A Bíblia deixa claro que a criação e sua metodologia é assunto de Deus e não nosso (Jó 38, 39). Enquanto todas as grandes religiões esperam alguma forma de julgamento divino, não há nenhuma evidência para o progresso inevitável como imaginado por alguns teólogos (como Teilhard de Chardin).18

Evolução Humana?

Para as pessoas religiosas, a possibilidade de os seres humanos serem evoluções de formas “inferiores” é uma das principais razões para rejeitar toda a noção de evolução. A figura frequentemente reproduzida de uma “procissão sombria e grotesca” mostrando a silhueta evolutiva de macacos como gibão, orangotango, chimpanzé, gorila até chegar no homem19 implicitamente coloca o ser humano no cume de um continuum progressivo. Em contraste, o próprio Darwin questionava que pudéssemos evoluir os traços morais característicos da humanidade. Ele escreveu: “Aquele que estava pronto a sacrificar sua vida, por mais selvagem que ele possa ter sido, ao invés de trair seus companheiros, muitas vezes não deixava descendência para herdar sua natureza nobre… Não parece provável que o número de homens dotado de tais virtudes poderia ser aumentado através da seleção natural “.20

Meio século depois, J.B.S. Haldane qualificou isso, destacando que, se o altruísmo individual (chegando ao ponto de auto sacrifício) tinha uma base hereditária e (crucialmente) ajudava os parentes próximos, então os ‘genes altruístas’ poderiam ser selecionados e, portanto, se espalhar nas famílias. Poderiam haver situações em que a cooperação (ou generosidade) fosse uma vantagem para um grupo de indivíduos, mesmo que determinados indivíduos ficassem em desvantagem. W. D. Hamilton21 formalizou este argumento como “aptidão inclusiva” (ou ‘seleção de parentesco’); ele é hoje é descrito na biologia geral como o mecanismo que fundamenta a “sociobiologia”22, mais recentemente chamado de “psicologia evolutiva”.

Mas estas considerações não são críticas para humanidade cristã, porque a distinção entre os seres humanos e todos os outros animais é que nós (e só nós) somos a “imagem e semelhança de Deus” (Gênesis 1: 26, 27) e esta não é uma característica genética ou anatômica. A ideia da humanidade sendo feita à imagem de Deus é introduzida no âmbito das responsabilidades delegadas para cuidar da terra, envolvendo responsabilidades e confiabilidade. A maneira mais simples (embora claramente não seja a única maneira) de se considerar a espécie biológica Homo Sapiens, vindo de uma descendência de símios primitivos e relacionados com os macacos vivos (para os quais o fóssil e a evidência genética é muito forte)23, é porque fomos transformados por Deus em algum momento da história em Homo Divinus, biologicamente inalterados, mas espiritualmente distintos.24 Gênesis 1 descreve a criação de seres humanos como um evento bara, um ato específico de Deus, enquanto Gênesis 2:7 o descreve como um ato divino ao respirar vida em uma ser já existente. Não há nenhuma razão para insistir que este evento teve lugar ao mesmo tempo que o surgimento de H. Sapiens, os humanos anatomicamente modernos (de cerca de 200.000 anos atrás); Adão é retratado em Gênesis como um fazendeiro, o que o colocaria nos períodos neolíticos, ou seja, algo em torno de 10.000 anos atrás. Adão e Eva foram os progenitores espirituais de toda a humanidade e que a partir desse momento tiveram o potencial para vir a conhecer a Deus de forma pessoal pela fé.

 

Neste cenário e, seguindo o exemplo de Derek Kidner no comentário de Tyndale sobre Gênesis, após a criação do Homo Divinus, ‘… Deus pode ter agora conferido sua imagem em características secundárias de Adão, para trazê-los para a mesma esfera de Deus. A liderança de Adão sobre a humanidade se estendeu para fora, se fosse esse o caso, para seus contemporâneos, bem como para a sua descendência, e sua desobediência o fez perder ambos da mesma forma.25

Na verdade, Gênesis 3 nos diz que Adão e Eva desobedeceram a Deus e foram banidos da presença de Deus. Deus havia advertido Adão e Eva que a desobediência levaria à morte no ‘dia’ em que ela acontecesse (Gn 2:17 – o texto hebraico diz que “no dia em que dela comeres…”). Mas eles não morreram fisicamente, em vez disso, “morreram” espiritualmente por perder a comunhão íntima com Deus da qual dispunham anteriormente e foram banidos do jardim. A exclusão do jardim é um símbolo poderoso de afastamento de Deus, um afastamento que influenciou o seu trabalho e as suas relações. O Apóstolo Paulo compara o aparecimento da morte como resultado do pecado através de Adão para toda a humanidade e, em contraste, a nova vida que todos podem experimentar através de Cristo pelo caminho do arrependimento e da fé (Rm 5: 12-21; 1 Cor. 15: 20-28). Essas passagens fazem muito mais sentido se entendermos que a morte que veio sobre Adão refere-se a uma morte espiritual e não a morte física. A fé em Cristo, resulta em um renascimento espiritual, não físico, um ponto que Jesus teve que deixar claro para Nicodemos (João 3: 3-6). Portanto, se aceitarmos que a evolução física do ser humano e sua relação espiritual com o Criador não são a mesma coisa, não há conflito entre os relatos científicos e os relatos bíblicos das origens humanas.

Conflito? Que conflito?

Todos os membros de religiões monoteístas reconhecem um Criador divino. No entanto, o criacionismo no sentido usual da palavra é efetivamente antievolucionista. Praticamente todos aqueles que negam a possibilidade da evolução o fazem por motivos religiosos. Eles justificam sua crença por causa de sua interpretação das escrituras – a Bíblia, o Alcorão ou algum outro livro sagrado. Adventistas, por exemplo, estão entre os anti-evolucionistas mais fervorosos com base nos ensinamentos de George McCready Price, que pode ser considerado como o fundador do criacionismo ‘moderno’ em meados de 192026.  Essa oposição é baseada em interpretações particulares; ela não é intrínseca à crença religiosa per se27.

Anti-evolucionistas sustentam suas crenças, alegando deficiências seja nos dados científicos ou em sua análise28, muitas vezes associada com extrapolações imaginativas, como por exemplo, o dilúvio de Noé torna a estratigrafia ortodoxa geológica impossível29, ou que algumas características não possam ter evoluído porque são “irredutivelmente complexas”30 – críticas que foram respondidas a princípio, há cinquenta anos atrás por RA Fisher31.  Uma outra estratégia é tratar a metodologia científica padrão como se fosse imbuída de “naturalismo filosófico” e, portanto, exclui a possibilidade de um Criador32 (uma acusação que muitos autores têm que abordar)33.

Por sua vez, os evolucionistas desabafam seu rancor em cima de seus críticos, muitas vezes a partir de um ponto de vista dogmaticamente reducionista34. Possivelmente, os polos opostos nestes debates precisam uns dos outros para a sua própria existência. Tem sido sugerido que a tentativa de Dawkins de caracterizar a evolução com conotações ateias na verdade estimulou a popularidade do criacionismo.

É fácil se perder em argumentos negativos sobre criação e evolução35.  Há debates científicos e apropriados sobre as incertezas com relação aos mecanismos que causam a evolução, mas não existem dúvidas significativas sobre o fato de que a evolução de fato ocorreu e que ela aconteceu ao longo de muitos milhões de anos. O estudo do mundo natural deve nos encher de espanto e admiração (Sl 8.), mas ele não pode por si só nos levar a um Criador; só podemos conhecer a Deus e sua obra através da fé. Quando colocamos juntos a fé e a razão, podemos nos juntar com toda a criação em louvores ao nosso Criador e Redentor e nos regozijar na perfeição que é o verdadeiro fim da humanidade. Não temos de escolher entre evolução ou criação. A fé bíblica nos leva a aceitar ambas.

 

 

1 Lewis, C. & Knell, S.J. (eds.) The Age of the Earth: from 4004BC to AD2002, London: Geological Society of London (2000). See also White, R.S. The Age of the Earth, Faraday Paper No 8.

2 Roberts, M.B. ‘Darwin’s doubts about design’, Science & Christian Belief (1997) 9, 113-127.

3 Schaeffer, F.A. Genesis in Space and Time, London: Hodder & Stoughton (1973), p.124.

See also Lucas, E. Interpreting Genesis in the 21st Century, Faraday Paper No 11.

4 Dawkins, R. The Blind Watchmaker, London: Longman (1986).

5 Desmond, A. & Moore, J.R. Darwin, London: Michael Joseph (1991), p. 497.

6 Temple, F. The Relations Between Religion and Science, London: Macmillan (1885), pp.115-116.

7 Moore, A. ‘The Christian doctrine of God’, In Gore, C. (ed.) Lux Mundi, London: John Murray (1889), pp. 57-109 (pp. 99-100).

 

8 Moore, J.R. The Post-Darwinian Controversies, Cambridge: Cambridge University Press (1979).

 

9 Berry, R.J. Neo-Darwinism, London: Edward Arnold (1982).

 

10 Mayr, E. The Growth of Biological Thought, Cambridge, MA: Harvard University Press (1982).

 

11 Berry, R.J., Crawford, T.J. & Hewitt, G.M. (eds.) Genes in Ecology, Oxford: Blackwell Scientific (1992).

 

12 Noll, M.A. & Livingstone, D.N. (eds.) B.B. Warfield Evolution, Science and Scripture, Grand Rapids, MI: Baker (2000), p.130.

 

13 Blocher, H. In the Beginning, Leicester: IVP (1984). See also Lucas, E. Interpreting Genesis in the 21st Century, Faraday Paper No 11.

 

14 P.J. Wiseman Creation Revealed in Six Days, London: Marshall, Morgan & Scott (1948)

 

15 See also Poole, M. Reductionism: Help or Hindrance in Science and Religion?, Faraday Paper No 6.

 

16 MacKay, D.M. Behind the Eye, Oxford: Blackwell (1991).

 

17 Conway Morris, S. Life’s Solution. Inevitable Humans in a Lonely Universe, Cambridge:

Cambridge University Press (2003).

 

18 Teilhard de Chardin, P. The Phenomenon of Man, London: Collins (1959).

 

19 Originally published in Huxley, T.H. Evidence as to Man’s Place in Nature, London: Williams & Norgate (1863).

 

20 Darwin, C. The Descent of Man, London: John Murray (1871), p.200.

 

21 Hamilton, W.D. ‘The genetical evolution of social behaviour’, Journal of Theoretical Biology (1964) 7, 1-52.

 

22 Wilson, E.O. Sociobiology, Cambridge, MA: Harvard University Press (1975).

 

23 Boyd, R. & Silk, J.B. How Humans Evolved, New York: W.W.Norton (4th edn. 2006).

 

24 Berry, R.J. ‘From Eden to Eschatology’, Science and Christian Belief (2007), 19/1, In Press.

 

25 D. Kidner, Genesis – An Introduction and Commentary, London: The Tyndale Press (1967), p. 29.

 

26 Numbers, R.L. The Creationists, New York: Knopf (1992).

27 Ruse, M. Can a Darwinian Be a Christian?, Cambridge: Cambridge University Press (2001).

28 Morris, H.M. Scientific Creationism, San Diego, CA: Creation-Life (1974).

29 Whitcomb, J.C. & Morris, H.M. The Genesis Flood, Grand Rapids, MI: Baker (1961).

30 Behe, M. Darwin’s Black Box, New York: Free Press (1996).

31 Fisher, R.A. ‘Retrospect of the criticisms of the theory of natural selection’, In Huxley, J.S., Hardy, A.C. & Ford, E.B. (eds.) Evolution as a Process, London: Allen & Unwin (1954), pp. 84-98.

32 Johnson, P.E. Darwin on Trial, Downer’s Grove, IL: IVP (1991).

33 e.g. Shanks, N. God, the Devil and Darwin, New York: Oxford University Press (2004).

34 McGrath, A. Dawkins’God, Oxford: Blackwell (2005).

35 Miller, K.R. Finding Darwin’s God, New York: HarperCollins (1999).

 

 

Os Artigos Faraday

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Data de publicação: Abril de 2007. © Instituto Faraday para Ciência e Religião

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