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Como um autêntico trabalho com jovens e crianças pode evitar futuras desilusões

Ruth Jackson

À luz dos recentes anúncios de Joshua Harris e Marty Sampson, Ruth Jackson nos exorta a priorizar a criação de espaços abertos para perguntas, dúvidas e objeções.

Nas últimas semanas, vimos dois cristãos proeminentes divulgando publicamente suas dúvidas sobre a fé cristã. Joshua Harris, autor de “​I Kissed Dating Goodbye​” (publicado como “Eu disse Adeus ao Namoro” no Brasil​)​, disse recentemente em um post no Instagram: “Por todas as medidas que tenho para definir um cristão, eu não sou um cristão.” Alguns dias depois, Marty Sampson, compositor e cantor da Hillsong, cujas músicas incluem “​O Praise the Name​” e “​King of Majesty​”, também foram ao Instagram dizendo: “Hora de uma conversa de verdade … estou realmente perdendo a fé … e isso não me incomoda”.


Estou absolutamente devastada por Joshua e Marty. Não consigo imaginar a confusão e a dor pela qual estão passando e nossa resposta como cristãos deve ser compaixão e oração. Mas isso também é um lembrete da importância de discipular bem nossas crianças e jovens.


Na postagem original de Marty (que já foi removida), ele listou algumas de suas muitas perguntas sem resposta, dizendo que ninguém fala sobre elas. Esta parece ser a experiência de fé de muitas pessoas – principalmente quando crianças.


Assim como Joshua e Marty, cresci em uma família cristã. Eu tinha uma fé genuína, mas nunca questionei ​por que​ acreditava. E nunca pensei em interrogar nenhuma dessas crenças.


Depois, estudei teologia em Oxford e parecia que cada parte da minha fé não era apenas questionada, mas brutalmente destruída por meus professores ateus e colegas.


Gradualmente, com a ajuda de alguns grandes teólogos cristãos e muita leitura da Bíblia, comecei a recompor minha fé e ela realmente emergiu muito mais forte após o questionamento.


Mas, depois de alguns meses no meu segundo ano de universidade, um velho amigo de família tragicamente tirou sua própria vida. Parecia que a fé que eu apenas começara a recompor começou a desmoronar novamente. Dessa vez, minha objeção foi mais emocional do que intelectual.


E, novamente, demorou um pouco para eu voltar a um lugar onde eu pudesse acreditar em um Deus amoroso e confiar a ele minha vida.


E acho que esse é o cerne da maioria das perguntas que as pessoas têm sobre Deus, não importa como elas sejam articuladas: será que Deus é realmente amoroso e posso confiar nele?


Nossos filhos costumam ter perguntas ou dúvidas profundas que são um bloqueio à crença em Deus. Acho que nenhuma dessas perguntas é feita puramente do ponto de vista intelectual, basta observar a emoção por trás das postagens de Marty, mas precisamos trabalhar gentilmente com nossos jovens para ajudá-los a desbloquear algumas de suas barreiras mentais​ antes que possamos tocar o ​coração​ deles.


Cerca de 40 anos atrás, houve uma mudança na educação. O ensino antes do meio da década de 70 usava amplamente um “modelo didático” – era muito centrado no professor, muito aprendizado por rotina e memorização. Gradualmente, vimos o surgimento do “método crítico”, que é um aprendizado mais centrado no aluno e incentiva as crianças a aprender fazendo perguntas, explicando e formulando verdades por si mesmas.
Muitas vezes em nossas igrejas e (ouso dizer!) em nossos lares cristãos, acabamos por dizer aos jovens o que pensar e não deixamos que eles tenham suas próprias opiniões.


Mas se nossos filhos estão aprendendo com esse modelo crítico e questionador na escola, não faz sentido que eles estejam aprendendo da velha maneira baseada em “decoreba” em nossos grupos de jovens e crianças na igreja e em casa.


Eu sei que isso torna nossas vidas muito mais difíceis. Isso significa que as coisas vão ficar confusas, significa que haverá muitas perguntas que inevitavelmente não conseguiremos responder. Isso significa que teremos que deixar espaço para nossos jovens discordarem um do outro, conosco e talvez até com a liderança da igreja!


Mas acho que é realmente importante incentivarmos essa abordagem crítica da fé, porque se eles não tiverem a chance de fazer suas perguntas honestas, eles ou abandonarão sua fé – como Joshua e Marty estão a perigo de fazer – ou vão acabar com uma fé cega.


Eu também sinceramente acredito – e funcionou para mim – que incentivar as perguntas de nossos jovens fortalecerá sua fé a longo prazo e garantirá que eles não estejam apenas pegando a nossa fé emprestada.


Em seu blog sobre criação de filhos em perspectiva cristã, Natasha Crain diz: “Não se engane: sair de casa com uma fé emprestada pode ser tão perigoso quanto sair com uma fé quebrada. O resultado geralmente é o mesmo, apenas atrasado.” A autora continua dizendo: “O primeiro sinal de que seus filhos estão apenas pegando emprestado a sua fé é que eles raramente, ou nunca, fazem perguntas”.


Temos que incentivar nossos filhos e jovens a fazer perguntas, a lidar com sua fé, a pensar nas coisas difíceis que provavelmente preferimos evitar.
Eu conheci algumas pessoas que pensam que apologética não é para adolescentes e, especialmente, não para crianças mais novas. Mas nossos jovens têm ideias e argumentos lançados sobre eles o tempo todo pela indústria da beleza, indústria da moda, seus professores e amigos. Se não fizermos apologética com nossos filhos, alguém fará.


Nenhum jovem quer ser tratado como tendo a idade que realmente tem. Quando eu trabalhava em televisão, sempre nos diziam para direcionar nosso conteúdo para uma idade superior à faixa etária alvo, porque as crianças sempre querem ser mais velhas do que são. Se queremos nos envolver com nossos adolescentes, precisamos parar de ser condescendentes e arrogantes e começar a tratá-los como adultos.


Temos que confiar a eles esses assuntos e criar espaços em nossas casas e igrejas para perguntas, dúvidas e objeções.

E temos que confiar que Deus é grande o suficiente para lidar com todos os nossos questionamentos!


John Lennox, ex-professor de matemática de Oxford e um gênio em responder perguntas horríveis, fala que dizer “não sei” é uma algo extremamente poderoso, porque mostra que estamos todos no mesmo nível. Não devemos ter medo de não saber as respostas.


Talvez possamos explorar algumas das perguntas difíceis com nossos jovens e tentar encontrar respostas juntos. Mas também acho que precisamos aprender a viver com a tensão de amar a Deus, mesmo quando não sabemos as respostas. Amar a Deus mesmo no meio da dúvida.


É aquilo de que fala Lamentações 3:19-23: “Eu nunca esquecerei esse momento horrível, pois lamento minha perda. ​Ainda assim, ouso esperar quando me lembro disso: o amor fiel do Senhor nunca acaba!​ Suas misericórdias nunca cessam. Grande é a sua fidelidade.”


Vamos apontar para as nossas crianças e jovens a incrível esperança que temos. Vamos orar para que elas tenham encontros genuínos e profundos com o autor desta esperança. E vamos dar a elas um espaço seguro onde sempre possam trazer suas perguntas, dúvidas e objeções.

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Ruth Jackson é editora da Premier Youth and Children’s Work, chefe da Apologética para a Juventude na Premier e colaboradora do Hope Rising 365 (SPCK), um devocional para meninas e jovens mulheres.

Texto originalmente publicado em
https://www.youthandchildrens.work/Read/Blog/How-authentic-youth-and-children-s-work-co uld-avoid-future-heartbreak

Tradução: Tiago Garros

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