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APOLOGÉTICA CRISTÃ EM AMBIENTES VIRTUAIS

Igor Miguel

Não sou um nativo na internet, no sentido de ter nascido em um mundo imerso em tecnologias da informação e conectividade baseada em terminais computadorizados, mas praticamente vi o nascimento da internet no Brasil. Já me conectava à rede mundial de computadores por volta de 1997. Até hoje, fico nostálgico quando escuto alguma reprodução dos ruídos de conexão dial-up. Conectar era trabalhoso, lento e caro, mas era um universo que se abria.

Sempre fui fascinado com conectividade, mesmo antes da rede mundial de computadores (www), me divertia com o radioamadorismo; lá entre os quinze e dezessete anos de idade, contactava pessoas pela América Latina e Europa. Quando não, ficava pendurado nas frequências de Ondas Curtas (SW) ouvindo estações de rádio estrangeiras como a BBC de Londres ou Voz de Moscou que transmitiam em português, espanhol e inglês. Sim, minha infância foi divertida.

Não me considero um geek ou nerd, meus amigos dizem que sou, mas me considero alguém que aprecia as possibilidades que um mundo conectado pode fornecer. Conheço as riquezas e pobrezas desse universo. E, o faço, como agora ao digitar este texto nas “nuvens” usando minha distribuição Linux (sistema operacional que uso há mais de uma década), com muito orgulho. 🙂  Mas chegar aqui foi uma jornada de permanente atualização tecnológica. Sim, do Cadê, Yahoo e Altavista até o Google, foi uma longa, mas veloz caminhada.

Lembro-me que não tínhamos grandes plataformas de conexão social durante um bom tempo. O mais próximo disso era o IRC, ICQ, chats e fóruns. Mais tarde, li rumores sobre uma plataforma que prometia ser “a internet dentro da internet” este era o lema do Orkut. Lembra? Nela, além da possibilidade de atualizar sua timeline com o que você desejasse, e encontrar amigos da época da escola e aproximar parentes, grupos eram formados por afinidade ou assuntos de interesse.

Mais tarde, o que custou a falência do Orkut, veio a grande onda migratória para o Facebook. O movimento foi acompanhado da explosão da blogosfera e a descoberta de microblogs como o Twitter. Há aproximadamente uns 10 anos que grande parte das discussões teológicas, políticas e culturais aconteciam em comentários em blogues. Com o advento do Facebook, e sua alta capacidade de promover conectividade (ou desconectividade), as conversas se tornaram mais eficientes em postagens e comentários. Este ainda é um fenômeno forte e presente, ao menos, enquanto escrevo este texto.

Concomitante à explosão de redes sociais e do WhatsApp, percebeu-se também o advento do YouTube. Conteúdos em vídeo de alta qualidade e produções independentes, nos colocam diante de um cenário de consumo de mídia onde, a chamada geração millennials, praticamente não consome mais conteúdos de TV.

Uma Ágora em Bits

Entre redes sociais de texto e redes de grande volume de conteúdos em vídeo e áudio (podcasts), como já dizia meu amigo Rodolfo Amorim, estamos diante de uma grande ágora, os espaços públicos das pólis gregas, onde ocorriam os grandes debates filosóficos e onde as pessoas eram informadas do que acontecia na cidade e/ou no mundo conhecido.

Neste momento, a ágora são as redes sociais, onde conteúdos não são depositados unidirecionalmente, mas há amplo canal para livre reação ou interação com produtores e interlocutores. Uma liberdade jamais experimentada após a época em que telespectadores eram basicamente consumidores passivos.

De acordo com uma pesquisa publicada pelo IBGE em 21 de fevereiro deste ano[1], 94% dos brasileiros usam a internet, o que corresponde a 116 milhões dos usuários. Quase 70% das casas brasileiras têm acesso a uma internet que é acessada na maioria por jovens entre 18 e 24 anos de idade[2]. Dados que comprovam o amplo e quase total uso da rede pela população brasileira.

De alguma maneira, estamos conectados, não quero chegar nos méritos existenciais da qualidade dessa conectividade. Mas, é fato que pessoas diferentes, em diferentes lugares, podem se posicionar publicamente sobre seus pensamentos ou sentimentos, e receberem em troca algum tipo de interação.

Vamos ao “histórico” ver por onde “navegamos”

O povo de Deus sempre prezou pelo registro escrito de sua trajetória relacional com Deus, graças a tecnologia da escrita alfabética desenvolvida pelos fenícios. Deus mesmo entregou as tábuas da lei escritas (“download” direto da “nuvem” – brincadeira geek). Mas, de fato, tanto o judaísmo quanto o cristianismo sempre fizeram amplo uso da comunicação textual, mesmo o islã, mais tarde, herdaria tal prática religiosa. As três religiões monoteístas são religiões textuais e hermenêuticas.

O cristianismo, particularmente, se expandiu, em muito, sob orientações apostólicas e cartas (epístolas) que circulavam amplamente pelo mundo antigo. Esses textos eram escritos com a finalidade de pastorear, instruir e admoestar cristãos, mas também, defender a fé cristã de ameaças internas e externas. Na era patrística, particularmente entre os chamados pais apologistas, a defesa da fé era feita em textos, manuscritos ou cartas endereçadas à comunidades cristãs ou a autoridades políticas e intelectuais.

Na idade média, havia os grandes debates públicos em questões teológicas. O equivalente a nossas partidas de futebol, esses encontros congregavam multidões, como nos famosos debates entre rabinos judeus e teólogos cristãos-novos (judeus convertidos ao cristianismo)[3]. Mas, os debates teológicos mantinham-se, basicamente restritos aos círculos intelectuais, monastérios[4], e tal prática persistirá, até que, com a revolução da imprensa, e a revolução cultural e intelectual produzida pela reforma e o movimento renascentista, textos impressos se tornarão grandes disseminadores de ideias[5].

Os efeitos intelectuais e religiosos da reforma protestante foram disseminados por quase toda Europa graças à intensa produção textual dos reformadores e seus entusiastas. Lembrando que na medida que o papado e o catolicismo romano vão perdendo seu controle teológico e político sobre os territórios onde a reforma florescia, mais liberdade havia para que as pessoas se posicionassem livremente em questões de fé, pensamento filosófico e científico. 

A propósito, a noção de liberdade de consciência, princípio importante para o próprio Lutero[6], dissemina-se como um princípio fundamental na formação das primeiras sociedades democráticas ocidentais. A liberdade de expressão torna-se fundamental em contextos democráticos, mas esse é um princípio que, junto com a noção de laicidade estatal, se origina da reforma protestante como resistência à ingerência política em questões religiosas e intelectuais[7].

Cristãos entre Velhas e novas Mídias

Pode ser redundante, mas é importante registrar o amplo uso comunicacional do cristianismo, particularmente o evangélico, de tecnologias como a TV e o rádio, que durante muito tempo monopolizava a comunicação em massa. No caso do Brasil, alguns pastores e igrejas ainda fazem amplo uso desse meio para se comunicar.

Entretanto, a velha mídia apresenta sinais de declínio, ou pelo menos, enfraquecimento. Há um novo e crescente público que prefere conteúdos sob demanda como os fornecidos em plataformas como Netflix e Youtube. Os jornais e revistas impressas dão lugar a grandes portais de conteúdo jornalístico, muitos, independentes. Dessa forma, o que ocorre é um ampla democratização dos meios de comunicação: indivíduos ou grupos antes privados dos canais de comunicação tradicionais, agora, podem se comunicar, atrair audiências astronômicas ou alcançar nichos de interesses.

De alguma forma, o e-mail, as redes sociais, as plataformas de compartilhamento de vídeo e áudio, criaram canais desburocratizados, dinâmicos, eficientes e baratos de comunicação. Em um ambiente dessa natureza, há também, um grande poder de agregação e desagregação simultaneamente. A maioria dessas plataformas utilizam algoritmos que controlam, em algum nível, como determinados conteúdos aparecem em uma timeline, ou quais conteúdos devem ser priorizados, ou ainda, como determinadas pessoas devem ser aproximadas de determinadas pessoas, e assim por diante.

Ainda estamos vislumbrando para onde tecnologias ou conceitos como Internet of Things (IoT), Big Data, Metadata, Cloud Computing e Artificial Intelligence (AI) podem nos levar. Há quem veja nisso uma crescente ameaça à democracia[8], e há evidências no Brasil[9] e no exterior[10] que apontam para como bots (perfis falsos e robotizados), desinformação (“fake news”) e bolhas sociais podem influenciar eleições, por exemplo. E, pior, podem ser os responsáveis pela atual polarização política[11]

Há casos graves de experimentos sociais promovidos por tais plataformas.  Em Julho de 2014, o portal de notícias The Guardian publicou[12] uma matéria escandalosa, onde denunciou um experimento psicológico[13] valendo-se de perfis de usuários do Facebook, em que se manipulava o humor de seus usuários a partir da exposição dos mesmos a postagens de amigos que possuíam conteúdos positivos e negativos. E, de fato, detectou-se efeitos emocionais nos usuários. Como se pode perceber, plataformas de amplo uso para trocas de conteúdos sociais não são lugares tão neutros.

As redes sociais são amplamente utilizadas em períodos eleitorais. A pauta política parece ser contagiante e muitos valem-se de tais contextos para se orientarem ou se posicionarem política e intelectualmente. E, obviamente, cristãos não estão isentos do potencial, dinâmica e da influência comunicacional que ocorre em tais contextos. Cristãos também atuam como consumidores ou produtores de conteúdo e, inevitavelmente, é aí também que a imagem pública do cristianismo pode ser defendida ou distorcida.

As novas mídias criaram canais comunicacionais mais livres do que os da mídia tradicional. Sem entrar no mérito dos limites desta liberdade, ainda há relativa abertura para produções de diversos conteúdos e para posicionamentos públicos sobre diversos assuntos.

Cristãos não demoraram muito a fazer amplo uso desses meios. Em geral, cristãos se utilizam amplamente das plataformas da internet para evangelismo, divulgação de produtos ou serviços educacionais cristãos, jornalismo do segmento evangélico, arte cristã, conteúdos teológicos e ou eventos. Dentro de tal universo, gostaria de destacar um uso importante das novas mídias por evangélicos, particularmente, o uso apologético.

Novos Contextos Apologéticos

Por apologética entende-se a defesa de uma determinada visão de mundo (cosmovisão) em relação a outras consideradas concorrentes ou distorcidas. Basicamente, a atividade apologética cristã envolve a defesa da ortodoxia cristã em dois níveis: interno e externo.

Internamente, distorções, erros, desvios teológicos ou heresias podem comprometer à unidade e a integridade doutrinária ou comunitária da Igreja cristã. Em vários momentos da história, teólogos e apologistas cristãos tiveram que se posicionar sobre movimentos doutrinários que conflitavam com o entendimento tradicional e bíblico sobre determinados temas.

Externamente, cristãos podem se ver obrigados a dar razão pública de sua fé ou opinar sobre a relevância e a posição cristã ante outras visões de mundo sobre assuntos de interesse público. Um exemplo recente, envolve a audiência pública realizada em agosto de 2018 pelo Supremo Tribunal Federal, quando representantes de vários espectros e posições ideológicas e teológicas foram convidados a se posicionar sobre o tema da descriminalização do aborto do feto até 12 semanas.

Atualmente, a internet tem sido um espaço amplamente utilizado para defesa pública da fé cristã. Cristãos estão, finalmente, diante de um espaço onde podem se posicionar livremente, desfrutando em grande medida de contexto democrático transnacional. Todavia, a dádiva de termos tecnologia que forneça tamanha liberdade exige sabedoria, prudência e inteligência.

A internet é um contexto intensamente multicultural e plural. Nela, experimenta-se o que é nomeado pelo filósofo da tecnologia Pierre Levy de cibercultura[14]. Um universo de trocas simbólicas e de promoção de uma “inteligência coletiva”, onde todos podem contribuir na produção,  armazenamento e validação de conhecimento. Sendo um contexto cultural com suas especificidades, a missiologia e a apologética cristãs precisam estar atentas às especificidades desse universo. Exegese cultural é fundamental, e quem sabe, conseguimos dar algum passo em tal direção se levantarmos questões fundamentais quanto à prática apologética em ambientes virtuais: Como lidar com a discordância em ambientes virtuais? Quais cuidados precisam ser tomados? Como lidar com a pluralidade de ideias e movimentos? Como apresentar uma narrativa cristã em um mundo independente?

Apologética Missional na Cibercultura

Obviamente, a cibercultura é também uma cultura em si mesma. Ambientes virtuais são contextos onde particularidades culturais se encontram, mas também onde determinados comportamentos, linguagens, códigos éticos, qualidade de interações e trocas simbólicas acontecem, e em algum nível, diferenciam-se do ambiente não-virtual. Sendo um contexto de intensa diversidade cultural, há também uma diversidade de sistemas de crenças. Mídias sociais exigem algumas habilidades comunicacionais e relacionais específicas, e muitas vezes, em intensidade diferente do exigido em contextos não-virtuais.

Pense que antes de plataformas desta natureza, a maioria das pessoas mantinham-se em ambientes culturais relativamente estáveis, ou pelo menos, conhecidos. O nível de estranhamento era baixo e a sensação de controle ou de ambientação era mais estável. Já com a internet, uma explosão de expressões e identidades culturais tornam-se incrivelmente próximas. Não há dúvida que, por razões até mesmo psicológicas, há dispositivos internos de proteção que são disparados ante tanta diferenças e estranhamento. Nesses casos, é relativamente previsível a formação de bolhas sociais ou ideológicas na grande rede, uma evidente forma de defesa.

Podemos recorrer a um exemplo bíblico de como lidar com um ambiente cultural diferente do nosso. Tomemos como exemplo a incursão missionária e filosófica do apóstolo Paulo no Areópago de Atenas no I Século como está registrado em Atos dos Apóstolos (17:18-34).

No texto é dito que Paulo discursava na ágora[15] todos os dias (v.17), e em um espaço público, era quase inevitável que ele chamasse alguma atenção. Até que, finalmente, foi abordado por filósofos de tradições diferentes (v.18) que acharam o discurso de Paulo exótico e especulavam sobre quem ele seria e sobre o conteúdo de sua fala. Até que finalmente, Paulo é levado ao areópago, um local que servia como tribunal, conselho, e até, como fórum filosófico. Em tal lugar, o apóstolo foi convidado a discursar com mais clareza sobre sua visão de mundo e sobre o que falava há pouco na ágora (v.19). Os filósofos deixam claro certo estranhamento (v.20) com o conteúdo da mensagem de Paulo, e observe que Lucas (o autor de Atos) faz uma observação interessante a respeito da população e frequentadores de Atenas: “não cuidavam senão dizer ou ouvir as últimas novidades” (v.21). Paulo, então, dá início a seu discurso que fornecem importantes impressões sobre sua teologia pública: primeiro ele respeitosamente reconhece a religiosidade de seus ouvintes (v.22); relata que observou os objetos de culto (v.23) – observe que Paulo não transparece mais o estranhamento e a revolta que sentira quando chegou em Atenas (v.16); e identifica entre as expressões religiosas do atenienses um altar dedicado a um Deus desconhecido (v.23); Paulo vale-se de uma “brecha cultural” para apresentar o Evangelho (v.23); e faz o seu discurso, adaptando ao máximo o conteúdo da mensagem que trazia para ouvidos não-judaicos (v.24); entretanto não deixou de confrontar a idolatria, não com um ataque direto às devoções do ateniense, mas apontando para o verdadeiro culto (v.28-29). Paulo ainda se vale da produção cultural pagã citando trechos das poesias de Epimênides de Creta e dos filósofos estóicos Cleantes e Arato. A mensagem de Paulo se encerrou com a maioria de seus ouvintes o ignorando ou ironizando (v.32), mas alguns foram atraídos pelo discurso de Paulo (v.34).

Baseado na abordagem missionária de Paulo em Atenas, que princípios apologéticos podemos aplicar em ambientes virtuais?

Como já mencionei neste texto, as mídias sociais funcionam relativamente como as antigas ágoras, contextos de livre expressão e diversidade. Observe que Paulo não era meramente alguém que estava naquele contexto como qualquer um. Ele era intencional em sua atividade discursiva. Em um ambiente que provavelmente havia competição retórica, Paulo era insistente, contando com a providência divina. Cristãos precisam manter sua presença nos contextos virtuais, não devem ser tímidos e passivos, ao contrário, devem ser intencionais. Cristão devem interagir de maneira missional em tais ambientes. E, missionalidade pressupõe aquilo que Keller[16] destaca como as quatro formas básicas da missionalidade:

1. Ser evangelístico

2. Ser encarnacional

3. Contextual

4. Recíproco e comunal

Valendo-se da noção de Schaeffer[17] de que a função básica da apologética é pré-evangelizadora, parece que uma postura urgente em ambientes virtuais é de uma apologética missional. Missionalidade é basicamente ser evangelístico, mas uma evangelização que exige uma aproximação orgânica e intencional dos evangelizados. Pressupõe boa penetração cultural e proximidade em um determinado contexto. E, contextualização da verdade evangélica, que longe de ser uma relativização do que é o evangelho, exige adequação da linguagem e do discurso para que a mensagem seja mais claramente compreendida. E, finalmente, precisa ser comunal, no sentido de valorizar o convívio em determinadas contextos comunitários.

Outro princípio importante é a capacidade de leitura de Paulo do entorno cultural. Observe como ele fez uma exegese cultural, da religiosidade, mesmo tendo experimentado certo choque com a idolatria reinante. Ele suspendeu sua “revolta”, e foi cuidadoso nas palavras, sem abrir mão de verdades caras, como o monoteísmo bíblico. Paulo usou de classe, mas manteve-se íntegro em seu compromisso com a verdade evangélica, e foi firme, quando precisou fazê-lo. Paulo não chegou implodindo a religiosidade dos atenienses, ele até reconhece que há entre eles, de fato, uma evidente, e até exacerbada, religiosidade. Entretanto, ele procura mostrar que a divindade que eles anseiam é ainda, para eles, um “Deus Desconhecido”. E, de fato, grande parte da tarefa apologética missional do cristão em ambientes virtuais, é fazer menção a um Deus ignorado. A habilidade de Paulo em valer-se da literatura não-cristã, e da filosofia pagã, como recursos para viabilizar (pré-evangelização) o anúncio do evangelho é extraordinária. Cristãos devem ser mais inteligentes, e perceberem que por trás das trends da internet, há angústias, anseios e ídolos culturais que precisam ser discernidos. E a partir desse conhecimento, fornecer respostas cristãs criativas, lógicas, ponderadas, mas principalmente belas.

Carl Trueman nos brindou com um excelente texto[18] onde aborda a importância do uso da linguagem estética, e nem tanto argumentativa, na mudança de opinião pública. A linguagem estética já vem sendo amplamente utilizada na internet. De fato, nosso mundo está mais em busca de beleza do que coerência proposicional ou lógica. James K.A. Smith, valendo-se dos argumentos de Charles Taylor em “Uma Era Secular”, postula que uma resposta cristã aos céticos de nossa era não é produzir argumentos baseado em “dados ou evidências”, mas “oferecer um história alternativa que forneça um entendimento mais robusto e complexo da fé cristã”[19]. Observem que se estamos diante de uma mudança de “linguagem”, e esta tem sido a sensibilidade predominante entre consumidores de conteúdos na web, talvez carecemos da capacidade observadora de Paulo. Precisamos oferecer narrativas, histórias, poesia, música, boas produções em vídeo e conteúdos que apresentam, não necessariamente uma “verdade irrefutável”, mas uma “pessoa irrefutável”[20].

Outra dimensão importante em nosso engajamento apologético, é que ambientes virtuais tendem a despersonificar ou desumanizar relações. Em tais contextos, pessoas podem se tornar personagens excessivamente virtualizados ou para usar os termos do filósofo Martin Buber, o “Tu” corre o risco de ser tratado como “Isso”[21]. A missionalidade é uma postura evangelizadora baseada em identidade cristã, presença pública, e relações orgânicas, humanas e intencionais.

A presença cristã em redes sociais deve ser orgânica, em sentido natural, o cristão deve ocupar esse espaço de maneira íntegra, sem falsear ou cair na armadilha performática de transformar e instrumentalizar relações humanas em mera “audiência”[22]. O narcisismo é um risco, então, o uso apologético missional das redes sociais exige uma consistente identidade cristã, sem secção, sem dualismos, e sem hipocrisia performática.

Virtude na Virtualidade

Virtude é fundamental em apologética missional na virtualidade. Primeiro encarando que pessoas não são pixels, e que a virtualidade é realidade com gente real, apenas usando um canal de comunicação. Cristãos resistem a objetificação e relações despersonalizadas. Trocas agressivas, linchamentos verbais, termos de baixo calão e humilhantes devem passar longe do vocabulário público de um cristão. A comunicação apologética cristã nas redes sociais deveria se orientar nos transcendentais verdade, beleza e bondade.  Deve ser lógica e teologicamente coerente, assertiva e ortodoxa; deve ser bela, elegante e polida, valendo-se de recursos poéticos, imagens e sonoridade; e finalmente, uma apologética ética, honesta, verdadeira e que respeita a integridade alheia.

Entretanto, cristãos que encararam como vocação a defesa pública do discurso e da cosmovisão cristã precisam se exercitar na graça e no cultivo de virtudes como fé, esperança e amor, as chamadas virtudes teologais. Suas postagens estão permeadas de conteúdos que convidam os céticos a crer? Sua confiança em Cristo é consistente o suficiente para que você não se venda por causa de falsa reputação ou aprovação alheia? A esperança cristã é parte do conteúdo de suas opiniões sobre redes sedentas por projetos políticos utópicos de libertação coletivista ou individualista? Sua apologética está cativa de visões socioeconômicas de salvação imanentista ou estão carregadas de horizonte escatológico, e por isso, de um “ativismo prudente”[23]? E, finalmente, há autêntico amor pelas pessoas, mesmo aquelas que te repelem por posições políticas ou teológicas que não são necessariamente alinhadas com suas sensibilidades? Claro, que não me refiro a uma noção de amor pós-moderno e sentimentalista, mas a noção de amor como um Deus que se deu graciosamente, e que por isso, convoca cristãos a olharem para fora de si.

Considerações Finais

Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só.” (Gn 2:18). O anseio humano por relacionamentos significativos é o que está por trás da cultura da conectividade. Pessoas estão perto, mas também estão longe. Trocas virtuais são inevitáveis, mas encontros intencionais, como os promovidos pelo Movimento Mosaico[24], por exemplo, podem ajudar a desfazer determinados estereótipos ou rótulos.

Me considero uma pessoa ativa em redes sociais, e encaro isso, em grande medida como parte de minha vocação. Entretanto, inúmeras vezes me vi cercado das tentações e dos demônios que atuam na realidade virtual. Fruto de embates virtuais, já me vi intoxicado por tensões internas. Familiar? Tenho feito um procedimento diferente em tais casos. Tendo evitar certas respostas de maneira pública, procuro enviar mensagens privadas. Há um jogo que é explorado pelos algoritmos das redes que é alimentado pela audiência de terceiros e o narcisismo tão presente na lógica das mídias sociais. Essa lógica pode ser quebrada em mensagens diretas e em contatos pessoais. Já fiz isso algumas vezes pessoas com quem tinha sérios conflitos discursivos. E, acabamos nos enriquecendo  mutuamente, mesmo em nossas óbvias diferenças[25].

O encontro face-a-face devolve dignidade a nossos interlocutores. Aprendemos a ser mais cuidadosos no discurso, mais ponderados e menos impulsivos. No encontro face-a-face há mais tolerância ao erro retórico. Por isso, se pudermos levar um pouco dessa “realidade” para a “virtualidade”, ou ainda mais, fazer da virtualidade realidade em encontros encarnacionais, caminhamos para uma resistência cristã a uma lógica que despersonaliza e reduz seres humanos a meros pixels.

Penso que, finalmente, como comunidade trinitária, a igreja pode fazer um uso mais intencional e missional de sua tarefa apologética nas redes sociais. Investindo energia em romper bolhas de afinidade, e se engajando em encontros intencionais, e ambientes onde céticos e não-cristãos clamam pelo sentido que está entesourado na verdade evangélica.


[1] http://idgnow.com.br/internet/2018/02/21/brasil-tem-116-milhoes-de-usuarios-internet-e-comunicacao-e-o-principal-uso/

[2] https://www.techtudo.com.br/noticias/2018/02/10-fatos-importantes-sobre-o-uso-de-internet-no-brasil.ghtml 

[3] Berger, David. The Jewish-Christian Debate in the High Middle Ages: a critical edition of the Nizzahon Vetus. Philadelphia: 1979.

[4] McGrath, Alister. As Origens Intelectuais da Reforma Protestante. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.

[5] Luke, Carmen. Pedagogy, Printing and Protestantism. New York: State University of New York Press, 1989.

[6] Bainton, Roland H. Cativo à Palavra: a vida de Martinho Lutero. São Paulo: Vida Nova, 2017.

[7] Sugiro o texto de nossa autoria “Cristão na Democracia: uma abordagem evangélico-reformacional” disponível em http://tuporem.org.br/cristaos-na-democracia-uma-abordagem-evangelico-reformacional/

[8] O’Neil, Cathy. Weapons of Math Destruction: how big data increase inequality and threatens democracy. New York: Crow New York, 2016.

[9] http://dapp.fgv.br/en/robots-social-networks-politics-fgv-dapp-study-points-illegitimate-interference-public-debate-web/

[10] https://www.theguardian.com/technology/2017/may/22/social-media-election-facebook-filter-bubbles

[11] https://hewlett.org/wp-content/uploads/2018/03/Social-Media-Political-Polarization-and-Political-Disinformation-Literature-Review.pdf 

[12] https://www.theguardian.com/technology/2014/jun/29/facebook-users-emotions-news-feeds

[13] http://www.pnas.org/content/111/24/8788.full

[14] Lévy, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

[15] At 17:17, a versão Almeida Revista e Atualizada traduz αγορα por “praça”.

[16] Keller, Timothy. Igreja Centrada: desenvolvendo em sua cidade um ministério equilibrado e centrado no evangelho. São Paulo: Vida Nova, 2014. p. 304-05.

[17] Schaeffer, Francis. The God Who is There. In: Trilogy. Wheaton: Crossway Books, 1990.

[18] “Devemos Vencer a Estética e Não os Argumentos” de Carl Trueman disponível em português em  http://tuporem.org.br/precisamos-vencer-a-estetica-e-nao-os-argumentos/

[19] Smith, James K.A. How (Not) To Be Secular: reading Charles Taylor. Grand Rapids: Wm. B. Eeerdmans PublishingCo., 2014. p.77

[20] Keller, 2014.

[21] Buber, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro Editora, 2006.

[22] Rice, Jesse. The of Facebook: how the hyperconnected are redefining community. Colorado Springs: David C Cook, 2009. p.112.

[23] Smith, James K.A. Awaiting the Kingdom: reforming public theology. Grand Rapids: Baker Academic, 2017.

[24] https://www.facebook.com/MosaicoMov

[25] Sobre uma teologia da unidade cristã, recomendo o livro: Dulci, Pedro (org.). Igreja Sinfônica: um chamado radical pela unidade dos cristãos. São Paulo: Mundo Cristão. 2016.

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