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A Igreja Tecnológica

The Technological Church

Uma versão deste artigo foi publicada pelo Moody Media Lab. Gráficos de Ben Neary.

Caro líder de igreja,

Por favor, permita-me apresentar-me. Nunca estudei grego ou hebraico, nunca preguei um sermão nem ensinei um grupo de jovens e nunca liderei louvor. Nunca tive que tomar decisões difíceis, como conduzir uma congregação a participar dos sacramentos ou estruturar uma liturgia. Não sou um teólogo de renome, mas sou um artista e profissional de comunicação com formação teológica. Estudo tecnologias para compreender como elas afetam as pessoas que as usam. Estou aprendendo com estudiosos da educação, literatura, tecnologia, sociologia, história, teologia e estudos de mídia para ver quais observações e percepções eles podem oferecer ao povo de Deus. Quanto mais estudo, mais estou convencido de que eles têm coisas a dizer que são importantes demais para a igreja ignorar.

Talvez você seja o único pastor de uma pequena igreja e esteja apenas tentando manter as portas abertas. Ou talvez você esteja na equipe de uma igreja com milhares de membros e um orçamento que permita todas as possibilidades que você possa sonhar. De qualquer forma, você provavelmente não tem tempo para ler milhares de páginas de teoria das comunicações. Não há tempo na sua agenda para um projeto de pesquisa sociológica. Você provavelmente é bastante cético em relação a tudo isso e, se formos honestos, não é sua especialidade.

Mas é a nossa. Nós, comunicadores e artistas de mentalidade teológica, passamos anos estudando e criando e fazendo perguntas e procurando respostas. Passamos a maior parte de nossas vidas imaginando se existe um lugar na igreja para nós, e desejamos usar nossos dons e conhecimentos para o benefício do corpo de Cristo. Acreditamos que temos coisas importantes a dizer sobre a vida da igreja. Queremos conversar com você sobre como nossa tecnologia muda a maneira como percebemos nossa fé. Queremos falar sobre como os estudos de comunicação podem auxiliar nossa compreensão de teologia e liturgia. Queremos encontrar plenitude, presença e realidade em um mundo de fragmentação, isolamento e engano.

Apenas não temos certeza de que essas sejam conversas que a maioria dos líderes de igreja esteja interessada em ter. Então, eis o que estamos pedindo a você, líder de igreja: vamos conversar. Não estamos pedindo um cargo de liderança. Nem mesmo estamos pedindo que você faça várias mudanças em sua igreja. Mas estamos pedindo um lugar na sua mesa de jantar ou no seu café favorito. Então, por favor, ouça. Abra espaço para nós. Temos certeza que valerá a pena. E esperamos que este ensaio seja apenas o começo dessa conversa.

A teologia é uma das práticas mais importantes dos filhos de Deus. Através dela entendemos quem Deus é, o que significa ser sua igreja única, santa, católica e apostólica, e como viver esta realidade. Sem teologia, somos um povo de sacramentos sem verdade, de rituais sem significado, de tradições sem sentido, de fé sem entendimento. Na busca de tal entendimento, ocasionalmente ouvimos estudiosos explicarem as influências de certas filosofias ou diferenças culturais que influenciam a teologia e, é claro, a maioria das pessoas diria que a teologia não pode ocorrer no vácuo. Não é preciso muito para convencer as pessoas de que uma mulher idosa na Itália rural medieval terá uma interpretação e compreensão das escrituras diferentes das de um jovem no Japão dos anos 50. Os teólogos hoje em dia estão cada vez mais conscientes de como a história, a cultura, a política e até o gênero influenciam a percepção das pessoas sobre a teologia.


No entanto, uma das influências que manifestamente falta nessa discussão é a influência de nossos artefatos físicos, nossas tecnologias. É fácil imaginar como ideias abstratas como cultura e filosofia podem influenciar nossa teologia. Mas nossas tecnologias? Essas pertencem ao reino físico. Certamente nossa fé não pode ser tão frágil a ponto de ser influenciada por algo tão arbitrário quanto um artefato feito pelo homem. Mas os seres humanos constantemente manipulam nossos ambientes com pouca ou nenhuma compreensão de como as mudanças que fazemos na verdade nos manipulam de volta. Os artefatos físicos que nos cercam criam ambientes que mudam a maneira como percebemos coisas como fé, conhecimento, comunicação, nós mesmos, uns aos outros, e Deus. Quanto mais rápido nossas tecnologias se desenvolvem, mais claro fica que os humanos são profundamente modificados pelos ambientes criados por nossas tecnologias e, por extensão, essas tecnologias também modificam as teologias que construímos. Nossas tecnologias têm grande influência sobre como percebemos Deus.

Nas escrituras, temos grandes razões para acreditar que nossos artefatos físicos influenciam nossas crenças, e que as coisas que criamos são claramente importantes para Deus. Em Gênesis 10, vemos que um artefato feito pelo homem, a Torre de Babel, foi o produto da cidade, que é o pináculo de uma sociedade tecnológica. Em Êxodo 20, Deus proíbe a criação de imagens esculpidas e, mais tarde, ele dá mandamentos extremamente específicos sobre a mídia – sons, cenários, cheiros, gostos e texturas – envolvidos na adoração no tabernáculo e no templo. Nos evangelhos, vemos Deus encarnado profundamente afetado por seu ambiente físico e totalmente imerso na cultura em que nasceu.

Esse é o nosso verdadeiro ponto de partida para entender a tecnologia: Jesus. A parte importante não está em como ele usou a tecnologia ou foi afetado por ela, mas na realidade da encarnação. Jesus é o mediador – aquele que fica no meio – e ainda assim ele é inteiro, presente e real. Contudo, a maior parte do que criamos serviu não para nos trazer à plenitude, mas para fragmentar nossa vida espiritual e relacional . Nossa tecnologia encoraja o isolamento e a distância ao invés da presença, e cria mundos de irrealidade, em vez de nos aprofundar em nossa verdadeira realidade em Jesus. Mediamos a nós mesmos para refletir não a encarnação de Cristo, mas o oposto. Grande parte de nossa tecnologia está em funcionamento criando um mundo desencarnado.

“Desencarnado” refere-se a interações que são definidas por um estilhaçamento da totalidade, uma falta de presença física e um afastamento da verdadeira realidade. Isso parece abstrato, mas ocorre em todas as áreas da vida. Jesus é o Bom Pastor porque ele está presente com suas ovelhas, mas nossos pastores nos aparecem através de telas e pixels, sem presença necessária. As pessoas dizem que se sentem “nuas” sem o telefone, como se não pudessem estar inteiras sem a tecnologia da qual dependem. Nossas mídias sociais nos incentivam a viver indiretamente a vida de outras pessoas quando consideramos nossa própria vida muito banal ou estressante para garantir nossa plena consciência. Nossas tecnologias dividem nossa atenção e carinho, não valorizamos mais a presença física na comunicação e geralmente escolhemos a fantasia de um ambiente digital em vez da realidade do ambiente físico.

O perigo da tecnologia desencarnada não está em quão “outra” e estranha é a tecnologia, mas em quão próxima ela é da realidade. Por meio da mídia, sentimos que fazemos parte da vida de pessoas das quais estamos fisicamente distantes, mas, na realidade, não fazemos. Por exemplo, sinto que faço mais parte da vida de meus sobrinhos quando vejo fotos e vídeos deles enviados para mim nas redes sociais ou através de mensagens ou e-mail. Mas a verdade é que eles não experimentam minha presença durante esses momentos, porque não estou fisicamente presente. Eu permiti que a mídia social me levasse a pensar que estava participando da vida de outras pessoas quando, na verdade, eu apenas as observava. Minha experiência nas mídias sociais parecia tão real que era facilmente confundida com a realidade.

A tecnologia desencarnada não se refere apenas aos nossos telefones, telas e perfis online. Em última análise, diz respeito às nossas mentes, nossos corações e nossa fé. Marshall McLuhan, um dos estudiosos com quem aprenderemos, disse:

…um mundo desencarnado, como o que vivemos agora, é uma tremenda ameaça para uma Igreja encarnada, e seus teólogos nem sequer consideraram que vale a pena examinar o fato. [1]

Em um mundo desencarnado, o que pode ser uma ameaça à igreja encarnada? Tudo, uma vez que adoramos Emanuel, “Deus conosco”, um Deus que é tanto trinitário quanto encarnado. Quando o entendimento da igreja sobre a encarnação está correto, mas a igreja está imersa em uma mídia desencarnada, podemos realmente dizer que nossa teologia fundamenta plenamente nossas vidas? A teologia da igreja pode estar correta enquanto sua adaptação da tecnologia é de fato herética? Se nossos artefatos físicos dizem algo sobre nós, certamente dizem algo sobre quem adoramos. Se nossas tecnologias são inerentemente desencarnadas, elas devem estar comunicando heresia sobre Deus.

Por que os teólogos não abordaram essa ameaça? Porque a maioria dos cristãos ainda tem a impressão de que estamos acima da influência de nossos artefatos físicos. Estamos convencidos de que a tecnologia é neutra e o que importa é como a usamos. McLuhan comenta sobre essa tendência afirmando: “Estou na posição de Louis Pasteur dizendo aos médicos que seu maior inimigo é bastante invisível e não é reconhecido por eles. Nossa resposta convencional a todos os meios de comunicação, a saber, que é a maneira como são usados que importa, é a postura entorpecida do imbecil tecnológico”. [2] Essas palavras são ousadas, incisivas, e exatamente o que a igreja precisa ouvir para entender a tecnologia que ela usa em nome de Jesus.

Posso sugerir que é nossa própria teologia que leva a essa “estupidez tecnológica”? Vejamos Gênesis 1:26 (NVI): “Então disse Deus: ‘Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão”. [3] Aqui está a base da teologia cristã dos seres humanos governando sobre a criação. Com base nesta e em muitas outras passagens das escrituras, desenvolvemos a ideia de que os humanos receberam domínio sobre todo o reino físico. Essa ideia é enfatizada ainda mais usando versículos como o Salmo 8: 5-6 (NVI): “Tu o fizeste um pouco menor que os seres celestiais e o coroaste de glória e de honra. Tu o fizeste dominar sobre as obras das tuas mãos; sob os seus pés tudo puseste”. [3]

Talvez nossa teologia da autoridade sobre a Terra tenha sido interpretada como humanidade se elevando acima da influência do reino físico. Muitas vezes pensamos que nossas tecnologias são simplesmente maneiras pelas quais expressamos nosso domínio dado por Deus sobre nossos ambientes. E essa é a suposição oculta em grande parte de nossa reflexão teológica: que nossa busca pelo sagrado é de alguma forma imune ao mundo físico em que ela acontece. Isto simplesmente não é verdade.

Jacques Ellul, outro estudioso com quem aprenderemos, abordou essa ideia errônea:

Alguns tentarão dissociar a situação espiritual da situação material, desprezando a situação material, negando que ela tenha algum sentido, declarando que é neutra e que não diz respeito à vida eterna, e que podemos voltar nossa atenção apenas para os ‘problemas espirituais’. Essas pessoas argumentam que nada importa senão “a vida interior”: isto é, que ser o “sal” ou a “luz” seja uma afirmação puramente espiritual, que não tem consequências práticas. Isto é exatamente o que Jesus Cristo chama de hipocrisia. Isso significa desistir de qualquer tentativa de viver sua religião no mundo. Transforma a pessoa viva de Jesus Cristo em uma abstração. Deus se encarnou – não cabe a nós desfazer sua obra. Essa dissociação de nossa vida em duas esferas – a “espiritual”, onde podemos ser “perfeitos”, e a outra material e sem importância, onde nos comportamos como as outras pessoas – é uma das razões pelas quais as igrejas têm tão pouca influência sobre o mundo. Evitar a responsabilidade por nossa fé é evidentemente uma solução conveniente para o dilema intolerável em que somos colocados pela sociedade de nossos dias. Tudo o que podemos dizer é: isto é exatamente o oposto do que Jesus Cristo deseja de nós e daquilo que Ele veio fazer. [4]

Admitir que os artefatos físicos ao nosso redor nos influenciam não é negar a transcendência de Deus sobre a natureza ou nossos papéis dados por Deus como zeladores da criação sobre a qual nos foi dado domínio. Em vez disso, é confessar a unidade dos mundos material e espiritual e confessar que os objetos que criamos têm significado, influência e poder, não apenas na maneira como são usados, mas, em última instância, no que são.

A dissociação do mundo espiritual do mundo físico, como alertou Ellul, nos levaria a acreditar que nossas tecnologias são neutras e que é a maneira como as usamos que é boa ou má. E se acreditarmos que nossas tecnologias são neutras, não procuraremos evidências que apontem o contrário. À medida que adotamos novas tecnologias, sem realmente entender suas influências sobre nós, nos tornamos imbecis tecnológicos. E, como disse um estudioso da mídia, essa “adaptação sem consciência é suicídio”. [5]

A maior parte da tecnologia adaptada pela igreja nos últimos cem anos foi adaptada de forma inconsciente. (??) McLuhan disse: “A atitude evolutiva e de desenvolvimento comum em relação à inovação pressupõe que haja um imperativo tecnológico: ‘Se pode ser feito, deve ser feito’; para que seja necessário o surgimento de novos meios, para a criação de quaisquer novos fins, independentemente das consequências”. [1] E continuou: “Apenas sugiro que esses resultados venham de uma mentalidade tipicamente Ocidental e visual quando se aborda a inovação tecnológica. Assim que surge um novo meio de comunicação, nos sentimos motivados a adotá-lo sem considerar o objetivo ou as consequências”. [1]

Ellul e McLuhan descobriram o que está oculto para o imbecil tecnológico: as tecnologias não são neutras. Toda tecnologia tem um objetivo que ela cumpre independentemente das intenções humanas. Toda tecnologia cria vencedores e perdedores, e toda tecnologia cria consequências acidentais maiores do que o bem original que se destinava a fazer. Sempre há um preço. [5]

Em vez da pergunta: “Estou usando esta tecnologia para o bem ou para o mal?” A igreja deve começar a fazer perguntas como: o que esta tecnologia é além do que diz ser? Quais são as tecnologias sem as quais não vivemos, e o que isto diz sobre nós? Qual tecnologia reorganiza nossos relacionamentos? [5] Qual tecnologia ressignifica nossa compreensão do culto coletivo e individual? Ao fazer essas perguntas e procurar respostas, não podemos chegar a outra conclusão senão que nossas tecnologias determinam drasticamente como percebemos a nós e a Deus.

O campo de estudo que lida com essas questões é chamado ecologia da mídia. Lance Strate, cofundador da Media Ecology Association, descreve a ecologia da mídia como “o estudo dos ambientes de mídia, a ideia de que a tecnologia e as técnicas, os modos de informação e os códigos de comunicação desempenham um papel de liderança nas relações humanas”. [6] Os principais estudiosos e colaboradores da ecologia da mídia têm muito a oferecer aos cristãos no entendimento da tecnologia e da teologia. Este campo de estudo não deve ser equiparado a teologia ou ser entendido como parte da teologia. A ecologia da mídia e a teologia são campos distintos de estudo, mas a ecologia da mídia nos ajuda a perceber as tecnologias e os ambientes que moldam nossa teologia e nossas práticas. Sendo assim, é crucial ter um sólido entendimento da ecologia da mídia para realmente entender o que influencia nossas crenças.

Você pode estar pensando: “Já ouvi termos como crítica literária e estudos da comunicação e antropologia cultural, mas por que não ouvi o termo ecologia da mídia?” Uma razão é que é uma frase relativamente nova e a maioria dos estudos feitos na ecologia da mídia são frequentemente feitos sob a competência dos estudos de comunicação. Uma razão pela qual esse termo foi usado apenas no último meio século é que apenas recentemente a taxa de mudança tecnológica aumentou com rapidez suficiente para nos permitir perceber padrões sociológicos que antes eram sutis demais para serem notados.

Muitos dos estudiosos importantes da ecologia da mídia tinham um profundo interesse pela religião. Alguns eram seguidores devotos de Jesus em diversas tradições teológicas. Ainda assim, em sua maioria, não se consideravam teólogos. De fato, Marshall McLuhan, um estudioso da mídia e católico devoto, foi questionado sobre os efeitos da tecnologia no cristianismo, ao que ele respondeu: “Eu preferiria que a maioria desse tipo de questão fosse tratada por teólogos, mas eles não parecem estar interessados”. [1] por isso nos voltamos para estudiosos no campo da ecologia da mídia, não porque eles ofereçam uma compreensão melhor da tecnologia e da igreja do que os teólogos, mas porque eles oferecem a única.

A maioria dos ecologistas da mídia faria uma distinção entre seu campo de estudo e a sociologia; no entanto, Daniel B. Clendenin escreve sobre o trabalho de Ellul como uma forma de sociologia na introdução de seu livro, “A Presença do Reino”. Clendenin explicou três maneiras pelas quais a sociologia ajuda a igreja:

1. “Ela força a teologia a ser relevante, identificando as questões pertinentes e os fatores estratégicos que moldam a vida humana em qualquer ponto”.

2. “Também força a teologia a permanecer concreta (tangível) …”

3. “A sociologia ajuda a comunidade da igreja a se examinar, a fim de determinar em que grau ela funciona puramente de uma maneira determinada sociologicamente, sem nenhum distintivo cristão. Em outras palavras, ajuda a igreja a evitar evidente conformidade com o mundo”. [7]

A sociologia não pretende ser um substituto secular para a igreja; como veremos, a sociologia pode ser uma tremenda ajuda para nossa teologia e práticas. Esses mesmos princípios se aplicam à ecologia da mídia, considerando-a ou não parte da sociologia.

As palavras “ecologia” e “meio ambiente” são usadas com bastante frequência em estudos de mídia, e isso ocorre porque grande parte do nosso entendimento da tecnologia vem da ecologia. Uma maneira simples de entender a ecologia da mídia é imaginar uma ilha remota com um ecossistema estável. Imagine então uma nova espécie invasora ser introduzida na ilha.

O ecossistema não adiciona outro animal à cadeia alimentar e continua sua atividade normalmente; todo o ecossistema muda drasticamente. Outras espécies podem responder com um “boom” populacional ou com extinção total. Toda espécie é afetada e todo relacionamento muda. Agora imagine uma sociedade humana específica em um determinado tempo e lugar como um ecossistema em equilíbrio. Toda nova tecnologia introduzida é uma espécie invasora que muda radicalmente todas as relações entre os seres humanos, tecnologia e sociedade. A introdução de uma nova tecnologia muda tudo, todos são afetados. [5]

A ecologia da mídia é o estudo dessas mudanças, suas causas e significados. A ecologia da mídia não é uma ciência e os ecologistas da mídia não têm um método, eles têm uma história para contar. Segundo o estudioso Neil Postman:

… o objetivo da ecologia da mídia é contar histórias sobre as consequências da tecnologia; contar como os ambientes de mídia criam contextos que podem mudar a maneira como pensamos ou organizamos nossa vida social. Como esta nos torna melhores ou piores, ou mais espertos ou mais burros, ou mais livres ou mais escravizados … então somos obrigados, pelo interesse de uma sobrevivência humana, a contar histórias sobre que tipo de paraíso pode ser ganho e que tipo pode ser perdido. Não teremos sido os primeiros a contar essas histórias. Mas, a menos que nossas histórias pareçam verdadeiras, podemos ser os últimos. [8]

A ecologia da mídia é inestimável em sua capacidade de nos ajudar a contar histórias sobre as consequências da tecnologia dentro da igreja. Nesta perspectiva, podemos aprender não apenas que tipo de “paraíso” podemos ganhar ou perder, mas que realidade afirmamos ou negamos. O objetivo deste ensaio é ajudar os líderes da igreja se despertarem para a realidade da estupidez tecnológica, entender os perigos da tecnologia desencarnada para a teologia e começar a criar um ambiente de igreja que afirme a realidade da encarnação. À medida que avançamos em direção a esse objetivo, obteremos uma visão mais clara de como nossa percepção de Deus é formada e moldada pelas obras de nossas próprias mãos.

Para entender como a tecnologia muda nossa teologia e os ambientes da igreja, precisamos construir um conhecimento básico sobre o que exatamente é a mídia e como ela funciona. Primeiro, precisamos definir alguns termos-chave. [5]

Tecnologia: uma invenção, parte do ambiente natural, manipulada para alcançar um resultado específico.

Meio de comunicação: o que ocorre “entre”, um meio, uma coleção de tecnologia aplicada para um determinado uso.

Mídia: forma plural de “meio”.

Em seguida, gostaria de apresentá-lo Marshall McLuhan, de quem você já ouviu falar na seção anterior. McLuhan (1911–1980) foi um professor e estudioso canadense cuja vida foi dedicada a ensinar as pessoas sobre os efeitos da tecnologia. [9] Ele também era um católico romano devoto que fez importantes conexões entre sua fé e os estudos da mídia.

Em “Understanding Media”, McLuhan expõe o básico de suas teorias sobre mídia e as aplica a uma infinidade de tecnologias diversas, desde estradas e roupas a relógios e armas. McLuhan via toda a tecnologia mecânica como extensões do corpo humano e todas as mídias eletrônicas como extensões do sistema nervoso humano. Por exemplo, roupas são uma extensão da pele, uma roda é uma extensão dos pés e uma câmera é uma extensão dos olhos. [10] Todas as mídias eletrônicas e digitais, sejam elas de rádio ou da Internet, são uma extensão do sistema nervoso central. [2] Tudo o que os humanos criam é apenas uma extensão de uma parte pré-existente de nós, e toda tecnologia pode ser rastreada até sua contrapartida biológica. [11]

Segundo McLuhan, “o meio fornece energia através da extensão, mas imobiliza e paralisa o que estende. Nesse sentido, as tecnologias tanto estendem quanto amputam. A amplificação se transforma em amputação. O sistema nervoso central reage à pressão e desorientação da amputação com o bloqueio da percepção”. [11] A parte do corpo humano que é estendida por uma tecnologia está entorpecida; não funciona como normalmente faria antes de ser estendido. Quanto mais extensões são aplicadas a uma pessoa, mais fragmentada ela se torna.

No centro da igreja, encontramos a mídia, não como uma extensão do homem, mas como uma extensão de Deus. Embora alguns teólogos ou ecologistas da mídia possam se opor à ideia de dizer que algo poderia ser uma extensão de Deus, sinto-me à vontade em dizer isso por causa da divindade e humanidade, a encarnação de Jesus Cristo. As extensões de Deus são os sacramentos do batismo e da comunhão. A ceia é uma extensão de Deus no sentido de que nela participamos de seu corpo e sangue. O batismo é uma extensão de Deus, pois somos batizados em Cristo. Na ceia, recebemos Jesus em pão e vinho; no batismo, estamos submersos nele.

Isso pode parecer uma forma de transubstanciação, mas não é. O teólogo evangélico protestante Dr. Marcus Johnson escreve:

“Assim como Cristo é a substância do evangelho, ele também é a substância dos sacramentos… o que a igreja recebe na Palavra e no sacramento nunca é mais, menos ou diferente de Cristo. Negar a verdadeira presença sacramental de Cristo na Palavra e no sacramento é negar implicitamente que Cristo se entregue continuamente à igreja, o corpo de Cristo. [12]

Sem a presença de Cristo nos sacramentos, eles perdem seu significado.

Vamos considerar isso no contexto de um culto evangélico protestante. Existem os sacramentos, as extensões de Deus, que devem ser o foco da liturgia. Mas, então, incorporados à liturgia, também existem extensões do homem na forma de arquitetura, linguagem falada e escrita, música, projetores, microfones e muito mais. De que maneira essas extensões de Deus e do homem se unem ou entram em conflito? Como isso afeta nossa percepção de Deus e nossa percepção de nós mesmos como adoradores? A liturgia deve ser entendida como as extensões de Deus que encontram as extensões do homem? Como nossas extensões mudam como participamos nas extensões de Deus ou as representamos?

Não podemos dizer que todas as extensões do homem se chocam com as extensões de Deus, porque, nas escrituras, Deus claramente exige que a tecnologia feita pelo homem faça parte da adoração. No nível mais básico, não podemos adorar coletivamente sem tecnologia, porque mesmo nossa fala, roupas e arquitetura são tecnologias. No Antigo Testamento, Deus ordena que artistas e artesãos criem um ambiente de adoração rico em belos sons, paisagens, cheiros, texturas e até gostos.

Todas essas tecnologias serviram para atrair ainda mais o adorador a experimentar a realidade física do culto, seja no templo, na sinagoga ou durante a celebração de festas e festivais. Essas tecnologias complementaram o propósito de Deus na criação de um ambiente de adoração de plenitude, presença e realidade.

Compare isso com um exemplo mais moderno de tecnologia em liturgia. Em “The Medium and the Light”, McLuhan dedica um ensaio inteiro às mudanças que o microfone trouxe à liturgia católica romana. Ele argumenta que a introdução do microfone à missa forçou a igreja a mudar do latim para o vernáculo, fez com que os padres se virassem para encararem a congregação e exigia oradores que tornassem obsoleto o planejamento da arquitetura acústica. O microfone também dificulta a meditação individual durante a missa, porque o som amplificado vem de todas as direções e não de uma só fonte. O microfone muda até o tom da mensagem: “… o microfone, que facilita que um palestrante se faça ouvido por muitos, também o proíbe de exortar ou ser enérgico”. [1] McLuhan se recusa a fazer um julgamento de valor sobre essas mudanças, mas este exemplo nos ajuda a entender como uma “pequena” mudança na tecnologia afeta tanto.

Vamos dar uma olhada em um exemplo que pode ser mais fácil para nós analisarmos. Muitas pessoas acessam a Bíblia em seus smartphones durante os cultos da igreja. Enquanto muitos pastores podem pensar: “Ótimo! Agora todo mundo pode acompanhar facilmente meu sermão!”, esse não é o efeito real dos smartphones. Obviamente, há a questão da distração, mas esse é um alvo fácil que não precisa ser abordado aqui. O objetivo de um culto semanal da igreja é que os crentes estejam presentes juntos diante de Deus para receber Cristo através dos sacramentos e da pregação do evangelho. Sem smartphones (ou mesmo Bíblias impressas, até certo ponto), a pregação do evangelho é ouvida e recebida coletivamente. Com os aplicativos da Bíblia em smartphones, o corpo unificado de Cristo age como um ajuntamento de associados desarticulados que se tornam críticos de sermões ao invés de receptores da palavra. Parece que essa extensão do homem trabalha contra as extensões de Deus, pois cria um ambiente de adoração que certamente não é caracterizado por plenitude, presença e realidade.

Um princípio importante no trabalho de McLuhan é resumido na frase bem conhecida e muitas vezes incompreendida “o meio é a mensagem”. McLuhan acreditava que todas as mídias (exceto pensamento e luz elétrica) trabalhavam em pares, com o conteúdo de um meio sendo um outro meio. Por exemplo, o conteúdo da fala é o pensamento e o conteúdo do filme é o romance. W. Terrance Gordon resume bem: “O meio contido é a mensagem do meio que o contém, mas os efeitos desse último são obscurecidos para o usuário, que se concentra no primeiro. Como esses efeitos são tão poderosos, qualquer mensagem, no sentido comum de ‘conteúdo’ ou ‘informação’, tem muito menos impacto do que o próprio meio. Assim, ‘o meio é a mensagem’”. [11]

Na prática, McLuhan descreveu a diferença entre conteúdo e meio assim: “… o ‘conteúdo’ de um meio é como o pedaço suculento de carne transportado pelo ladrão para distrair o cão de guarda da mente”. [2] Quando somos imbecis tecnológicos, o conteúdo age como um cavalo de Tróia que nos distrai enquanto o exército inimigo – o meio – passa pelos portões da cidade. Agora, isso não significa que a tecnologia tenha algum tipo de intenções malévolas contra os seres humanos. No entanto, cada tecnologia tira possibilidades de algumas coisas, pois cria possibilidades para outras coisas. O aplicativo da Bíblia é o cavalo de Tróia que nos distrai da verdadeira mensagem do smartphone na adoração, que é o individualismo. O smartphone cria as possibilidades de procurar rapidamente passagens relacionadas ou outras traduções, mas tira a possibilidade de experimentar a pregação da palavra de Deus como uma experiência coletiva, verdadeiramente unificadora.

Toda nova tecnologia muda ou recria o ambiente ao seu redor, para que “qualquer novo ambiente de serviço, como os criados pelo alfabeto, ferrovias ou automóveis, telégrafo ou rádio, modifique profundamente a própria natureza e imagem das pessoas que o utilizam. À medida que a mídia elétrica prolifera, sociedades inteiras se tornam desencarnadas de uma só vez, distanciadas da mera “realidade” física ou corpórea e aliviadas de qualquer lealdade ou senso de responsabilidade a ela ou por ela. Na era da eletricidade, a alteração da identidade humana por um novo ambiente de informações de serviços deixou populações inteiras sem valores pessoais ou comunitários em um grau que excede em muito os efeitos da escassez de alimentos, combustíveis e energia”. [10]

Os smartphones criam um ambiente caracterizado por atenção fragmentada, individualismo e falta de presença verdadeira. É mais fácil perceber isto quando pensamos em uma cena que todos já observamos: uma família comendo em um restaurante com um adolescente colado ao telefone e completamente não envolvido na conversa. Vemos essa situação e nos envergonhamos, mas é exatamente isso que acontece em nossas igrejas toda semana. A mensagem dos smartphones na igreja não é o uso de aplicativos da Bíblia, mas o próprio smartphone, o individualismo e o isolamento que o acompanham.

Existem dezenas de outros exemplos nos quais podemos nos aprofundar, como a mudança de hinários para projetores e apresentações em PowerPoint. Poderíamos falar sobre a falta de arquitetura e arte valiosas. e do incentivo que as igrejas adotam pelos mesmos princípios de design que uma sala de espera de consultório de um dentista. Quando as igrejas não são distintas, mas se parecem com qualquer outro edifício, sua mensagem pode ser vista como comum e indistinta também. Na verdade, em muitas igrejas evangélicas, o único artefato físico tratado como remotamente significativo ou sagrado é o carpete novo. No entanto, passemos a uma conversa sobre como o que discutimos até agora afeta nossa percepção de Deus.

De acordo com McLuhan,

Em Jesus Cristo, não há distância ou separação entre o meio e a mensagem: é o caso em que podemos dizer que o meio e a mensagem são totalmente um e o mesmo. [1]

Aqui McLuhan está reafirmando a encarnação em termos de mídia. Emanuel, “Deus conosco”, é o que Jesus diz, mas também quem ele é. No cristianismo, o mediador é a mensagem. Como discutimos anteriormente, a encarnação não é apenas fundamental para nossos pensamentos sobre Jesus, mas também para nossa tecnologia.

Como a encarnação informa nossos pensamentos sobre a tecnologia? Primeiro, considere a ideia de plenitude. Na encarnação, Cristo não está fragmentado em um ser meio Deus e meio homem. Ele é misteriosa e completamente Deus e homem. Nossa tecnologia incentiva nossa plenitude ou fragmentação – física, mental e espiritualmente? Segundo, pense em presença. Jesus estava verdadeiramente presente na terra; ele não era uma abstração ou uma ilusão ou um espírito. Enquanto Jesus é chamado mediador, sua presença não é mediada; nada separa a humanidade de Jesus. Nossa tecnologia nos encoraja a estar totalmente presentes ou incentiva nossa distração e isolamento? Terceiro, considere a realidade. Jesus não veio para escapar de uma vida difícil, mas para nos levar a uma realidade de união com ele. Nossa tecnologia nos alicerça ainda mais na realidade atual em que Cristo nos colocou ou nos leva a uma vida de escapismo, abstração e irrealidade? Além disso, se a encarnação realmente significa que o meio é a mensagem, então o que nossa tecnologia está dizendo sobre quem Jesus é para nós?

Lembre-se, quando dizemos “encarnado” no sentido de tecnologia, queremos dizer tecnologia que permite toda a nossa presença na verdadeira realidade. “Desencarnado” refere-se à tecnologia que nos media para criar uma experiência de “realidade” que não inclui nossa presença física. Exemplos de tecnologia desencarnada incluem coisas tão antigas quanto as letras e tão recentes quanto o Snapchat e o Periscope. Ao separar nossa verdadeira presença de nossa comunicação, a mídia desencarnada corre o risco de nos tornar fragmentados, isolados e abstraídos. Um dos perigos da mídia desencarnada é que ela estende sentidos verdadeiramente humanos. O perigo não é que a tecnologia seja tão estranha, mas o risco está no fato de ela estender nossos corpos e mentes.

Se não temos problemas com a mídia desencarnada, estamos essencialmente dizendo que nossos corpos não são partes importantes de quem somos. Isso traz um problema interessante, porque nos obriga a determinar a importância do nosso corpo. Se nossos corpos não são partes importantes de nossa identidade e personalidade, então, por todos os meios, deleite-se com tecnologias que são de natureza desencarnada. No entanto, se confessarmos ante as escrituras que nosso corpo é importante para nossa personalidade e identidade, se confessarmos que um corpo físico é parte do que significa ser criado à imagem de Deus, se a presença física de Cristo nesta terra tem algum significado, devemos confessar que o uso de mídia desencarnada é inerentemente contrário à nossa fé. Talvez essa seja outra razão pela qual os cristãos são tão propensos à estupidez tecnológica; porque não temos uma teologia forte o suficiente sobre os nossos corpos físicos para realmente perceber um problema com a mídia desencarnada.

McLuhan destacou o problema que a mídia desencarnada apresenta aos cristãos quando ele pergunta: “A verdadeira mensagem da Igreja não está nos efeitos secundários ou efeitos colaterais da Encarnação, ou seja, na penetração de Cristo em toda a existência humana?” [1] Se a verdadeira mensagem da igreja é a encarnação, mas nossos cultos e nossa vida cotidiana estão cheios de mídia desencarnada, então, que evangelho estamos pregando? Ou melhor, que evangelho estamos vivendo? McLuhan continua dizendo:

… Somente por um cristianismo vivido que o meio realmente é a mensagem. [1]

A encarnação não é apenas algo a ser apreciado através da teologia, dos sacramentos ou da liturgia; é algo a ser vivido na vida de todo seguidor de Jesus, algo a penetrar em toda a nossa existência, e expressar até em nossas escolhas sobre tecnologia.

Ellul repetiu isso quando escreveu: “Para falar francamente, sem rodeios, uma doutrina só tem poder (além do que Deus lhe concede) na medida em que é adotada, crida e aceita por homens que têm um estilo de vida que está em harmonia com ela”. [4] Ele continua dizendo que refletir a encarnação da maneira como vivemos é uma tarefa individual e coletiva. Isso deve ser feito em comunidade, com o apoio do corpo de Cristo, e pode muito bem nos tirar das nossas zonas de conforto. Ele adverte: “Confrontada com esses compromissos, a igreja não deve se justificar ou justificar a solução do mundo, mas deve encontrar seu próprio caminho, dado por Deus, que somente ele seguir deve ser seguido. É somente nessa condição que a igreja deixará de ser um movimento sociológico e estará presente no mundo com a eficácia dada pelo Espírito Santo”. [4]

A tarefa da igreja nesta questão é clara: devemos reconsiderar a aceitação da tecnologia por nossa sociedade e encontrar nosso próprio caminho. Isso exigirá que tenhamos teologias muito mais robustas de Cristo e nossa união com ele (para um estudo mais aprofundado sobre união com Cristo, veja o livro do Dr. Marcus Peter Johnson, “One With Christ: An The Evangelical of Salvation”), de nosso próprio corpo físico e adoração. Sem esse fundamento teológico para nossas escolhas sobre tecnologia, não teremos como combater a hipocrisia sutil, mas abrangente, da idiotice tecnológica. E até abordarmos o problema da ignorância tecnológica dentro da igreja, não podemos começar a criar relacionamentos e ambientes caracterizados por plenitude, presença e realidade.

Vamos voltar ao conceito de mídia de McLuhan como extensões do homem. Ele elaborou essa base dizendo que a mídia não estende simplesmente uma parte do corpo humano, ela muda aquilo que se estende. A roda é uma extensão de um pé, mas uma roda pode mover uma carga mais pesada, mais longe e mais rápido do que um pé humano. A tecnologia sempre muda a forma, escala ou velocidade daquilo que estende.

Essa mudança tem a ver com proporções sensoriais. Em qualquer ambiente de mídia, certos sentidos são dominantes sobre outros. Em uma cultura cuja linguagem não possui alfabeto escrito, o sentido da audição será dominante sobre o sentido da visão (McLuhan diz que na linguagem falada todos os sentidos estão altamente envolvidos). Quando a impressora foi inventada, provocou uma grande mudança nas proporções dos sentidos, à medida que a visão se tornou cada vez mais dominante. McLuhan diz que “os efeitos da tecnologia não ocorrem no nível de opiniões ou conceitos, mas alteram as proporções sensoriais ou os padrões de percepção de forma constante e sem resistência”. [2] Novas tecnologias reorganizam nossos sentidos para que funcionem de maneiras diferentes das anteriores. Quando sentidos diferentes são estendidos, ambientes diferentes são criados que tornam algumas coisas impossíveis e criam possibilidades anteriormente inexistentes para outras coisas novas. É assim que as novas tecnologias criam maneiras de se relacionar com o mundo e entre si.

McLuhan diz que mesmo idiomas diferentes incentivam diferentes relações sensoriais: “Nossas próprias línguas maternas são coisas das quais participamos totalmente. Elas mudam nossa percepção. Portanto, se falássemos chinês, teríamos um senso diferente de audição, olfato e tato. O mesmo acontece com a impressão, o rádio, os filmes e a TV. Na verdade, tudo isso altera nossos órgãos de percepção sem que saibamos disso”. [1] Isso tem implicações importantes para o ministério intercultural que merece ser mais explorado. Isto também enfatiza o fato de que as tecnologias que criamos não são neutras; elas agem sobre nós e nos moldam de maneiras poderosas, mas muitas vezes imperceptíveis.

Esse entendimento fundamental das relações sensoriais nos ajudará a entender a visão em larga escala da tecnologia e da igreja ao longo de toda a sua história. Para fazer isso, adicionaremos à nossa discussão um americano chamado Walter J. Ong (1912-2003), que era um padre católico jesuíta e um estudioso cujo trabalho integrou diversos campos de estudo. [13] Seu trabalho mais conhecido é “Orality and Literacy”, no qual ele se baseia no trabalho de linguistas, antropólogos e outros estudiosos para trazer à luz as maneiras pelas quais a exposição de uma cultura a diferentes formas de linguagem é definitiva. Neste livro, ele descreve as diferenças entre as culturas enraizadas na língua falada e as que são construídas na linguagem escrita ou impressa. Ele argumenta que quase todas as partes da cultura ocidental moderna, mesmo a maneira que pensemos, são inevitavelmente condicionadas e moldadas pela tecnologia da palavra escrita e impressa.

É importante observar que a linguagem é uma tecnologia que age como as outras tecnologias que discutimos. Existem algumas distinções entre as diferentes maneiras pelas quais a tecnologia da linguagem pode existir em uma cultura. Primeiro, uma cultura pode ter uma linguagem que existe apenas na forma falada. Esta é realmente a maioria de todos os idiomas que já existiram. Segundo uma cultura pode ter uma linguagem escrita na forma de hieróglifos, símbolos ou caracteres. Exemplos disso seria o mandarim. A principal distinção vem em terceiro lugar, em culturas que possuem um alfabeto fonético.

Há também distinções sobre como essas formas de linguagem são transmitidas. Há transmissão verbal, depois cultura manuscrita, na qual o idioma existe na forma escrita. Ambos ainda são geralmente considerados culturas “orais” porque, mesmo que pensem que possam conter linguagem escrita, seu efeito principal ainda é a linguagem falada. Isso é possível porque os manuscritos escritos levavam muito tempo, dinheiro e habilidade profissional para serem realizados. Eles eram poucos e distantes entre si, e poucas pessoas sabiam ler, então as culturas ainda eram baseadas na oralidade. Um exemplo disso seria os hebreus no Antigo e no Novo Testamentos, que tinham escrito a língua, mas ainda eram culturas fortemente caracterizadas pela palavra falada. Hoje, muitas culturas ainda se enquadram nessa categoria – não apenas grupos de pessoas remotas com pouco acesso à tecnologia moderna, mas em lugares como as comunidades afro-americanas modernas no sul da América.

Essas culturas orais contrastam com as culturas definidas pela influência da linguagem escrita ou impressa, que é chamada de “alfabetização”. Pode ser na forma de manuscritos manuais, mas principalmente se refere à dominação da linguagem escrita que resultou da impressora. Hoje, a maioria das culturas mundialmente poderosas seria considerada alfabetizada. Devido aos recentes desenvolvimentos nas tecnologias eletrônica e digital, o século XX viu o início do que Ong chama de oralidade secundária. A oralidade secundária acontece quando uma cultura previamente baseada na alfabetização se adapta a tecnologia eletrônica e digital que reintroduz partes da oralidade para criar algo que se assemelha a ambos, mas é por si só distinto.

As diferentes maneiras pelas quais as línguas existem e são transmitidas promovem uma proporção diferente dos sentidos. Já vimos isso na análise de McLuhan das maneiras pelas quais o microfone mudou a liturgia católica romana. Para entender melhor como essas mudanças nas relações sensoriais afetam a igreja, vejamos mais alguns retratos do cristianismo em diferentes contextos tecnológicos.

Primeiro, vejamos o alfabeto fonético, que foi um dos desenvolvimentos tecnológicos mais drásticos da humanidade. Segundo Walter Ong, “… a mudança do discurso oral para o escrito é essencialmente uma mudança do espaço sonoro para o visual”. [14]

Isso descreve a maneira pela qual o alfabeto mudou as proporções dos sentidos de dominação sonora para dominação visual. McLuhan explica a importância do alfabeto fonético dizendo: “…o alfabeto fonético, apenas com algumas letras, foi capaz de abranger todas as línguas. Tal conquista, no entanto, envolveu a separação de sinais e sons de seus significados semântico e dramático … A mesma separação de visão, som e significado que é peculiar ao alfabeto fonético também se estende a seus efeitos sociais e psicológicos”. [2] Existe um nível de abstração em todas as formas de escrita ou comunicação, mas essa abstração é bastante ampliada no alfabeto fonético. Em essência, o alfabeto fonético separava o pensamento da ação. [5] Criou-se abstração e fragmentação na humanidade de uma maneira que não existia antes. É uma separação do físico e do não físico e, como McLuhan disse, isso não mudou apenas o idioma. Também mudou os seres humanos socialmente e psicologicamente.

Uma das principais mudanças implementadas foi na maneira como as pessoas pensavam sobre as palavras. Ong escreve: “O som … existe apenas quando está deixando de existir. Não posso ter todas as palavras presentes de uma só vez: quando digo “existência”, quando chego às sílabas “ência”, a parte inicial “exist” desaparece. O alfabeto implica que as coisas são de outra maneira, que uma palavra é uma coisa, não um evento, que está presente de uma só vez e que pode ser cortada em pequenos pedaços, que podem até ser escritos para a frente e pronunciados de trás pra frente… [14] Assim, na linguagem falada, as palavras são eventos, mas na linguagem escrita, as palavras são coisas, objetos e mercadorias.

Essa abstração de palavras de eventos em coisas afeta até mesmo nossas práticas de teologia e igreja. Talvez a influência da linguagem escrita tenha nos encorajado a ver as escrituras não como um evento no qual o homem se encontra com Deus, mas como uma mercadoria a ser consumida para conhecer a Deus. Será que as escrituras escritas são mais fáceis de objetivar dessa maneira? O mesmo poderia acontecer no culto coletivo. Em vez de ver a adoração como um evento em que o homem e Deus se encontram de uma maneira especial, a adoração se torna algo a ser obtido. Em vez de os sacramentos serem um evento em que recebemos a Cristo, são coisas que consumimos para nos ajudar a lembrar de Cristo. O fio condutor dessa forma de abstração é a mudança da experiência em objeto.

O alfabeto permitiu que acontecessem coisas que não poderiam ter acontecido antes. Ong diz que os gregos, ao criar o primeiro alfabeto com vogais, encontraram a capacidade de se elevar acima de outras civilizações no que diz respeito ao trabalho intelectual. Ele credita isso como a causa de suas grandes realizações filosóficas e outras realizações. [14] Isso é importante para os cristãos entenderem por que a igreja foi, e ainda é fortemente influenciada por essa cultura e filosofia gregas que só eram possíveis através de uma tecnologia muito específica.

Conectados, mas não exclusivos aos efeitos do alfabeto fonético, estão os efeitos da escrita em geral. Segundo Walter Ong, as principais religiões monoteístas como o budismo, o cristianismo, o judaísmo e o islamismo não existiriam sem a escrita, porque todas elas têm textos sagrados antigos. [14] A escrita, em parceria com o alfabeto, permitiu a escolástica ocidental e a proliferação da filosofia e de outras disciplinas acadêmicas. Escrever permite a introspecção em um grau e especificidade que não poderiam ocorrer na oralidade. A escrita incentivou uma maneira linear de pensar que não existia antes e criou possibilidades.

Grande parte de nossa teologia ocidental é construída sobre uma base de filosofias ocidentais e maneiras de determinar o conhecimento, e quase tudo isso é resultado da escrita. Por exemplo, não haveria teologia sistemática sem a escrita, porque a teologia sistemática é baseada na lógica ocidental e no pensamento linear. A abstração que vemos no alfabeto fonético é ampliada ainda mais por essa enxurrada de linguagem impressa.

Ong descreve a tensão entre oralidade e alfabetização quando escreve:

As culturas orais produzem, de fato, performances verbais poderosas e belas, de alto valor artístico e humano, que não são mais possíveis quando a escrita toma posse da psique. No entanto, sem a escrita, a consciência humana não pode alcançar seus potenciais mais completos, não pode produzir outras criações belas e poderosas. Nesse sentido, a oralidade precisa produzir e está destinada a produzir a escrita. A alfabetização, como será visto, é absolutamente necessária para o desenvolvimento não apenas da ciência, mas também da história, da filosofia, do entendimento explicativo da literatura e de qualquer arte e, de fato, para a explicação da própria linguagem (incluindo a fala oral). [14]

Ong é cuidadoso ao explicar que a oralidade não é o ideal a que devemos procurar voltar, e a alfabetização também não é algo a que devemos aspirar.

Uma das maneiras pelas quais podemos ver a fragmentação e abstração da linguagem afetando nossa teologia está em nossa compreensão dos sacramentos, que já discutimos brevemente. Lembre-se, no alfabeto fonético, temos a separação de símbolo e significado e a separação de pensamento e ação, e na escrita e impressão essa fragmentação é amplificada. Esta é realmente apenas outra maneira de expressar uma separação do meio e da mensagem. Como nossa linguagem e tecnologias nos moldam, não devemos nos surpreender ao descobrir que isso molda nossas ideias de Deus e dos sacramentos.

A abstração na linguagem e tecnologia aparece na comunhão como a abstração da presença de Cristo no pão e no vinho. Não é possível ter uma visão memorialista da comunhão sem o alfabeto fonético e a escrita. Separar a pessoa e a obra de Jesus é separar as ações e ideias no alfabeto fonético. Somente com a separação de sinal e significado, de pensamento e ação, do meio e da mensagem, poderíamos acreditar que Cristo não está de alguma forma verdadeiramente presente na santa ceia. Quando as palavras são eventos, Jesus é alguém em quem participamos através do evento da ceia; quando as palavras são coisas, Jesus é alguém em quem pensamos durante a ceia. Essa fragmentação não é o oposto da encarnação? Aqueles que dizem que Cristo não está verdadeiramente presente na santa ceia caem no mesmo truque que os ignorantes tecnológicos – que o meio não é realmente a mensagem.

Outra maneira pela qual os estudos de oralidade e alfabetização podem informar nossa teologia é ajudando-nos a entender o significado das referências a diferentes formas de linguagem nas escrituras. Em toda a Bíblia, podemos ver Deus se identificando consistentemente com formas específicas de linguagem sobre os outros. Embora Deus dê os Dez Mandamentos esculpidos em pedra e instrua seu povo a escrever a lei, a principal maneira d’Ele se comunicar com seu povo no Antigo Testamento é através do discurso. Ele fala da existência da terra, fala em voz alta com Moisés, fala com e através dos profetas, e aparece a Elias em um sussurro. Não há muitos exemplos de “Assim escreve o SENHOR”, mas as escrituras estão cheias de “Assim diz o SENHOR”.

Deus se identifica com a linguagem falada quando chama Jesus de logos divinos, a Palavra de Deus, no livro de João. Temos relatos do que Jesus disse, mas, tanto quanto sabemos, Deus encarnado não nos deixou mensagens escritas. O Deus que servimos não é um Deus da escrita, mas um Deus que se expressa primariamente de forma audível. Os cristãos, portanto, não são verdadeiramente o “povo do livro”, mas sim o “povo da Palavra”. Isso não significa que as escrituras não sejam inspiradas ou importantes; no entanto, devemos entender que muitas escrituras realmente existiam na forma verbal antes de serem escritas.

Como essa identificação com a linguagem falada informa nossa teologia e práticas? Considere a diferença entre se comunicar com alguém através de uma carta ou discurso. Quando pensamos em Deus como um Deus da palavra escrita, ele é mediado, distante e não está realmente presente. Mas se pensarmos em Deus como um Deus da palavra escrita, sua comunicação conosco não poderá ocorrer sem a sua presença real. Quando Deus fala, ele está presente conosco. Servimos a um Deus que não nos escreve cartas, mas que fala com e através de seus filhos porque ele está presente com eles no Filho encarnado e no Espírito. Nossas tecnologias nos incentivam ou nos desencorajam a refletir essa plenitude, presença e realidade em nossa comunicação com Deus e uns com os outros.

Com o início da oralidade secundária por meio de tecnologias eletrônicas e digitais, podemos esperar que nossa teologia e práticas mudem de novas maneiras, e isso já aconteceu. Isso é evidente em nosso exemplo anterior do microfone, fazendo com que o latim fosse substituído pelo vernáculo das missas católicas romanas. [1] McLuhan parte dessa afirmação quando diz que o Vaticano II foi a resposta da Igreja Católica Romana aos efeitos da televisão. McLuhan e Ong falaram dessas mudanças antes do advento da Internet, mídia social e smartphones, que agora redefiniram nossas proporções sensoriais.

O início da oralidade secundária está mudando drasticamente a maneira pela qual a teologia formal é praticada. Os autores de “The Influence of Information Technologies on Theology” afirmam que as tecnologias digitais estão mudando a maneira como a teologia é abordada ao “afetar o conteúdo para e da teologia, os recursos com os quais os teólogos trabalham, os métodos de comunicação que ligam as pessoas e os processos cognitivos com os quais abordamos qualquer trabalho intelectual””. [15] Eles elaboram o que isso significa aqui:

De uma perspectiva sociológica, as categorias pelas quais definimos nosso pensamento e processos teológicos começarão a mudar. A prática definitivamente influenciará a função. A prática social e ritual da pesquisa e interação acadêmica passará da base sequencial probatória, orientada por texto e conceitual do ‘livro’ para as redes de informação associativas, imaginárias e não lineares da Internet. Esse novo “ritual” de estudiosos como ciber-profissionais permitirá maior fluidez de significação no pensamento e argumento teológicos. [15]

Nossa tecnologia digital cria vencedores e perdedores no sentido de excluir algumas pessoas da conversa teológica e incluir outras. Pessoas que não têm acesso à tecnologia digital ou conexões com editoras ou universidades ocidentais costumam ficar de fora da conversa teológica global. A tecnologia digital está interrompendo a dominação do pensamento linear e levando o escolasticismo a retornar a um modo de pensamento não linear e integrador. Ela traz inúmeras outras mudanças à existência também. Não importa se a igreja antecipa ansiosamente essas mudanças ou luta contra elas; eles estão aqui. Estudar estudiosos como Ong beneficiará muito a igreja, enquanto aceita ou rejeita tecnologias que determinam quem tem voz na teologia global.

Como nossas escolhas tecnológicas incluem ou excluem pessoas de conversas teológicas, nossas tecnologias são maneiras pelas quais podemos construir uma cultura global de inclusão na igreja. Embora a tecnologia digital possa parecer uma ótima solução, pois é tão acessível a qualquer pessoa com um telefone celular, devemos considerar que tipo de inclusão é permitida por essa tecnologia. A tecnologia digital permite que as pessoas sejam incluídas de maneira a valorizar sua verdadeira presença?

Entender as maneiras pelas quais a abstração na linguagem penetra em todas as áreas de nossos pensamentos, crenças e práticas, é necessário para que a igreja construa relacionamentos e ambientes caracterizados por plenitude, presença e realidade. Por meio de estudos de oralidade e alfabetização, podemos entender melhor como diferentes grupos de pessoas operam com diferentes proporções sensoriais, o que nos ajudará a alcançá-los melhor com o evangelho. Isso nos ajudará a entender como incluir todos os nossos irmãos e irmãs na vida da igreja local e global e nos ajudará a viver em uma realidade na qual todos estamos verdadeiramente presentes juntos, diante de Deus.

Para entender melhor o que significa para a igreja estar presente em um mundo dominado pela tecnologia e pela técnica, aprenderemos com Jacques Ellul. Jacques Ellul (1912-1994) foi um estudioso francês cujos trabalhos sobre tecnologia, sociedade e teologia foram influenciados por sua fé cristã protestante e pelo marxismo. Em seu trabalho mais famoso, “The Technological Society”, ele afirma que o fenômeno mais importante no mundo de hoje é o que ele chama de técnica. É importante distinguir o que Ellul se refere como ‘técnica’ e o que nos referimos quando usamos a palavra semelhante ‘tecnologia’. Ele não está se referindo aos nossos artefatos ou invenções físicas; em vez disso, “Ellul define a técnica não como maquinaria ou qualquer dispositivo ou procedimento, mas como ‘nada mais do que meios e o conjunto de meios””. [7]

Segundo Ellul, a técnica é uma força cujo fim é a eficiência e a racionalidade e não serve a nenhuma agenda além de seu próprio crescimento. A técnica promove um “caminho certo” quantificável para executar qualquer tarefa, o que significa que diminui a escolha humana, porque precisamos escolher a opção mais eficiente. Mas a técnica leva as pessoas a se concentrarem tanto na eficiência dos meios que estão usando, para que, no final, o objetivo ou objetivo real desapareça. A coisa mais importante a lembrar sobre a técnica é que ela separa os meios e os fins. Nenhuma parte da humanidade e nenhuma parte do globo é imune à técnica. [16]

A humanidade nem sempre foi dominada pela técnica. Ellul diz que, durante grande parte da história da humanidade, a técnica foi controlada por outras forças: “Entre todos esses fatores que se misturavam, a técnica era apenas um. Estava inexoravelmente ligado a eles e dependia deles, como eles dependiam dela. Era parte de um todo, parte da sociedade determinada, e se desenvolveu em função do todo e compartilhou seu destino “. [16] Esta é a “estrutura apropriada” para a técnica – que envolve freios e contrapesos.

No entanto, no século XIX, “a sociedade começou a elaborar uma técnica exclusivamente racional que reconhecia apenas considerações de eficiência”, e que se transformou em um domínio da técnica que existe hoje. Enquanto Ellul admite que existem forças restritivas que poderiam agir hipoteticamente na técnica, ele afirma firmemente que é tarde demais para sonhar em retomar as sociedades humanas do domínio da técnica. [16] Foi assim que Ellul percebeu o estado do mundo durante sua vida:

O primeiro grande fato que emerge de nossa civilização é que hoje tudo se tornou ‘meio’. Não há mais um ‘fim’; não sabemos para onde estamos indo. Esquecemos nossos fins coletivos e possuímos grandes meios: acionamos imensas máquinas para chegar a lugar nenhum. [4]

Antes, aprendemos com McLuhan sobre as tendências das pessoas em adaptar tecnologias sem entendê-las. Ellul concorda quando diz que o “princípio da nossa era” é que “tudo o que é técnica é necessariamente usado assim que disponível, sem distinção entre bem ou mal”. A própria técnica se recusa a “tolerar julgamentos morais” porque “o fenômeno tecnológico” não pode ser destruído de maneira a reter o bem e rejeitar o mal”. A técnica não pode ser julgada como boa ou má, mas “o poder e a autonomia da técnica estão tão seguros que, por sua vez, tornaram-se o juiz do que é moral, o criador de uma nova moral”. [16]

Segundo Ellul, “o homem nunca pode prever a totalidade das consequências de uma determinada ação técnica”. Ele concorda com McLuhan que a técnica produz problemas que são exponencialmente maiores do que os que se propõe a resolver, deixando a sociedade em uma posição pior do que se técnica específica nunca havia sido aplicada. Ellul insiste que o resultado da técnica não muda apenas as sociedades como um todo, mas também condiciona os indivíduos irreversivelmente, e como a técnica condiciona os humanos com conforto, as pessoas sempre escolhem o caminho de menor resistência, que é a própria técnica. [16]

É importante notar que Ellul não acreditava que a tecnologia ou a técnica são más. Ele acreditava que “o progresso técnico não é exclusivamente positivo nem totalmente negativo” [7] e “certamente nunca desejaria afirmar que a tecnologia fosse criticada”. [16] Ele acreditava que “o verdadeiro problema não é julgar, mas compreender”. [16] No entanto, ele estava claramente confortável em apontar os problemas que via na sociedade tecnológica:

O problema surge, porém, quando meios e fins são separados, de modo que os meios técnicos não têm mais fim, exceto a eficiência racional absoluta (‘a melhor maneira’) e não estão mais sujeitos a julgamentos de valor externos. A “melhor maneira” de eficiência é sempre o fim auto selecionado e auto justificado. Nesse ponto, as pessoas não têm mais escolha, porque a técnica as escolhe e todas as finalidades propostas se tornam supérfluas. Assim, os meios técnicos tornaram-se totalitários e nos levaram a uma situação apocalíptica. [7]

O verdadeiro problema da técnica é quando os meios são separados dos fins. Isso pode parecer familiar porque é realmente apenas outra faceta do “meio é a mensagem”. Ellul não nos deixa especular sobre como isso afeta nossa percepção de Deus; ele aborda de uma perspectiva diferente a afirmação de McLuhan de que em Jesus o meio e a mensagem são um:

… para o cristão, não há dissociação entre o fim e os meios. É uma ideia ética grega que causou essa divisão. O ponto a partir do qual devemos começar é que, na obra de Deus, o fim e os meios são idênticos. Assim, quando Jesus Cristo está presente, o Reino veio a nós”. Esta fórmula expressa com muita precisão a relação entre o fim e os meios. Jesus Cristo em sua encarnação aparece como o meio de Deus, para a salvação do homem e o estabelecimento do Reino de Deus, mas onde Jesus Cristo está, também há essa salvação e este Reino. [7]

Ellul diz que “para o cristão também o fim e os meios estão unidos da mesma maneira, assim ele está irrevogavelmente comprometido a lutar com toda a sua força contra a nossa escravização anterior aos meios”. [7] Ele falou dessa escravidão tão intensamente, porque ele realmente acreditava que o triunfo dos meios na vida das pessoas realmente impedia as pessoas de viver sua fé cristã. Quanto ao tipo de obstrução ele quis dizer, podemos apenas especular. Sabemos da tendência de ver os humanos como meios para nossos próprios fins, o que é antitético ao evangelho. Também sabemos que o efeito da técnica em nós é a distração. Não temos consciência não apenas do estado do mundo ao nosso redor, mas também de nós mesmos e Do nosso próximo. Vemos isso em oposição direta ao chamado das escrituras para que sejamos sóbrios e alertas em 1 Pedro 1:13, 4: 7 e 5: 8.

Talvez também vejamos uma separação de fins e meios em nossa soteriologia. Jesus é o meio e o fim da salvação humana – somos salvos por meio de Cristo e em Cristo. No entanto, muitas de nossas teorias da salvação se concentram em uma transação na qual Jesus nos dá uma coisa chamada “salvação”. Quando Jesus nos dá a salvação, ele não nos dá nada além de si mesmo. Ele é o caminho, a verdade e a vida. Vemos isso também afetando nossa visão da santificação. Pensamos em Jesus como nos dando “santidade” quando Jesus não pode nos dar santidade sem nos dar o seu próprio ser. 1 Coríntios 1:30 diz: “É, porém, por iniciativa dele que vocês estão em Cristo Jesus, o qual se tornou sabedoria de Deus para nós, isto é, justiça, santidade e redenção
” [3] Quando separamos a pessoa e a obra de Jesus, separamos os fins e meios de nossa salvação, para que Jesus não se torne nenhum.

Como devemos combater essa escravização de meios, dessa inconsciência da qual Ellul fala? Devemos buscar “a redescoberta em todas as esferas da vida da realidade que todo o mundo está buscando… alcançar essa consciência como um todo só é possível sob a iluminação do Espírito Santo”. [4] Como conseguimos isso? A resposta errada é que devemos agir e trabalhar para realizar o Reino de Deus. Ellul diz:

Nesta situação, não são nossos instrumentos e nossas instituições que contam, mas nós mesmos, pois somos nós mesmos que somos instrumentos de Deus; na medida em que a igreja e todos os seus membros são os “meios” de Deus, eles devem constituir a presença do “fim” que é característica do Reino … Eles devem representar perante o mundo essa unidade entre fim e meio, autorizada por Jesus Cristo. [4]

Levantar um grito de guerra e pegar em ação contra o domínio da técnica usando mais instrumentos e instituições só está piorando o problema. “Que os homens devam estar vivos, em vez de serem obcecados por ação – é nesse ponto que os meios podem ser colocados no lugar certo”. [4] Daniel B. Clendenin resumiu bem quando escreveu que, embora a ação não possa ser ignorada, o que primeiro é exigido do cristão não é ação, mas presença. Isso não significa que a igreja deve permanecer ociosa e estagnada até que Jesus volte. Em vez disso, Ellul diz que “devemos procurar nas escrituras a maneira pela qual devemos viver, para que o fim desejado por Deus esteja presente entre os homens”. [4] Ele elabora aqui:

Assim, é o fato de viver, com todas as suas consequências, com tudo o que envolve, que é o ato revolucionário por excelência; ao mesmo tempo, esta é a solução do problema do fim e dos meios. Em uma civilização que perdeu o sentido da vida, a coisa mais útil que um cristão pode fazer é viver – e a vida, entendida do ponto de vista da fé, possui uma força explosiva extraordinária. [4]

A coisa mais revolucionária que os cristãos podem fazer para buscar a Deus em totalidade, presença e realidade é simplesmente viver. O que Ellul quer dizer com “vida?” Ele quer dizer “a expressão do Espírito Santo, trabalhando dentro de nós, se expressando em nossa vida real, através de nossas palavras, nossos hábitos e nossas decisões. Portanto, o que precisamos é redescobrir tudo o que a plenitude da vida pessoal significa para um homem de pé no meio do mundo, que redescobre o próximo porque ele mesmo foi encontrado por Deus”. [4]

Viver uma vida caracterizada pela totalidade, presença e realidade, “… a coisa mais importante que podemos fazer socialmente é redescobrir nosso próximo”. [4] Devemos determinar se as técnicas e tecnologias que nos cercam nos fazem estar mais presentes com nossos vizinhos ou mais isoladas deles. Se o meio é verdadeiramente a mensagem, se os meios não devem ser separados dos fins, se nosso chamado é verdadeiramente descansar na presença de Cristo e estar presente no mundo, então nossas tecnologias devem fazer parte desse chamado, ou não devem ter lugar em nossas vidas e nossas igrejas.

McLuhan, Ong, Ellul e os outros estudiosos dos quais ouvimos nos mostraram o quão profundamente somos afetados pelos artefatos físicos que nos cercam. Eles nos mostraram como nossas tecnologias não são neutras, mas na verdade promovem ideias próprias pelas relações sensoriais e pelos efeitos sociais que elas promulgam. Frequentemente, essas ideias são inerentemente opostas à natureza do Deus que adoramos. Agora, se essa fosse uma premissa teológica inerentemente oposta à natureza de Deus, poderíamos chamá-la de heresia, rejeitá-la e criar algo positivo como declaração de verdade e ortodoxia contra ela. Foi assim que muitos dos nossos credos surgiram – como uma confissão da verdade diante da heresia.

Os conceitos de ortodoxia e heresia geralmente são aplicados ao domínio de nossos pensamentos, mas nunca são considerados como formas de ver o domínio físico. No entanto, os objetos físicos que criamos e nos cercamos realmente impõem suas próprias agendas às pessoas que os usam, e essas ideologias estão frequentemente em desacordo com o que consideraríamos o cristianismo ortodoxo. Se as ideias promovidas por nossas tecnologias se opõem a doutrinas como a encarnação, por que não chamamos isso de heresia? Lembre-se de que não há novas heresias, apenas as antigas com novos disfarces; portanto, será útil estudar heresias antigas com a tecnologia em mente, especialmente as heresias trinitárias e cristológicas. Ao fazer isso, podemos considerar se nossas tecnologias nos incentivam a refletir a encarnação ou não. Podemos considerar se eles incentivam a unidade que vemos refletida na trindade ou não. Por exemplo, em uma conversa sobre igrejas que usam mídia social, o ecologista de mídia Dr. Read Schuchardt disse:

Você não pode usar um meio desencarnacional para atrair as pessoas a um Deus encarnacional. [5]

Se considerarmos seriamente esse exemplo, devemos lutar com o pensamento de que a igreja não está apenas em um lugar de estupidez tecnológica, mas também em um lugar de heresia tecnológica.

Talvez seja difícil para nós trazer a heresia para o reino físico, porque isso exigiria que fizéssemos escolhas difíceis. Isso exigiria que agíssemos de maneira diferente do resto do mundo. Também é difícil porque não podemos fazer declarações gerais e proclamar toda a tecnologia como anátema. Como todos os estudiosos da mídia que acabamos de estudar concordariam, não podemos nos apressar em fazer julgamentos sobre tecnologia. Só podemos procurar entendê-la. Certamente, deve haver um momento em que tomemos decisões sobre as tecnologias que aceitaremos e não aceitaremos, mas isso não pode acontecer antes de um estudo profundo e em oração. Portanto, talvez a ideia de ortodoxia e heresia em relação aos artefatos físicos seja útil, não como uma regra pela qual tomar decisões, mas como um começo, para fazer perguntas que nos levem além do conteúdo para o meio, a verdadeira mensagem.

Mesmo se estudarmos cuidadosamente essas tecnologias, elas não nos dirão automaticamente o que fazer. Para tomar decisões sobre a tecnologia, primeiro precisamos saber o que realmente queremos. Devemos decidir que tipo de pessoas queremos ser, que tipo de vida queremos e, finalmente, o que realmente valorizamos. Lembre-se dos três princípios entrelaçados que mencionamos alguns momentos diferentes neste ensaio: totalidade, presença e realidade.

Totalidade, em oposição à fragmentação: como lemos anteriormente, McLuhan acreditava que cada meio é uma extensão do homem e que quanto mais extensões o homem tem, mais fragmentado ele é. Ellul concorda quando diz que “é impossível fragmentar a personalidade do homem sem enfraquecê-la”. [16] Como podemos definir a totalidade em termos de tecnologia? A totalidade pode ser entendida por nossos corações, mentes e corpos descansando na mesma realidade?

Presença, em oposição ao isolamento: isso não se refere apenas à nossa presença física, embora essa seja uma parte importante. Isso também se refere à nossa presença mental e emocional. Nossa tecnologia nos faz estar holisticamente presentes na vida das pessoas ao nosso redor? Isso incentiva o tempo gasto com outras pessoas? Se encoraja a solidão, é uma solidão saudável ou um isolamento perigoso? Nossa tecnologia nos impede de estar emocionalmente presentes?

Realidade, em oposição à fantasia: grande parte de nossa tecnologia facilita a criação de modos de existência que não são fundamentados na realidade. Lembre-se de que a tecnologia não é perigosa por causa de sua natureza estranha, mas porque cria experiências e até mundos inteiros que são enganosamente próximos da realidade. Será que nossa tecnologia nos embasa ainda mais na realidade de nossas vidas físicas presentes ou incentiva a criação de modos alternativos de experimentar o mundo? Nossa tecnologia incentiva relacionamentos verdadeiros e encontros pessoais com outras pessoas ou media nossas interações por meio de uma tela? Incentiva a cura ou o escapismo quando nossa realidade física é um lugar doloroso?

A menos que a igreja lide com essas questões dentro de sua própria teologia, nunca será capaz de ajudar o mundo a se curar da fragmentação, isolamento e abstração. Não podemos ser totalmente a presença de Cristo no mundo, a igreja verdadeira, se nós mesmos, coletivamente e individualmente, estivermos fragmentados, isolados e operando em um mundo que não é real. Se não procurarmos entender a tecnologia que usamos em nossas igrejas, corremos o risco de distorcer as boas novas de Jesus com a tecnologia que nega a encarnação.

Essas perguntas que precisamos fazer têm respostas complicadas, sutis e difíceis. São perguntas cujo valor está na conversa que suscitam e não necessariamente em nossa capacidade de respondê-las concretamente. Essas são as perguntas que devemos fazer sobre nossos telefones, computadores, carros, roupas, arquitetura e todas as tecnologias que usamos. Mas, antes de mais nada, são perguntas sobre a tecnologia em nossas igrejas que devem ser feitas, não para promover a instituição, mas o evangelho. Devemos buscar uma compreensão mais profunda de como nossos artefatos físicos moldam a nós e nossas crenças para que possamos amar melhor a Deus e aos nossos vizinhos, para que possamos estar totalmente presentes na realidade em que Deus nos colocou.

A ecologia da mídia também pode ser útil para a igreja de maneiras surpreendentes e oportunas. Uma dessas áreas é o ministério e as missões interculturais, pois traz à luz o fundamento das diferenças culturais na linguagem e outras tecnologias. Outra maneira pela qual a ecologia da mídia pode ajudar é na área de relacionamentos inter-raciais dentro da igreja. Um ecologista da mídia explica que as artes visuais dentro da igreja introduziram um foco racial na teologia, um foco que não existia antes. Quando as histórias eram contadas em voz alta, ninguém se importava muito com a cor da pele de Jesus, mas quando as pinturas e outras obras de arte apareciam, Jesus ficava branco e o diabo era frequentemente retratado como tendo pele escura. [19] Essa representação do racismo não é possível sem a obra de arte visual na igreja e, sem dúvida, isso afetou as visões teológicas das pessoas sobre etnia. Talvez a igreja possa recorrer à ecologia da mídia para ajudar a entender como diferentes grupos étnicos têm diferentes proporções sensoriais que podem dificultar a integração das igrejas. Se esse campo de estudo puder nos ajudar a entender a fragmentação e o isolamento em nossas teologias e práticas, talvez também possa nos ajudar na busca da reconciliação racial e étnica dentro da igreja.

Estes são apenas alguns exemplos de maneiras pelas quais a ecologia da mídia pode servir à igreja. Apenas nesses exemplos, é óbvio que precisamos de um entendimento muito melhor da tecnologia se quisermos enfrentar esses problemas com algo mais do que idiotice tecnológica e heresia. Ao tomarmos decisões sobre as tecnologias que aceitamos ou rejeitamos, devemos lembrar estas palavras de Jacques Ellul:

Se esses meios devem ser realmente ordenados à luz desse evento escatológico, eles devem deixar de ser ilimitados em suas demandas e sujeitos a nenhuma autoridade superior a si mesmos. Eles devem ser julgados, aceitos ou rejeitados. Não é sua virtude intrínseca, sua qualidade como meio, que conta, é seu conteúdo escatológico, sua faculdade de integrar-se sob o senhorio de Jesus Cristo. Eles não são bons ou ruins, são chamados a entrar no Reino do Amor e são capazes de entrar ou não. [4]

Que nós, como igreja, optemos por adotar apenas tecnologias capazes de entrar no reino do amor, à medida que buscamos a Deus em plenitude, presença e realidade.

Espero que este ensaio tenha despertado os leitores para a realidade da estupidez tecnológica e exposto os perigos da tecnologia desencarnada à teologia. Ao procurarmos entender as maneiras pelas quais podemos começar a criar um ambiente de igreja que afirme a realidade da encarnação, devemos começar a restringir nosso foco às maneiras pelas quais isso pode ser feito em igrejas locais individuais. Criar um ambiente da igreja, uma cultura da igreja, não é apenas o trabalho dos pastores ou membros da equipe, é o papel de todos os participantes da congregação. A compreensão dos ambientes criados por nossas tecnologias exige a contribuição de cada pessoa que experimenta esses ambientes. E embora a contribuição de cada pessoa seja valiosa, a contribuição de pessoas com experiência em ver além do conteúdo para o meio e a mensagem é especialmente valiosa. Especificamente, a igreja deve valorizar a contribuição de seus artistas.

Uma coisa que muitos estudiosos de ecologia da mídia têm em comum é sua alta visão dos artistas. Esse respeito pelos artistas não é coincidência, é por causa do amplo terreno comum e dos objetivos comuns compartilhados por artistas e estudiosos da mídia. O próprio McLuhan disse: “a arte tem a maior relevância não apenas para o estudo da mídia, mas para o desenvolvimento dos controles da mídia”. [2] Um passo que a igreja pode dar para entender melhor os efeitos da tecnologia é fazer parceria com artistas que já fazem parte da igreja. Para fazer isso, precisamos refinar e desafiar nossos conceitos errôneos sobre quem são os artistas e o que é arte.

Artistas são percebedores treinados. Segundo McLuhan, “o artista sério é a única pessoa capaz de encontrar tecnologia com impunidade, apenas porque é um especialista ciente das mudanças na percepção dos sentidos”. [2] Richard Cavell discorre sobre o entendimento de artistas por McLuhan:

A intenção de McLuhan era instar todos nós a assumir a condição de artistas … a condição de indivíduos criticamente envolvidos com o mundo ao seu redor. “Em termos sociais”, escreve McLuhan em “Through the Vanishing Point”, “o artista pode ser considerado um navegador que fornece orientações adequadas sobre a bússola, apesar da deflexão magnética da agulha pela mudança no jogo de forças. Assim entendido, o artista não é um mascate de ideais ou experiências elevadas. Ele é, antes, o auxílio indispensável à ação e à reflexão ” (TVP 238). [17]

Artistas são pessoas que foram treinadas para entender os sentidos humanos e como eles funcionam, o que significa que são especialmente úteis para entender as novas tecnologias e os ambientes que eles criam.

Quando a tecnologia cria um ambiente, o ambiente antigo passa a ser visto como uma forma de arte. Segundo McLuhan, “a história das artes e das ciências poderia ser escrita em termos do processo contínuo pelo qual as novas tecnologias criam novos ambientes para as tecnologias antigas. A tecnologia antiga, como o conteúdo da nova, se torna rapidamente arrumada em uma forma de arte, como agora está acontecendo no cinema, uma vez que se tornou o conteúdo da TV”. [18] Os ambientes são tão difíceis de perceber, por que são de baixa intensidade ou definição, mas tudo permeando, tornando-nos peixes que não sabem que estão molhados. “Qualquer coisa que eleva o ambiente a alta intensidade … transforma o ambiente em um objeto de atenção. Quando um ambiente se torna um objeto de atenção, assume o caráter de um anti-ambiente ou um objeto de arte”. [17] Os artistas nos ajudam a perceber as tecnologias como elas realmente são, porque eles as chamam à nossa atenção de novas maneiras.

Richard Cavell resumiu bem as opiniões de McLuhan quando ele escreveu:

O objeto dessa arte tem menos a ver com a auto expressão do que com a elevação da percepção. O treinamento da percepção sobre o ambiente que de outra forma não era atendido tornou-se a base da experimentação no que é chamado de arte moderna e poesia. O artista, em vez de se expressar … voltou seus sentidos e a obra de arte para o negócio de sondar o ambiente (EM 224). Ao investigar o ambiente, o artista produz um contra ambiente ou anti-ambiente. [17]

É aqui que a arte e a ecologia da mídia se encontram, e isso desafia a percepção de muitas pessoas sobre o que é arte. Arte não é auto expressão; é anti-ambiente. Com isso, queremos dizer que os artistas pegam o que é sutil ou difuso demais para se perceber e o colocam em um ambiente diferente, onde podemos vê-lo e a seus efeitos. Isso poderia ser uma tecnologia, um sistema social ou realmente qualquer coisa. Ao fazer isso, os artistas nos oferecem “artefatos como um meio de criar uma nova visão e uma nova consciência”. [18] A arte não apenas torna nossas vidas um pouco mais bonitas; ela nos permite ver nossas vidas e os objetos físicos que agem em nós de maneiras que não poderíamos tê-los percebido antes, oferecendo uma visão valiosa de nossas tecnologias.

O anti-ambiente pode incluir estudos históricos ou interculturais nos quais justapomos nossa sociedade atual a uma cultura diferente. McLuhan escreve: “Hoje, quando queremos nos orientar em nossa própria cultura e precisamos nos afastar do viés e da pressão exercidos por qualquer forma técnica de expressão humana, precisamos apenas visitar uma sociedade em que essa forma específica não seja notada, ou um período histórico em que era desconhecida”. [2] É por isso que muitos estudiosos de mídia e comunicação estão interessados em estudar comunidades como os Amish, porque isso nos dá a chance de comparar e contrastar nossas sociedades para ver como nossas diferenças tecnológicas nos afetam socialmente.

Lance Strate, fundador da Media Ecology Association, baseia-se no trabalho de Hannah Arendt para afirmar que o que McLuhan realmente queria dizer com “anti-ambiente” era o laboratório. Ele escreve: “Visto da perspectiva do mundo “real”, o laboratório é a expectativa de um ambiente alterado … podemos considerar também o museu de arte, a galeria ou a biblioteca como um ambiente controlado, um tipo de laboratório, e observar o paralelo na ideia de arte como expectativa de um ambiente alterado”. [20] Ele também diz que as casas de culto e outros espaços sagrados atuam como laboratórios, porque nos levam a um ambiente que geralmente é muito diferente de nossas vidas cotidianas. Sobre os espaços sagrados ele diz o seguinte:

Eles são de alguma forma dedicados a tornar o mundo invisível do espírito, visível para nós através do uso de símbolos e objetos sagrados, mesmo para as religiões cujo conceito de Deus é aquele que está totalmente fora do mundo das aparências. Os santuários podem, portanto, ser considerados laboratórios usados para descobertas, experimentações e desenvolvimento morais, éticos e sagrados, e locais onde também são esperados ambientes alterados … [20]

Essa ideia de igrejas como anti-ambientais (e, portanto, desempenhando um papel semelhante ao da arte) deve desafiar nossas ideias sobre como deve ser o ambiente físico de nossa adoração coletiva.

Observe a frase “a expectativa de um ambiente alterado”. Uma das maneiras pelas quais a arte é anti-ambiental está em sua natureza profética. Convoca a existência (ou pelo menos a imaginação) do mundo como deveria ser e, de acordo com McLuhan, também pode prever mudanças no horizonte: “o poder das artes de antecipar futuros desenvolvimentos sociais e tecnológicos, por uma geração ou mais, há muito que é reconhecido… esse conceito das artes como proféticas contrasta com a ideia popular delas como mera auto expressão “. [2] A arte é uma maneira de incorporar a oração:” Que venha o seu reino; que a sua vontade seja feita na terra como é nos céus.

Ellul fala sobre a profecia moderna como um modo de vida revolucionário:

…o profeta não é aquele que se limita a predizer com mais ou menos precisão um evento mais ou menos distante; ele é quem já vive e já o torna real e presente em seu próprio ambiente. Esta é, pois, a situação revolucionária: ser revolucionário é julgar o mundo pelo seu estado atual, pelos fatos reais, em nome de uma verdade que ainda não existe (mas que está por vir) – e é fazê-lo porque acreditamos que essa verdade seja mais real do que a realidade que nos rodeia. Consequentemente, significa trazer o futuro para o presente como uma força explosiva. [4]

Os cristãos são artistas proféticos quando vivemos em expectativa e antecipação, acreditando nas promessas de Deus que ainda não foram cumpridas e trazendo o futuro para nossas vidas atuais pela força explosiva da fé. É assim que a nossa presença é arte anti-ambiental no meio de um mundo de descrença. O Dr. Read Schuchardt leva isso adiante, dizendo: “Estar ‘no mundo, mas não ser do mundo’, é o mandato da igreja, ser o contra ambiente para o ambiente dominante do mundo. O mundo é dominado pela tecnologia e, portanto, o cristianismo, para ser eficaz, deve ser uma forma de resistência ao imperativo tecnológico. É o César diante de quem não devemos nos curvar”. [21]

A arte como anti-ambiente e profecia nos obriga a fazer perguntas sérias sobre nossas vidas como indivíduos e nossa vida coletiva como corpo de Cristo. Que realidade afirmaremos como verdade por nossa presença intencional? Que realidade criaremos? Nossos artefatos físicos afirmam ou negam essa realidade? Que tipo de paraíso existe para ser ganho e perdido por nossas escolhas tecnológicas? McLuhan viu o trabalho dos artistas como algo para todos participarem, o que significa que essas perguntas não são apenas para nossos líderes e artistas. Elas são para todos nós, coletiva e individualmente, respondermos.

Através deste ensaio, as realidades da idiotice tecnológica e da heresia foram expostas, os perigos da tecnologia desencarnada foram trazidos à luz, e as maneiras pelas quais nossa teologia é afetada por ela foram exploradas. Ao aprender sobre artistas, anti-ambiente e profecia, mal começamos a entender como podemos criar um ambiente de igreja que afirme a realidade da encarnação. Esse fundamento é forte, mas ainda temos que responder completamente à pergunta: “Como então viveremos?”

A única resposta que posso dar a essa pergunta é um começo incompleto. Nós, como cristãos, somos chamados a buscar a Deus em plenitude, presença e realidade. Qualquer tecnologia que nos aprofunde nisso pode ser adotada, mas qualquer tecnologia que nos afaste disso, qualquer tecnologia que desafie a encarnação de Cristo, deve ser rejeitada. É difícil dizer como discernir essa diferença. Talvez possamos aprender com o apóstolo Paulo quando ele escreveu em 1 Coríntios 10: 23-24: “Todas as coisas são lícitas”, mas nem todas as coisas são úteis. “Todas as coisas são lícitas”, mas nem todas as coisas nos convêm. Ninguém busque o seu próprio bem, mas o bem do próximo”. [3] As decisões que temos pela frente devem ser tomadas visando o bem; tanto o nosso quanto do nosso próximo, pois nossa presença para nosso próximo é a presença de Cristo no mundo, e qualquer coisa que oculte essa presença é muito mais prejudicial para as boas novas do que podemos perceber.

Anteriormente, aprendemos com Jacques Ellul que a maioria das coisas revolucionárias que os cristãos podem fazer para buscar a Deus em plenitude, presença e realidade é simplesmente viver com “a expressão do Espírito Santo, trabalhando dentro de nós, expressando-se em nossa vida real, através de nossas vidas. palavras, nossos hábitos e nossas decisões. Portanto, o que precisamos é redescobrir tudo o que a plenitude da vida pessoal significa para um homem de pé no meio do mundo, que redescobre o próximo porque ele mesmo foi encontrado por Deus”. [4]

Como essa redescoberta acontece não é nos tornando luditas ou vivendo com medo de todos os desenvolvimentos tecnológicos. Como cristãos, recebemos espíritos de poder, de amor e de mentes sãs. Precisamos ter coragem de fazer perguntas difíceis, gostar de fazer perguntas que nos sacrificam e ter uma mente sadia para fazer perguntas inteligentes. Essas perguntas serão feitas e as respostas encontradas não dentro dos muros dos seminários e universidades, mas em estúdios de arte, santuários, escolas, casas e em todos os lugares em que o povo de Deus estiver presente junto a ele. Devemos garantir que nossas tecnologias encorajem nossa plenitude, presença e realidade, enquanto procuramos juntos redescobrir o nosso próximo para que ele também seja encontrado por Deus.

Referências

[1] McLuhan, M., 1999. The Medium and the Light: Reflections on Religion. Wipf and Stock Publishers, Eugene, OR. 

[2] McLuhan, M., 1964. Understanding Media: The Extensions of Man (Critical Ed.). Gingko Press, Berkeley, CA. 

[3] The Holy Bible, English Standard Version, 2001. Crossway, Wheaton, IL. 

[4] Ellul, J., 1989. The Presence of the Kingdom, 2nd ed. Helmers and Howard Publishers Inc., Colorado Springs, CO. 

[5] Schuchardt, R., 2015. The Reformation as a Media Event, class lecture. 

[6] Strate, L., 1999. Understanding MEA. Medias Res 1. 

38/39 

[7] Clendenin, D.B., Ellul, J., 1989. Choosing Life and the Possibility of History: An Introduction to the Life and Thought of Jacques Ellul, in: Wyon, O. (Tran.), The Presence of the Kingdom. Helmers and Howard Publishers Inc., Colorado Springs, CO, pp. xxi–xlii. 

[8] Postman, N., 1992. Social Science as Moral Theology, in: Conscientious Objections: Stirring Up Trouble About Language, Technology, and Education. Vintage Books, New York. 

[9] Gordon, T.W., 2002. Biography of Marshall McLuhan. 

[10] McLuhan, M., McLuhan, E., 1988. Laws of Media: The New Science. University of Toronto Press, Canada. 

[11] Gordon, W.T., 2003. Editor’s Introduction, in: Understanding Media: The Extensions of Man (Critical Ed.). Gingko Press, Berkeley, CA. 

[12] Johnson, M.P., 2013. One With Christ: An Evangelical Theology of Salvation. Crossway, Wheaton, IL. 

[13] Walter J. Ong S.J. Biography and Remembrances, n.d. 

[14] Ong, W.J., 1982. Orality and Literacy: The Technologizing of the Word. Routledge, New York, NY. 

[15] Buckley, S.J., Robinson, S.J., D.C., Soukup, S.J., P.A., 2001. The Influence of Information Technologies on Theology. Theol. Stud. 62. 

[16] Ellul, J., 1964. The Technological Society. Knopf, New York. 

[17] Cavell, R., 2002. McLuhan in Space: A Cultural Geography. University of Toronto Press, Toronto. 

[18] McLuhan, M., 1965. New Media and the Arts. Arts Soc. Avant-Garde Today 3. 

[19] Soukup, S.J., P.A., 2015. A Media Ecology of Theology. 

[20] Strate, L., 2013. The Laboratory as Anti-Environment. Hannah Arendt Cent. 

[21] Schuchardt, R. 2017. Personal communication.

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