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A genômica humana e a Imagem de Deus

A genômica humana e a Imagem de Deus – Graeme Finlay

O Deus da Bíblia é também o Deus do genoma. Ele pode ser adorado na catedral ou no laboratório. Sua criação é majestosa, impressionante, complexa, bonita e não pode estar em guerra consigo mesma.1

Francis Collins, Chefe do Projeto Genoma Humano

 

Resumo

O DNA que herdamos é a atual edição de um texto que foi transmitido a nós através de inúmeras gerações de antepassados. Marcadores exclusivos em nosso DNA mostram que os nossos antepassados foram compartilhados não somente com outras pessoas, mas (ainda mais antigo no tempo) com outros macacos, primatas e mamíferos. Nosso DNA conta uma história que descreve as nossas origens biológicas durante a evolução dos mamíferos, mas isso não é suficiente para explicar as nossas origens como pessoas. Somos formados como pessoas apenas na medida em que ouvimos e assimilamos histórias transmitidas em nossas famílias e comunidades. Os cristãos acreditam que a história que é essencial para o desenvolvimento de uma humanidade plena é aquela que se relaciona com a ação redentora de Deus em Jesus Cristo.

 

 

A ética judaico-cristã sempre foi motivada pelo conceito bíblico de que a humanidade é criada à “imagem e semelhança” de Deus (Gen. 1: 26-28). Este reconhecimento de que cada pessoa de alguma forma reflete a natureza de Deus e por isso tem uma dignidade e um valor inalienável, tem motivado a compaixão e a reforma social ao longo dos séculos.

E ainda assim, o significado essencial do conceito de “imagem de Deus” é de certa forma ambíguo. As pessoas têm identificado muitas vezes particularidades da condição humana (como a criatividade, a racionalidade ou o senso moral) como sendo fundamentais para o significado. Mas esses entendimentos são muito limitados.

O significado pretendido para este termo bíblico deve ser deduzido a partir de seu contexto sócio religioso original. Os reis do antigo Oriente Próximo criaram estátuas de si mesmos, identificadas como sua “imagem e semelhança”, para afirmar sua autoridade sobre domínios.² Dessa maneira, a Bíblia indica que com exceção das criaturas, os seres humanos foram feitos para Deus, designados para servir a Deus e são responsáveis perante Deus. Somos criaturas com um chamado para cuidar uns dos outros e da criação em geral. Uma implicação desta incumbência é que este cuidado com a criação deve ser visto como ética fundamental. Biblicamente, a nossa resposta para a crise ambiental não pode reduzir nosso auto interesse esclarecido. É uma ordem divina.³

Tudo isso pressupõe que nós temos o potencial para conhecer e viver em uma relação com o nosso Criador e que o nosso comportamento deve refletir o Seu amor e bondade. Verifica-se, portanto, que estar afastado de Deus é como não estar realizado – e isso pode nos levar a amenizar nossos anseios através do envolvimento frenético em outros interesses.4

É claro que qualquer descrição de nós mesmos como portadores da “imagem e semelhança” de Deus abrange toda a nossa personalidade. No entanto estamos falando de uma personalidade encarnada.

Somos criaturas biológicas. As capacidades mentais que são exclusivas a nós, seres humanos, tal como a nossa capacidade de nos envolvermos em raciocínios científicos, estética, deliberação moral e devoção religiosa, são incorporados em nossa biologia e, portanto, em nosso substrato genético. E os nossos próprios genes têm tomado forma durante o processamento da matéria-prima da evolução biológica.

Nossas histórias

Para descrever a nós mesmos como seres humanos, devemos entender dois tipos de história. Em primeiro lugar, há uma história científica ou genética que

narra nossa história biológica. O estudo do nosso genoma nos diz onde estamos localizados na árvore genealógica da família dos primatas

  • que somos espécies evoluídas;
  • onde estamos localizados na árvore genealógica da família dos primatas e mamíferos;
  • como os genes têm aparecido e deteriorado durante o desenvolvimento da nossa espécie;

Além disso, o estudo do nosso genoma é, em princípio encarregado de nos dizer:

  • como o nosso genoma dá origem às nossas características biológicas;
  • como se dá o funcionamento de nossos genes para permitir o desenvolvimento de nossas faculdades mentais (tais como científicas, estéticas e capacidades religiosas);
  • como nossos genes influenciam nosso comportamento.

Apesar dos rápidos avanços da genética, a humildade ainda tem seu lugar.

A compreensão científica do papel de grande parte do genoma ainda está no seu início. A proporção do DNA que codifica as proteínas é de 1,2% do todo.

As funções reguladoras foram atribuídas a uma pequena porcentagem adicional de nosso DNA. Grande parte do restante já foi descartado como “lixo”, mas existem cada vez mais evidências de que o DNA “lixo” tem novas funções que ainda não são conhecidas5 A ciência do genoma ainda tem muito a aprender.6

Rolston nos lembra que a física e a química são as mesmas em qualquer lugar do universo, mas que a biologia (ou “história natural”) é uma história peculiar à Terra. Esta história se torna “memorável, cumulativa e transmissível” nos genes dos organismos vivos. Mas a história da humanidade não está escrita apenas nos genes. Devemos também levar em conta a história cultural que se desenvolveu a partir da história genética. A fase genética da história nunca poderia prever como a fase cultural iria se desenrolar. Não ousamos cometer uma “falácia genética” nos atrevendo a explicar a cultura através da genética.7

Portanto, além da história genética, nós possuímos uma história pessoal. Sabemos que o estudo do nosso genoma não pode nos dizer

  • como nosso ambiente pessoal (relações, culturas e histórias) nos formam como pessoas;
  • por que as culturas se desenvolveram da forma como vemos hoje;
  • se as nossas crenças sobre o propósito e sobre a natureza suprema da realidade e Deus são verdadeiras;
  • se os nossos comportamentos estão corretos.

Devemos levar a sério tantos as histórias científicas quanto as pessoais.

O primeiro é um pré-requisito para o último, mas ele pode ser conhecido e interpretado apenas através deste último. Apenas pessoas que têm sido formadas por histórias contadas dentro de sociedades muito particulares, irão se perguntar sobre suas origens biológicas e estarão equipadas com uma visão de mundo crítica realista que lhes permitirá praticar as disciplinas acadêmicas apropriadas. Há fortes indícios de que esta visão de mundo surgiu a partir da fé monoteísta da Bíblia.8

A história genética

O DNA que está dentro das nossas células (nosso genoma) incorpora as instruções genéticas necessárias para o nosso desenvolvimento físico. Ele se assemelha a um texto escrito aonde existe uma sequência linear de “letras” químicas (designadas ‘A’, ‘C’, ‘G’ e ‘T’) que explicam claramente esta informação genética. Nosso complemento de DNA contém dois conjuntos de instruções, cada um composto por 3 bilhões de “letras” químicas. Ele foi apropriadamente chamado de nosso manual de instruções.

Nosso DNA incorpora a informação que nós herdamos de inúmeras gerações de antepassados. Ele é modificado a cada geração por onde ele é transmitido, portanto a versão específica que cada um de nós recebeu, é um registro de nossa história. Por exemplo, um menino herda seu cromossomo Y de seu pai, que por conseguinte havia herdado de seu pai. Aquele menino e seus irmãos partilham quaisquer mutações que ocorreram no DNA cromossômico Y de seu pai. Eles e seus primos homens partilham quaisquer mutações que surgiram no cromossomo Y de seu avô. O nosso genoma é um livro de história que conta a história da nossa árvore genealógica.

A ordem das “letras” químicas em nosso DNA (a sequência) foi determinada pelo Projeto Genoma Humano⁹. Os genomas de várias outras espécies também foram sequenciados. Um com importância particular são os do chimpanzé, o nosso parente vivo mais próximo¹⁰, e do macaco rhesus, um parente mais distante (um macaco do Velho Mundo), que tem desempenhado um papel importante nas pesquisas médicas¹¹. Uma comparação da sequência do nosso genoma com os de outras espécies tem permitido aos geneticistas catalogar as diferenças que existem entre os genomas e assim revelar a base genética da nossa natureza biológica.12

  • Grande parte do nosso DNA pode ser alinhado diretamente com o de outras espécies. Quando isto acontece, o DNA humano difere do DNA do chimpanzé em apenas 1% das “letras”, e do DNA do macaco em 6%. No entanto, existem regiões extensas onde o DNA não podem ser alinhado porque houve a inserção de um novo material, ou a eliminação de material velho do genoma de uma espécie. Quando levamos isto em conta, os genomas humanos e dos chimpanzés diferem em 5% e os genomas humanos e do macaco, diferem em pelo menos 10%.
  • Este elevado grau de semelhança genética indica que as proteínas de seres humanos e chimpanzés sejam muito similares. De fato 20-30% das proteínas codificadas no nosso genoma são idênticas às proteínas correspondentes dos chimpanzés. Das proteínas que diferem entre estas espécies, apenas dois aminoácidos em média são alterados em cada proteína. Cerca de 10% das • nossas proteínas são idênticas aos nossos macacos equivalentes.
  • Novos genes têm aparecido desde que as linhagens humanas e de chimpanzés se ramificaram para fora de seu ancestral comum. Possuímos várias centenas de genes que não são encontrados nos chimpanzés. A maioria destes surgiram através da duplicação de genes pré-existentes, • seguidos pela divergência da informação genética presente em cada cópia.
  • Alguns genes antigos foram desativados da linhagem humana desde os tempos do ancestral comum. Várias centenas de genes que permanecem ativos em chimpanzés estão desativados em nosso genoma e não podem direcionar a produção de uma proteína porque eles adquiriram mutações de inatividade. A perda de genes nos deu músculos mais delicados nas bochechas, nos tornou menos peludos, reduziu a acuidade de nosso sentido olfativo e alterou nossa suscetibilidade à malária. A forma ativa do gene CASP12 está desaparecendo do pool genético humano. Este gene pode comprometer as respostas a algumas infecções bacterianas, e sua forma ativa sobrevive apenas em uma minoria de pessoas.
  • As diferenças biológicas entre humanos e chimpanzés também irão refletir em mudanças na regulação genética. Um gene que codifica uma mesma proteína em cada espécie terá efeitos muito diferentes se em uma destas espécies ele for expresso de forma mais ativa ou em momentos diferentes, ou ainda em diferentes tecidos. Os cérebros dos seres humanos e chimpanzés parecem mostrar menos diferenças na expressão de genes do que os outros órgãos. A maioria das diferenças identificadas representam • uma maior expressão em humanos.
  • A metade do nosso genoma surgiu a partir das atividades de parasitas genéticos ou “genes saltadores”. Estes são segmentos de DNA que colonizam os genomas e se propagam copiando-se e colando-se em novos sítios do DNA.13 Mais de três milhões destes parasitas genéticos têm se acumulado em nosso DNA, dos quais mais de 99% são compartilhados por seres humanos e chimpanzés. Este é um testemunho da vasta história partilhada da qual nós e os chimpanzés surgimos. A ordem em que cada parasita foi adicionado ao DNA dos primatas nos mostra um esboço inequívoco da evolução dos primatas (Figura 1)14. Durante a história evolutiva, as adições de parasitas aos nossos genomas forneceram a matéria-prima a partir da qual novas funções genéticas surgiram. Isso inclui tanto funções regulatórias quando de codificação proteica15. Vários milhares de unidades parasitárias inseridas são exclusivas aos seres humanos (e um número comparável aos chimpanzés) e isso pode ter contribuído para as diferenças biológicas entre as duas espécies.

Figura 1: Um esboço simplificado da árvore genealógica dos primatas, derivada da ordem em que os “genes saltadores” se acumularam nos genomas dos primatas. Por exemplo, um determinado “gene saltador” que está presente nos genomas dos grandes macacos surgiu no DNA de um grande macaco ancestral.16 OWM: Macacos do Velho Mundo. NWM: Macacos do Novo Mundo.

 

Antigas classes de “genes saltadores” em nosso DNA estão presentes nos genomas de todos os mamíferos. O estudo de sua distribuição está produzindo um mapa detalhado do nosso lugar na história dos mamíferos (Figura 2).17 Por exemplo, nós os primatas formamos um agrupamento com os lêmures voadores, musaranhos, coelhos e roedores chamados Euarcontoglires. O esquema evolutivo assim gerado é compatível com aquele derivado da distribuição de mutações raras nos genes.18 E o estudo dos cromossomos (citogenética) demonstrou que o formato particular de nosso conjunto de cromossomos pode ser copiado e colado para gerar aquele de um grande macaco ancestral, ou de um ancestral primata ou ainda do ancestral de todos os mamíferos placentários.19 A história genética que está incorporada em nosso DNA fornece um relato coerente sobre como os genomas progenitores foram transformados em genomas humanos por familiares (naturais) e mecanismos genéticos aleatórios.

 

Figura 2. Um esboço simplificado da árvore genealógica dos mamíferos, derivado da distribuição de “genes saltadores”, mutações raras em genes e da remodelação progressiva dos conjuntos de cromossomos. O grupo de Euarcontoglires foi ampliado para mostrar as cinco ordens que o constituem. Não há nenhuma tentativa de estabelecer prazos.20

 

Devemos esperar que o nosso DNA tenha sido formado também pelos eventos que precederam as origens dos mamíferos. No entanto, os marcadores genéticos específicos decorrentes desses antigos rearranjos de DNA e inserções de “genes saltadores” foram desgastados a ponto de se tornarem irreconhecíveis. No entanto, a história contada pelo nosso DNA é épica. Cada fóssil de “gene saltador” que compartilhamos com gambás, foi originalmente inserido no DNA de um ancestral comum que corria ao redor dos pés dos dinossauros. Cada inserção que compartilhamos com elefantes aconteceu antes da separação das placas tectônica das massas continentais Laurásia e Gondwana. E cada inserção que compartilhamos com os cães, ocorreu antes do impacto do asteróide que acabou com a era dos dinossauros.

Genomas não são conjuntos estáticos e ordenados de genes, eles são continuamente modificados. As comparações com os genomas de espécies relacionadas revelam como os segmentos de DNA são adicionados, perdidos ou reorganizados. Tais comparações documentam a ascensão e queda das famílias de genes e as origens das tendências de várias doenças genéticas. Nosso DNA inscreveu na sua sequência um registro de sua montagem através de uma miríade de parasitas genéticos invasores. Eles têm modificado e ampliado nosso DNA e tem contribuído com numerosos componentes funcionais. Nós somos, pelo menos em parte, aquilo que os nossos parasitas fizeram de nós.

Visto que o desenvolvimento do nosso genoma pode ser descrito de forma abrangente em termos moleculares (pelo menos durante a maior parte da história dos mamíferos), será que dá para pensar em nós mesmos como criaturas feitas à imagem de Deus? A evolução genética tem levado a uma evolution cultural excepcionalmente complexa.21 Somente nós, os seres humanos refletimos sobre nosso passado, nosso futuro, nossas origens e nosso destino. Vivemos em sociedades complexas e somos educados em diversas culturas que têm sido moldadas pelas contingências da história humana. Teólogos cristãos têm enfatizado o fato de que o direcionamento e o caráter de nossas vidas, incluindo os dos sociobiólogos, vêm de histórias.

A história pessoal

A história genética tem o potencial para descrever as origens das potencialidades únicas do altamente versátil (“cognitivamente fluido”) cérebro humano. Um cérebro capaz de se engajar nas atividades de ciência, arte e religião. Van Huyssteen escreveu, “a fluidez cognitiva das nossas mentes concedeu a possibilidade de poderosas metáforas e analogias, sem a qual a ciência, arte e religião não poderiam existir”. A história genética que está por trás dessa capacidade é necessária, mas não suficiente para explicar a nossa humanidade e nossa cultura, porque a evolução do genoma não pode explicar “os caminhos particulares que a cultura humana percorrerá através do conhecimento racional, da consciência moral, da apreciação estética e da nossa disposição religiosa.”22

Sobrepondo-se à nossa história genética estão as histórias narrativas indispensavelmente importantes, transmitidas nas comunidades humanas, que dirigem as nossas vidas ao longo de certas trajetórias. Elas formam a nossa auto-identidade, nosso caráter e a intencionalidade que motiva e orienta nossas vidas, nossos valores e ética.

De forma significativa, nós somos “criaturas que fazem história”. Birch e Rasmussen escreveram: “É através da história que as pessoas criam suas próprias linhas de enredo e definem o sistema em que vivem presentemente e irão viver nos futuro”.23 São as histórias que surgem dos acontecimentos contingentes da vida humana, que se “tornam receitas para a estruturação da própria experiência, para que se estabeleçam as rotas na memória e finalmente, para orientar a própria vida.” 24

Não há exceções aqui: do militante mais materialista até o místico mais pensativo, a orientação das nossas vidas é formada por histórias. As histórias humanas embebidas durante a nossa educação são fundamentais para o nosso conhecimento do mundo. Elas nos permitem tomar consciência de nós mesmos como humanos, como seres racionais, como pessoas com uma história e como herdeiros de uma história genética.

Alguns escritores comprometidos com uma compreensão materialista da vida, negam a história “religiosa” porque ela é supostamente baseada em escrituras que são investidas de “autoridade”. Eles promovem a história científica como sendo superior, porque se baseia em dados empíricos. Contudo, a autoridade das histórias bíblicas para a fé cristã nasce da maneira como os eventos foram descritos e interpretados através de uma história humana empírica autêntica. A história genética foi reconstruída a partir de sequências de DNA e a história cristã decorrente de acontecimentos concretos da história humana, portanto ambas têm o mesmo tipo de autoridade. São histórias convincentes provenientes de vastos conjuntos de experiência.

A história genética na qual os cientistas se confinam busca sentido nas sequências de DNA com suas miríades de marcadores inseridos e assim descreve a origem biológica do animal humano. As histórias narrativas contadas em comunidades humanas são necessárias para formar a pessoa humana. A história bíblica busca sentido na experiência do povo de Israel com Deus, na história de Jesus e nas nossas próprias vidas, e assim nos permite compreender a nós mesmos como criaturas feitas à “imagem e semelhança de Deus”.

O povo de Israel conta a história de como Deus os resgatou do Egito e por isso “se vêem como um povo em uma jornada, numa aventura. A ética se torna uma virtude necessária para sustentar Israel nessa jornada… A história é o meio fundamental de se falar e ouvir a Deus, o único meio humano disponível para nós que é suficientemente complexo e envolvente para tornar compreensível o que significa estar com Deus”.25

Da mesma forma, a Igreja é uma comunidade contadora de histórias. Ela surge a partir dos detalhes de Deus que veio através de um determinado homem, proclamando uma ética particular, morrendo uma morte particular e ressurgindo de uma forma particular. “A alegação Cristã está ligada a esta história em particular, por entender que o caminho de Deus está paradigmaticamente presente no caminho de Jesus como um modo de vida, e é perpetuado entre aqueles que se esforçam para fazer desta vida, sua própria vida.”26

Por isso é que a igreja cristã não começou com especulação metafísica, mas com histórias sobre Jesus e aqueles cujas vidas foram alcançadas por causa dele. Estas histórias nos permitem descobrir o significado e a importância das nossas vidas. “A pequena história que eu chamo de minha vida recebeu um significado cósmico e eterno, uma vez que está inserida dentro do maior relato da história de Deus.” Hauerwas e Willimon concluem que a verdadeira liberdade surge em nosso ser ligada a uma história verdadeira. A comunidade Cristã conhece a história que conta como o Cristo ressuscitado voltou aos seus discípulos em perdão; e por isso ela espera continuamente sua presença, seu perdão e sua bênção.27

Podemos abordar a realidade que nos rodeia como “natureza” e investigar adequadamente o efeito do nosso passado evolutivo em fenômenos como “altruísmo” e comportamento socialmente perturbador. Mas tal jargão científico incisivamente minimalista é inadequado para descrever a moralidade humana. Independentemente de como nosso genoma influencia o nosso comportamento, a ética humana transcende a genética. É somente quando vemos a realidade como “criação” (uma perspectiva decorrente da história bíblica) que reconhecemos a dimensão moral de nossas vidas em termos de “amor” ágape (do tipo revelado por Deus) ou de “pecado” (isto é, ato incompatível com a natureza de Deus).28

A vida virtuosa não é geneticamente determinada. Ela não vem do bom senso ou é óbvia para qualquer pessoa racional de boa vontade. Ela não está resumida à simples prescrições éticas e formulações. “Nosso caráter é o resultado da nossa atenção constante ao mundo que dá uma coerência à nossa intencionalidade. Essa atenção é formada e seu conteúdo é embasado pelas histórias através das quais nós aprendemos a construir a história das nossas vidas.²⁹

Hauerwas disse: ‘A vida moral não é simplesmente uma questão de decisão regida por princípios e regras defensáveis publicamente; só podemos agir no mundo que vemos e somos parcialmente determinados pelo tipo de seres que nos tornamos através das histórias que aprendemos e incorporamos no nosso plano de vida”. As histórias e metáforas nos permitem interpretar o mundo, “fornecendo as histórias narrativas que dão coerência às nossas vidas. Os princípios e regras éticas são apenas lembretes abreviados, necessários para a educação e explicação moral: “o seu significado moral está contido nas histórias.”30

Integrando nossas histórias

Os religiosos, por vezes, rejeitam a natureza célebre de nossas origens biológicas, optando por uma abordagem genética que nega a história contada em nosso DNA. Da mesma forma, sempre houve pessoas que negaram a natureza célebre do Evangelho de Jesus. A partir do segundo século em diante, os gnósticos tiraram Jesus de seu contexto histórico e judaico. Mas qualquer bolsa de estudos, não importa o quão erudita, se estiver construída sobre falsas premissas, está condenada ao fracasso.³¹ Uma abordagem histórica tanto dos dados biológicos quanto dos Evangelhos é consistente, compatível com uma perspectiva científica realista crítica e intelectualmente satisfatória.

Tanto a genômica dos primatas quanto os relatos bíblicos de Israel e de Jesus são histórias poderosas. Mas nós vamos nos tornar intelectualmente esquizofrênicos se nós os mantivermos em compartimentos separados. Os cristãos acreditam que a perspectiva mais satisfatória incorpora esses relatos como sendo fases diferentes de uma mesma história. A história da vida como inscrito no DNA não é nada mais do que a nossa descoberta de uma história épica escrita por Deus. A Ciência preenche os detalhes da nossa história biológica que Deus criou. Os Hebreus antigos (Is. 65-66) e os Cristãos (2 Pe.3: 13; Apoc.21: 1) intérpretes da história pegam essa mesma história paara descrever como Deus pretende transformar uma criação incompleta em uma que é perfeita.

Esta história incompleta aborda uma profunda ironia. Apenas um produto da evolução foi designado como sendo “à imagem e semelhança de Deus”, e esta criatura tem sido culpada de uma selvageria contínua e pouco amenizada. Como um produto ímpar da história evolutiva, nós “representamos” Deus de uma maneira muito provisória. Este mistério é resolvido quando nos deparamos com o clímax da história do Antigo Testamento, onde Jesus Cristo, que é descrito como sendo a exata semelhança de Deus (Col. 1:15). A morte e ressurreição de Cristo é a chave hermenêutica pela qual a história pode ser entendida. Estes eventos são um momento crucial no clímax da história do Novo Testamento. Deus irá conceder àquele que é a perfeita semelhança de Cristo, a humanidade pecadora, e irá transformar as pessoas na própria semelhança de Cristo (1 Cor. 15:49).

A realidade de nossa humanidade não é questionada pelo fato de que o nosso genoma não pode de forma alguma ser convertido para o de outros primatas por mecanismos genéticos conhecidos. Nem tampouco a relação entre genoma e comportamento (as percepções da sociobiologia) pode afetar nossa personalidade moral. As pessoas que somos e a maneira como vivemos nossas vidas são formadas pelas histórias que valorizamos. Em um mundo fragmentado dentro de um planeta arruinado, não há necessidade maior do que escutar atentamente a história de Jesus.

 

 

REFERENCIAS

1 Collins, F.S. A linguagem de Deus, New York: Imprensa Livre (2006), p.211.

2 Hess, R.S. ‘Genesis 1-2 e estudos recentes de textos antigos’, A ciência e a fé Cristã (1995) 7, 141-149.

3 Spencer, N. and White, R. Cristianismo, Mudanças Climáticas e Vida Sustentável, London: SPCK (2007), pp.83-86.

4 McGrath, A, ed. The New Lion Handbook Christian Belief, Oxford: Lion (2006), pp. 74, 76, 78.

5 Pheasant, M. and Mattick, J.S. ‘Raising the estimate of functional human sequences.’ Genome Res. (2007) 17, 1245-1253.

6 McGrath op. cit. [4]

7 Rolston, H. III. Genes, Genesis and God, Cambridge: CUP (1999), pp. 50-53; 154-159.

8 Trigg, R. ‘A Christian Basis for Science’, Science and Christian Belief (2003) 15, 3-15.

9 International Human Genome Sequencing Consortium. ‘Initial sequencing and analysis of the human genome’, Nature (2001) 409, 860-921.

10 The Chimpanzee Sequencing and Analysis Consortium. ‘Initial sequence of the chimpanzee genome and comparison with the human genome’, Nature (2005) 437, 69-87.

11 Rhesus Macaque Genome Sequencing and Analysis Consortium. ‘Evolutionary and biomedical insights from the rhesus macaque genome’, Science (2007) 316, 222 -233.

12 Kehrer-Sawatzki, H. and Cooper, D.N. ‘Understanding the recent evolution of the human genome: insights from human-chimpanzee genome comparisons’, Hum. Mutat. (2007) 28, 99-130.

13 Jurka, J., Kapitonov, V.V., Kohany, O. and Jurka, M.V. ‘Repetitive sequences in complex genomes: structure and evolution’, Annu.Rev. Genomics Hum.Genet. (2007) 8, 241-259.

14 Ray, D.A. ‘SINEs of progress: mobile element applications to molecular ecology’, Molecular Ecology (2007) 16, 19-33; Salem, A.-H., Ray, D.A., Xing, J. et al. ‘Alu elements and hominid phylogenetics’, Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A. (2003) 100, 12787-12791.

15 Volff, J.-N. ‘Turning junk into gold: domestication of transposable elements and the creation of new genes in eukaryotes’, BioEssays (2006) 28, 913-922.

16 Salem, Ray, Xing et al. op. cit., (14).

17 Nishihara, H., Hasegawa, M. and Okada, N. ‘Pegasoferae, an unexpected mammalian clade revealed by tracking ancient retroposon insertions’, Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A. (2006) 103, 9929-34.

18 Janecka, J.E., Miller, W., Pringle, T.H. et al. ‘Molecular and genomic data identify the closest living relatives of primates’, Science (2007) 318, 792-794.

19 Ferguson-Smith, M.A. and Trifonov, V. ‘Mammalian karyotype evolution’, Nature Reviews Genetics (2007) 8, 950-962.

20 ver rodapés 17 – 19.

21 Varki, A. and Altheide, T.K. ‘Comparing the human and chimpanzee genomes: searching for needles in a haystack’, Genome Res. (2005) 15, 1746-1756.

22 Van Huyssteen, J.W. Alone in the World? Human Uniqueness in Science and Theology, Grand Rapids and Cambridge: Eerdmans (2006), pp. 214-215, 312-313.

23 Birch, B.C. and Rasmussen, L.L. Bible and Ethics and the Christian Life, Minneapolis: Augsburg (1989), p. 127

24 ibid., p. 106.

25 Hauerwas, S. and Willimon, W.H. Resident Aliens, Nashville: Abingdon Press (1989), pp. 54-55.

26 Birch and Rasmussen op. cit., (23), pp. 106-107, 125.

27 Hauerwas and Willimon op. cit., (25), pp. 55, 67, 68.

28 Messer, N. Selfish Genes and Christian Ethics, London: SCM Press (2007), pp.106, 111-113, 128, 164f, 184, 192, 195.

29 Hauerwas, S. Vision and Virtue, Notre Dame: University of Notre Dame Press (1981), pp. 68-77.

30 ibid.

31 Wright, N.T. Scripture and the Authority of God, London: SPCK (2005).

 

 

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