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A ciência matou Deus? por Alister McGrath

Este artigo explora a leitura agressiva dos ateus para com as ciências naturais associadas com Richard Dawkins, levantando sérias questões sobre sua plausibilidade intelectual e seus fundamentos probatórios. Será que o antigo popularizador da ciência se tornou nada mais do que um propagandista antirreligioso, usando a ciência na mais cruel das formas de combater religião, ignorando um fato tão óbvio de que tantos cientistas são crentes religiosos? O ateísmo de Dawkins parece estar alinhavado na sua ciência com um velcro intelectual, sem uma base probatória rigorosa, que é o que poderia se esperar de um defensor do método científico.

Eu costumava ser um ateu. Quando eu estava crescendo em Belfast, na Irlanda do Norte, durante os anos 60, eu tinha um ponto de vista firme de que Deus era uma ilusão infantil, adequado para os idosos, os intelectualmente fracos, e os fraudadores religiosos. Eu admito plenamente que este era um ponto vista bastante arrogante e que hoje eu enxergo como sendo algo meio vergonhoso de se pensar. Se isso parecia bastante arrogante, na época era o que víamos como sabedoria. A religião estava no seu caminho para ruína e um glorioso amanhecer sem Deus estava logo ali na esquina. Ou pelo menos assim parecia.

Parte do raciocínio que me levou a esta conclusão foi baseado nas ciências naturais. Eu tinha me especializado em matemática e ciência durante o ensino médio, me preparando para ir para a Universidade de Oxford para estudar química a fundo. Enquanto a minha principal motivação para o estudo das ciências foi a uma visão fascinante sobre o mundo maravilhoso da natureza, eu também achei que ela seria um aliado altamente conveniente em minha crítica à religião. Ateísmo e Ciências naturais pareciam estar unidos pelas ligações intelectuais mais rigorosas. E assim permaneceram as coisas, até que eu cheguei em Oxford em outubro de 1971.

Química, e em seguida a biofísica molecular, provaram ser intelectualmente emocionantes. Às vezes, eu me encontrava estupefato com um entusiasmo incandescente, na medida em que mais e mais das complexidades do mundo natural se encaixar perfeitamente. No entanto, paralelamente a este prazer crescente nas ciências naturais, que superaram qualquer coisa que eu poderia ter esperado, eu me vi repensando meu ateísmo. Não é fácil para ninguém submeter suas crenças fundamentais a críticas; minha razão para isso foi a crescente percepção de que as coisas não eram tão simples como eu antes pensava. Uma série de fatores convergiram para criar o que eu suponho que poderia ser descrito razoavelmente como sendo uma crise de fé.

Ateísmo, comecei a perceber ele estava fundamentado em uma base probatória muito menos que satisfatória. Os argumentos que uma vez pareceram ousados, decisivos e conclusivos, começaram a se tornar redundantes, hesitantes e incertos. A oportunidade de falar aos cristãos sobre a sua fé me revelou que eu sabia relativamente pouco sobre o cristianismo, que na verdade eu tinha vindo a conhecer, principalmente através das descrições nem sempre precisas de seus principais críticos, como Bertrand Russell e Karl Marx. Talvez mais importante, eu comecei a perceber que minha suposição da ligação automática e inexorável

entre as ciências naturais e o ateísmo era bastante ingênua e desinformada. Uma das coisas mais importantes que eu tive que resolver depois da minha conversão ao Cristianismo, foi o desacoplamento sistemático desta ligação; em vez disso, eu comecei a enxergar as ciências naturais a partir de uma perspectiva Cristã. E eu gostaria de tentar entender por que os outros não compartilham dessa perspectiva.

Em 1977, enquanto ainda pesquisava a biofísica molecular na Universidade de Oxford, eu li o primeiro livro de Richard Dawkins, The Selfish Gene, que tinha sido lançado no ano anterior. Era um livro fascinante, cheio de ideias e mostrando uma excelente capacidade de colocar conceitos difíceis em palavras. Eu devorei este livro e ansiava ler mais deste autor. No entanto, eu estava intrigado com o que eu considerava ser seu ateísmo surpreendentemente superficial, não fundamentado adequadamente nos argumentos científicos que ele estabelecia nesse livro. Seu ateísmo parecia estar alinhavado à sua biologia com um Velcro intelectual, ao invés de estar fundamentado pela evidência científica que Dawkins propunha.

Dawkins tinha agora se firmado como a voz do principal estabelecimento ateu da Grã-Bretanha. O jovem zoólogo brilhante de Oxford dos anos 60 foi gradualmente se transformando em um dos maiores críticos da fé religiosa, particularmente o Cristianismo. A qualidade de seus artigos faz dele um adversário digno, e a estridência e agressividade de sua prosa, o tornava um oponente necessário, para qualquer apologista Cristão.

Neste artigo, eu quero levantar algumas preocupações fundamentais sobre a abordagem de Dawkins às questões da ciência e da religião. Em particular

Eu quero desafiar a ligação intelectual entre as ciências naturais e ateísmo que é tão característica dos artigos de Dawkins. Não é minha intenção criticar a ciência de Dawkins; que, afinal, é a responsabilidade da comunidade científica como um todo. Em vez disso, o meu objetivo é explorar o elo que Dawkins, por vezes, pressupõe e em outras vezes defende, entre o método científico e o ateísmo.

Neste artigo, vou resumir os elementos mais importantes de sua crítica ateísta ao Cristianismo e dar respostas breves para elas. Aos leitores que acham a brevidade irritante, vocês gostarão de saber que descrevi minha exposição das ideias de Dawkins e minhas críticas detalhadas de sua visão ateísta de mundo, com muito mais detalhes no meu livro de Dawkins’ God e os leitores que pretendem ter acesso a uma discussão bem mais detalhada deverá consultar este livro. 1

 

  1. A ciência eliminou Deus

Para Dawkins, a ciência, e acima de tudo a teoria evolutiva Darwiniana, faz com que a crença em Deus seja impossível. Antes de Darwin, Dawkins argumenta que era possível ver o mundo como algo projetado por Deus; depois de Darwin, só podemos falar da “ilusão do design”. Um mundo Darwiniano não tem nenhum propósito, e nós nos iludimos se pensarmos o contrário. Se o universo não pode ser descrito como “bom”, pelo menos, ele não pode ser descrito como “mal” também. Como Dawkins argumenta, “O universo que observamos tinha precisamente as propriedades que deveríamos esperar se no final das contas, não existe nenhum projeto, nenhum propósito, nenhum mal e nada de bom, nada além de uma indiferença cega e impiedosa”. 2

Nisto, Dawkins vê o Darwinismo como uma visão de mundo, ao invés de uma teoria biológica, ele não hesita em levar seus argumentos muito além dos limites do puramente biológico. Darwin, em particular e a ciência em geral nos impele ao ateísmo. E é aqui que as coisas começam a ficar um pouco complicadas para Dawkins. Dawkins certamente demonstrou que uma descrição puramente natural pode ser oferecida sobre o que é atualmente é conhecido da história e sobre o estado atual dos organismos vivos. Mas por que isso levam à conclusão de que não há Deus?

Sabemos que o método científico é incapaz de adjudicar a hipótese de Deus, seja positiva ou negativamente. Aqueles que acreditam que isso prova ou não a existência de Deus usa de um método que vai além de seus limites legítimos, e corre o risco de abusar ou ser desacreditado. Alguns biólogos distintos (como Francis S. Collins, diretor do Projeto Genoma Humano) argumentam que as ciências naturais criam uma presunção positiva da fé; outros (como o biólogo evolucionário Stephen Jay Gould) que elas têm implicações negativas para a crença teísta. Mas eles não provam nada, de qualquer forma. Se queremos resolver a questão sobre Deus, ela deve ser resolvida por outros meios.

Esta não é uma ideia nova. Na verdade, o reconhecimento dos limites religiosos nos métodos científicos foi bem compreendida na época do próprio Darwin. E pode ser encontrada claramente nos escritos de ‘Darwin Bulldog’, T. H. Huxley. No entanto, tem havido discussões recentes importantes sobre este ponto. Vamos analisar um exemplo.

Em um artigo de 1992 na revista Scientific American, o então principal biólogo evolucionista da América, Stephen Jay Gould insistiu que a ciência, por seus métodos legítimos, não podia se pronunciar sobre a existência de Deus.3 “Nós nem afirmamos nem negamos; nós simplesmente não podemos comentar sobre isso como cientistas. “O ponto principal para Gould é que o Darwinismo na verdade, não tem qualquer influência sobre a existência ou a natureza de Deus. Para Gould, é interessante observar o fato que hajam biólogos evolucionários que são ambos ateus e teístas – ele cita exemplos como o humanista agnóstico G. G. Simpson e o russo cristão ortodoxo Theodosius Dobzhansky. Isso o leva a concluir que “ou a metade dos meus colegas são extremamente estúpidos, ou então a ciência do Darwinismo é totalmente compatível com as crenças religiosas convencionais e igualmente compatível com o ateísmo”.

Agora, Dawkins apresenta o Darwinismo como uma super rodovia intelectual para o ateísmo. Na realidade, a trajetória intelectual mapeada por Dawkins parece ficar presa em uma rotina do agnosticismo. E tendo parado, ele permanece lá. Há uma lacuna lógica substancial entre Darwinismo e do ateísmo, a qual Dawkins parece preferir preenche-la pela retórica, ao invés de provas. Se conclusões definitivas devem ser alcançadas, elas devem ser alcançadas por outros meios. E aqueles que persistentemente tentam nos dizer o contrário tem algumas explicações a dar.

 

  1. A fé evita lidar com a evidência

De acordo com Dawkins, o Cristianismo faz afirmações que se baseiam na fé, o que representa um retrocesso a partir de uma rigorosa preocupação baseada em evidências na busca da verdade. Uma das crenças fundamentais de Dawkins, se repetiu quase ao ponto de tédio em seus artigos, é que a fé religiosa é a “confiança cega, na ausência de provas, apesar das evidências4. Fé, Dawkins argumenta, que é “uma espécie de doença mental”, um dos “grandes males do mundo, comparável ao vírus da varíola, mas mais difícil de erradicar”. Mas será que é realmente tão simples como Dawkins sugere? Eu certamente pensava assim quando eu era ateu e teria então considerado os argumentos de Dawkins como decisivos.5 Mas não hoje.

A fé de acordo com Dawkins, ‘significa confiança cega, na ausência de provas, apesar das evidências’.

 

Vamos começar olhando para essa definição de fé e perguntar de onde vem. Fé ‘significa confiança cega, na ausência de provas, apesar das evidências”. Mas por que alguém deveria aceitar essa definição ridícula? Qual é a evidência de que é assim que as pessoas religiosas definem a fé? Dawkins é tímido, neste ponto, e não apresenta qualquer escritor religioso para substanciar esta definição altamente implausível, que parece ter sido concebida com a intenção deliberada de fazer a fé religiosa parecer um pedaço de bufonaria intelectual. Eu não aceito esta ideia de fé e eu ainda não encontrei qualquer intelectual religioso que leve isto a sério. Ela não pode ser defendida a partir de qualquer declaração oficial de fé de qualquer denominação cristã. É a própria definição de Dawkins, construída com a sua própria agenda em mente, sendo representada como se fosse a característica daqueles que ele deseja criticar.

O que é realmente preocupante é que Dawkins realmente parece acreditar que a fé realmente é uma “confiança cega”, apesar do fato de nenhum grande escritor cristão adotar tal definição. Esta é uma crença central para Dawkins, que determina mais ou menos todos os aspectos da sua atitude para com a religião e as pessoas religiosas. No entanto, as crenças centrais muitas vezes precisam ser desafiadas. Pois, como Dawkins observou uma vez nas ideias de William Paley sobre design, essa crença é “gloriosamente e totalmente errada”.

Fé, Dawkins nos diz que “significa confiança cega, na ausência de provas, apesar das evidências”. Isto pode ser o que Dawkins pensa; mas não é o que os Cristãos pensam. A definição de fé oferecida por W. H. Griffith-Thomas6 (1861-1924) é típica de uma longa tradição Cristã.

[Fé] afeta toda a natureza do homem. Ela começa com a convicção da mente baseada em evidências adequadas; continua na confiança do coração ou emoções com base na convicção e é coroada no consentimento da vontade, por meio do qual a convicção e confiança são expressos em conduta.

Esta é uma definição boa e confiável, sintetizando os principais elementos da compreensão caracteristicamente Cristã da fé. Talvez os leitores irão gostar de notar a declaração explícita de que essa fé “começa com a convicção da mente baseado em evidências adequadas”. Eu não vejo porque cansar os leitores com outras citações de escritores cristãos ao longo dos séculos para suportar este ponto. Em todos os casos, “é responsabilidade do Dawkins de demonstrar, através de argumentos baseados em evidências de que sua definição distorcida e sem sentido de fé, é característica do Cristianismo.”

Após criar seu espantalho cheio de falácia, Dawkins o destrói. Não é um feito intelectual indevidamente difícil ou exigente. Nós crescemos ouvindo que a fé é infantil, o que é muito bom para inculcar nas mentes de crianças fáceis de impressionar, mas escandalosamente imoral e intelectualmente risível no caso de adultos. Nós crescemos agora, e precisamos seguir em frente. Por que devemos acreditar em coisas que não podem ser cientificamente provadas? A fé em Deus, como Dawkins argumenta, é como acreditar em Papai Noel e a Fada dos Dentes. Quando você cresce, você para de acreditar nisso.

Este é um argumento de um estudante que tenha acidentalmente esbarrado em uma discussão adulta. É tão amador, quanto não convincente. Não há nenhuma evidência empírica séria que as pessoas consideram Deus, Papai Noel e a Fada do Dente como estando na mesma categoria. Eu parei de acreditar em Papai Noel e a Fada dos Dentes, quando eu tinha cerca de seis anos de idade. Depois de ser um ateu por alguns anos, eu descobri Deus quando eu tinha dezoito anos e nunca considerei isto como uma espécie de regressão infantil. Como eu observei enquanto pesquisava meu recente livro The Twilight of Atheism, um grande número de pessoas vem a acreditar em Deus mais tarde na vida, quando já são ‘crescidos’. Eu ainda tenho que encontrar alguém que passou a acreditar em Papai Noel ou a Fada dos Dentes tarde na vida.

Se o argumento de Dawkins por mais simplista que seja, tiver alguma plausibilidade, isso exige que haja uma verdadeira analogia entre Deus e Papai Noel, e claramente não há. Todo mundo sabe que as pessoas não consideram a crença em Deus como pertencendo à mesma categoria que essas crenças infantis. Dawkins, é claro, argumenta que ambos representam crenças em entidades não-existentes. Mas isso representa uma confusão muito elementar sobre o que é uma conclusão e o que é uma pressuposição de um argumento.

Há uma grande ironia na observação de que a fé que Dawkins rejeita tão prontamente como pertencentes a fadas do dente, é a mesma fé que sustenta a antiga herança intelectual da sua própria universidade e na verdade de sua própria disciplina científica, porque o papel dos filósofos Cristãos Naturais no surgimento das ciências biológicas está bem documentada.

Um outro aspecto marcante do ateísmo de Dawkins é a confiança com a qual ele afirma sua inevitabilidade. É uma confiança curiosa, que parece curiosamente fora de lugar – talvez até mesmo fora de ordem – para aqueles familiarizados com a filosofia da ciência. Como Richard Feynman (1918-1988), que ganhou o Prêmio Nobel de Física em 1965 por seu trabalho da eletrodinâmica quântica, muitas vezes citado, o conhecimento científico é um conjunto de declarações de vários graus de certeza, alguns mais incertos, alguns quase certos, mas nenhum absolutamente certo.

 

  1. Deus é um vírus da mente

A ideia de Deus como uma infecção maligna, invasiva, que infesta mentes saudáveis. O argumento chave de Dawkins é que a crença em Deus não surge por motivos racionais ou com bases comprobatórias: é o resultado de ser infectado por um vírus infeccioso, invasor, comparável àqueles que causam o caos nas redes de computadores 7. A crença em Deus deve ser vista como uma infecção maligna contaminando mentes outrora puras. Isso provou ser uma imagem poderosa, mesmo que a sua base argumentativa e experimental seja surpreendentemente ínfima, visto que a sua ideia como um todo é baseada na solidez da ausência de evidência experimental.

Não só há uma total ausência de qualquer evidência observacional de que as ideias são como vírus, ou se espalham como vírus uma consideração decisiva que Dawkins escamoteia com uma facilidade alarmante. Não faz sentido falar de um tipo de vírus sendo “bom” e um outro “mau”. No caso da relação hospedeiro-parasita, este é simplesmente um exemplo da evolução Darwiniana em ação. Não é nem bom nem mau. É apenas a maneira como as coisas são. Se as ideias devem ser comparadas aos vírus, então elas simplesmente não podem ser descritas como “boas” ou “más” ou mesmo como “certas” ou “erradas”. Isto conduziria à conclusão de que todas as ideias devem ser avaliadas simplesmente com base no sucesso da sua replicação e difusão, em outras palavras, o seu sucesso na difusão, e as suas taxas de sobrevivência.

As ciências naturais podem ser interpretadas de maneira teísta ou ateísta; mas elas não necessitam de nenhuma dessas interpretações.

E, novamente, se todas as ideias são vírus, isso prova que é impossível diferenciar de modo científico entre o ateísmo e a crença em Deus. O mecanismo proposto para a sua transferência não permite que seus méritos intelectuais ou morais sejam avaliados. Nem o teísmo nem o ateísmo é necessário para a evidência, embora ambos possam ser acomodados a ela. Os méritos de tais ideias devem ser determinados por outros meios, se necessário deve-se ir além dos limites do método científico para alcançar tais conclusões.

Mas qual é a evidência experimental para estes “vírus hipotéticos da mente”? No mundo real, os vírus não são conhecidos exclusivamente por seus sintomas; eles podem ser detectados, sujeitos a uma pesquisa empírica rigorosa e à categorização minuciosa da sua estrutura genética. Em contraste, o “vírus da mente” é hipotético; apresentado por um argumento analógico questionável, não uma observação direta e é totalmente injustificado conceitualmente com base no comportamento que Dawkins propõe para ele. Nós podemos observar esses vírus? Qual é a sua estrutura? Qual é o seu “código genético”? Qual a sua localização no interior do corpo humano? E, mais importante de tudo, dado o interesse de Dawkins em sua propagação, qual é o seu modo de transmissão?

Poderíamos resumir os problemas em três grandes rubricas.

  1. Um vírus real pode ser visto, por exemplo, utilizando microscopia crioeletrônica. Os vírus culturais ou religiosos de Dawkins são simplesmente hipóteses. Não há nenhuma evidência de observação para a sua existência.
  2. Não há evidência experimental de que ideias são vírus. Ideias podem se “comportar” em certos aspectos, como se fossem vírus. Mas há uma enorme discrepância entre analogia e identidade e como a história da ciência ilustra dolorosamente, a maioria das pistas falsas na ciência estão presentes nas analogias que foram assumidas por engano como sendo identidades.
  3. O slogan de “Deus como vírus” funciona também para o ateísmo. Uma outra visão de mundo que vai substancialmente além da evidência experimental. É claro que Dawkins, se recusa a admitir isso, enxergando o ateísmo como o resultado inevitável e adequado do método científico. Mas não é. As ciências naturais podem ser interpretadas tanto de forma teísta quanto ateísta; mas elas não precisam de nenhuma dessas interpretações.

 

  1. Religião é uma coisa ruim

Por fim, eu vou abordar uma crença central que satura os artigos de Dawkins. Aquela que diz que a religião é um coisa ruim em si mesma, o que leva a outras coisas más. É claro que este é um julgamento tanto intelectual quanto moral. Em parte, Dawkins enxerga a religião como mau, porque é baseada na fé, o que exime qualquer obrigação humana de pensar. Nós já vimos que este é um ponto de vista altamente questionável, que não pode ser sustentado diante das evidências.

O ponto moral é, naturalmente, muito mais grave. Todos concordam que algumas pessoas religiosas fazem algumas coisas muito perturbadoras. Mas a introdução dessa pequena palavra “algumas” ao argumento de Dawkins, dilui imediatamente o seu impacto. Por que isto levanta uma série de questões críticas. Quantos? Em que circunstâncias? Com qual frequência? Ele também levanta uma questão comparativa: quantas pessoas com pontos de vista antirreligiosos também fazem algumas coisas muito perturbadoras? E uma vez que nós começamos a fazer essa pergunta, nós nos afastamos das armadilhas fáceis e mesquinhas dos nossos adversários intelectuais e temos que enfrentar alguns aspectos sombrios e perturbadores da natureza humana.

Apesar de ter sido moda ser seguidor de Sigmund Freud para sugerir que a religião era algum tipo de patologia, essa visão está agora recuando diante da crescente evidência empírica que sugere (não de forma conclusiva) que muitas formas de religião podem realmente ser bom para você. Claro que algumas formas de religião podem ser patológicas e destrutivas. Outras, no entanto, parecem ser benéficas. Naturalmente, esta evidência não nos permite inferir que Deus existe. Mas ela faz minar um pilar central da cruzada ateísta de Dawkins. A crença central de que a religião é ruim para você.

Uma pesquisa de 2001 de 100 estudos baseados em evidências para examinar sistematicamente a relação entre a religião e o bem-estar humano divulgou o seguinte:8

  • 79 relataram pelo menos uma correlação positiva entre o envolvimento religioso e o bem-estar;
  • 13 não encontraram nenhuma associação significativa entre a religião e o bem-estar;
  • 7 encontraram associações mistas ou complexas entre a religião e o bemestar;
  • 1 encontrou uma associação negativa entre a religião e o bem-estar. Toda visão de mundo de Dawkins depende precisamente desta associação negativa entre a religião e o bem-estar humano e onde apenas 1% dos resultados experimentais inequivocamente afirmam e 79% rejeitam igualmente de forma inequívoca.

Os resultados deixam pelo menos uma coisa clara: temos de abordar este assunto à luz das evidências científicas, sem preconceito pessoal. Eu não sonharia em sugerir que esta evidência prova de maneira inequívoca que a fé é boa para você. Menos ainda que eu iria argumentar que isso demonstra que Deus existe. Mas eu preciso deixar claro que é muito embaraçoso para Dawkins, cujo mundo parece estar moldado pelo pressuposto fundamental de que a fé é ruim para você

– uma visão que é insustentável à luz da evidência.

A religião é ruim para você? Onde está a evidência disso? Isto agora paira no ar como uma nuvem de fumaça, sendo gradualmente dispersa pela força das evidências contrárias.

Para Dawkins, o problema é simples: a questão é “você valoriza a saúde ou a verdade”. Como a religião é falsa, uma das crenças centrais inatacáveis que se repetem ao longo de seus artigos, é que seria imoral acreditar, seja qual for benefícios que ela pode trazer. No entanto, os argumentos de Dawkins que a crença em Deus é falsa, simplesmente não se sustentam. É provavelmente por isso que ele os complemente com o argumento adicional de que a religião é ruim para você. O crescente grupo de evidências de que a religião realmente promove o bem-estar humano é altamente constrangedor para ele. Pois isso não só subverte um argumento funcional crítico para o ateísmo como também começa a levantar algumas questões muito preocupantes sobre a sua verdade também.

Conclusão

Neste artigo, eu abordei as principais críticas que Richard Dawkins faz contra a religião em geral, e o Cristianismo em particular. Eu não consegui definir nem os argumentos de Dawkins, nem as minhas respostas na íntegra, na esperança de que meus breves esboços irão ajudar os leitores a ter uma ideia das questões envolvidas. A minha conclusão é simples e creio eu, incontroversa. Dawkins só é capaz de argumentar que as ciências naturais levam ao ateísmo por uma extensão ilegítima do método científico, que não têm um peso dentro da comunidade científica. Contraste isso com a visão de Sir Peter Medawar, que ganhou o Prêmio Nobel de Medicina, há alguns anos: “A existência de um limite para a ciência fica clara, no entanto, pela sua incapacidade de responder às perguntas elementares infantis que têm a ver com o início e o final das coisas – perguntas do tipo: “Como tudo começou?”; “Porque estamos todos aqui?”; “Qual é o sentido da vida?”. 9 O princípio da sabedoria científica, eu diria, está no reconhecimento informado e respeitoso dos seus limites.

A realidade é que as ciências naturais são intelectualmente maleáveis, abertas a serem interpretadas de formas teístas, agnósticas ou ateístas. O grande debate entre o ateísmo e o teísmo não é e não pode ser resolvido pelas ciências naturais. Dawkins representa uma forma “interpretar” a natureza. Mas há outras maneiras de “interpretar” o mundo natural. A maneira que eu descobri há muitos anos, e que eu continuo a achar intelectualmente robusta e espiritualmente enriquecedora, é esta:

“Os céus declaram a glória de Deus” (Sl. 19: 1).

 

REFERÊNCIAS:

  1. McGrath, A.E. Dawkins’ God: Genes, Memes and the Meaning of Life, Oxford: Blackwell (2004).
  2. Dawkins, R. River out of Eden: A Darwinian View of Life, London: Phoenix (1995), p. 133.
  3. Gould, S.J. ‘Impeaching a Self-Appointed Judge’, Scientific American (1992) 267(1), 118-21.
  4. Dawkins, R. The Selfish Gene, 2nd edn., Oxford: Oxford University Press (1989), p. 198.
  5. For some reflections, see McGrath, A. The Twilight of Atheism, London: Rider (2004).
  6. Griffiths-Thomas, W. H. The Principles of Theology, London: Longmans, Green & Co (1930), p. xviii.
  7. Dawkins, R. A Devil’s Chaplain, London: Weidenfield & Nicolson (2003), p. 121.
  8. Koenig, H.G., and Cohen, H.J. The Link between Religion and Health : Psychoneuroimmunology and the Faith Factor, Oxford: Oxford University Press (2001), p. 101. For other works of relevance to this critically important point, see Miller, W. R., and Thoreson, C.E. ‘Spirituality, Religion and Health: An Emerging Research Field’, American Psychologist (2003) 58, 24-35; Galanter, M. Spirituality and the Healthy Mind: Science, Therapy, and the Need for Personal Meaning, Oxford: Oxford University Press (2005).
  9. Medawar, P. Advice to a Young Scientist, London, Harper and Row (1979), p. 31; The Limits of Science, Oxford: Oxford University Press (1984), p. 66.

 

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