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A Bíblia, a ciência e as origens humanas – Parte 02

A Bíblia, a ciência e as origens humanas

ERNEST C. LUCAS, DENIS R. ALEXANDER, R.J. (SAM) BERRY, G. ANDREW D. BRIGGS, COLIN J. HUMPHREYS, MALCOLM A. JEEVES, ANTHONY C. THISELTON

Science & Christian Belief 

 

  1. A história de Adão no Novo Testamento

Adão é mencionado em cinco lugares no NT. Seu nome aparece na genealogia de Lucas (Lucas 3.38) e em Judas 14. O pecado de Adão e Eva é mencionado em 1 Timóteo 2.13-14. Em Romanos 5 e 1 Coríntios 15, Paulo traça um paralelo entre Adão e Cristo. Teologicamente, as passagens mais importantes são Romanos 5 e 1 Coríntios 15. Visto que 1 Coríntios foi escrito (cerca de 53/4 d.C.) antes de Romanos (cerca de 56/7 d.C.), vamos considerá-lo primeiro.

 

4.1 1 Corinthians 15.21-22, 42-49

Aqui Paulo aborda o problema em que alguns na igreja de Corinto negavam a possibilidade da ressurreição do corpo (v. 12). Isso surgiu de seu contexto cultural. Um forte dualismo corpo/alma permeava o pensamento grego. A matéria era considerada “má” e a raiz dos problemas humanos é que somos almas imortais, imateriais, presas em um corpo material. O objetivo da salvação era escapar do corpo. A ideia de salvação levando à ressurreição corporal era inaceitável.

Paulo estava impregnado pelo entendimento do AT sobre a personalidade humana. O consenso dos estudiosos do AT é que “a ideia hebraica de personalidade é a de um corpo animado, e não (como a ideia grega) de uma alma encarnada”.[1] Essa é uma compreensão holística, não dualista. Um resultado significativo dessa visão holística da pessoa humana na Bíblia é que a existência futura após a morte é enquadrada em termos de um corpo ressurreto e não de uma alma desencarnada.

Paulo começa dando evidências para a ressurreição corporal de Jesus, listando aqueles que viram o Jesus ressuscitado (vv. 3-11). A esperança cristã de salvação eterna repousa nisso. Todos os que morreram “em Cristo” ressuscitarão dos mortos como ele o fez (vv. 12-19). Neste ponto, ele introduz Adão e faz um contraste entre aqueles “em Adão” e aqueles “em Cristo” (vv. 21-22):

Visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos. Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo.

Isso acontecerá no final dos tempos quando o senhorio de Cristo sobre toda a criação será manifesto e ele entregará o reino a Deus, o Pai (vv. 23-28). Paulo então lida com a questão da natureza do corpo na ressurreição. Há continuidade e descontinuidade entre eles, como a que existe entre uma semente e a planta que ela produz. Ele então diz (vv. 42, 44):

O corpo que é semeado é perecível e ressuscita imperecível (…) é semeado um corpo natural e ressuscita um corpo espiritual. (NVI)[2]

O contraste que Paulo faz aqui entre um corpo psuchikos (natural) e um corpo pneumatikos (espiritual) indica que sua ênfase está no que habilita os dois corpos.[3] Isto é apoiado por sua citação no v. 45 de Gênesis 2.7 na tradução da Septuaginta:

“O primeiro homem, Adão, se tornou um ser vivente.” Mas o último Adão é espírito vivificante.

Depois que Deus soprou em Adão “o sopro da vida”, ele se tornou um ser vivo (psuchē). No entanto, Paulo disse que o “corpo natural” é perecível, desonroso e fraco (vv. 42-3). Ele prossegue dizendo (vv. 47-48):

O primeiro homem, formado do pó da terra, é terreno; o segundo homem é do céu.  Como foi o homem terreno, assim também são os demais que são feitos do pó da terra; e, como é o homem celestial, assim também são os celestiais.

Isso sugere que a natureza perecível do “corpo natural” resulta do fato de que é uma poeira terrena animada, e que Paulo está falando aqui da morte física. Não há menção da Queda ou de pecado. Paulo nunca diz explicitamente que a morte física é um resultado da Queda. O que ele diz é que a morte física decorre do fato de que os seres humanos são feitos de material perecível, o pó da terra. Héring[4] comenta: “O caráter terreno [dos humanos] não é, portanto, um efeito da Queda. É inerente à criação.” É o estado de todos os que estão “em Adão”. Após a morte, o corpo material retorna ao pó. O que teria acontecido se os humanos não tivessem pecado e se tornado alienados de Deus, a fonte da vida? Nós não sabemos. Uma das razões pelas quais “O aguilhão da morte é o pecado” (v. 56) é que o pecado é que afasta os humanos da fonte da vida – representado em Gênesis 3 pelo impedimento de acesso à Árvore da Vida. Outra razão, claro, é o julgamento pelo pecado que está além da morte física. O importante é que, através da ressurreição de Cristo, para aqueles “em Cristo”, a morte física não é o fim, mas o prelúdio da ressurreição corporal para a imortalidade (vv. 50-57).

 

4.2 Romanos 5.12-21[5]

Em Romanos 5.1-11, Paulo expõe a surpreendente verdade de que temos paz com Deus porque Deus provou seu amor por nós enviando a Cristo para morrer por nós “enquanto ainda éramos pecadores” (v. 8). Como resultado, estamos reconciliados com Deus. De onde veio o pecado? Paulo diz que foi por causa do pecado de Adão.

Em Romanos 5.12-21, Paulo desenvolve uma “tipologia” (v. 14) ou paralelo entre Adão e Cristo para explicar como a ação de Cristo neutraliza o pecado de Adão. Existem complexidades na estrutura e na gramática desta seção. Paulo começa seu paralelo entre Adão e Cristo no versículo 12, mas termina no meio da frase no final do versículo para acrescentar uma explicação do que ele acabou de dizer (vv. 13-14), seguido por uma seção enfatizando a diferença entre Adão e Cristo (vv. 15-17). Ele mostra que, “à parte do único ponto de semelhança formal entre a relação de Cristo com todos os homens e a relação de Adão com todos os homens, eles se opõem em absoluta desigualdade”.[6] No versículo 18a, ele reafirma o que disse no verso 12 e então continua com sua linha de pensamento original – que assim como a desobediência de Adão trouxe condenação a todos os humanos, a obediência de Cristo abriu o caminho para todos os humanos terem um relacionamento correto com Deus, para conhecer a paz com Deus. Isso vem como uma dádiva da graça de Deus. A razão para essa estrutura complexa parece ser a preocupação de Paulo em deixar claro nos vv. 13-17 que a analogia que ele está prestes a traçar entre Adão e Cristo nos vv. 18-19 não implica que eles sejam, de forma alguma, iguais.

No verso 12, Paulo afirma que o pecado e a morte vieram ao mundo (kosmos) através de Adão. Aqui, “mundo” significa “humanidade em geral”, um significado de kosmos bem estabelecido no grego dos dias de Paulo.[7] A frase grega no final do v. 12, geralmente traduzida agora como “porque todos pecaram”[8] provocou uma grande discussão que nós não podemos detalhar aqui.[9] Por causa de como esta frase foi traduzida para o latim na Vulgata, Santo Agostinho de Hipona a entendeu como “em quem (i.e. Adão) todos pecaram”. Com base nisso, ele desenvolveu a ideia de que o pecado é transmitido a todos os seres humanos por meio da descendência física de Adão. Atualmente é amplamente aceito que “em quem todos pecaram” não é um entendimento válido da frase grega. Há um debate sobre o significado do v. 12b, mas o significado mais provável no contexto dos vv. 12-21 é que, por causa do pecado de Adão, todos os seres humanos têm uma natureza corrompida, o que significa que todos cometem atos pecaminosos genuínos (Rm 3.23) e, portanto, morrem.

Dois pontos significativos decorrem dessa interpretação do v. 12. O primeiro é que a morte que veio ao mundo por causa do pecado de Adão foi a morte para os seres humanos – aqueles que pecam. Isto é repetido no v. 18, “uma só transgressão resultou na condenação de todos os homens”, e apoiado pelo paralelo com Cristo, cujo “ato de justiça resultou na justificação que traz vida a todos os homens” (Rm 5.18). Não há indício aqui do pecado de Adão trazendo a morte ao mundo não humano. De fato, não há indício em nenhum outro lugar da Bíblia de que esse fosse o caso. Em Gênesis 1, há morte de plantas antes da Queda, uma vez que as plantas são fornecidas para animais e humanos comerem. Nada na Bíblia indica que não houve morte de animais antes da Queda.

Em segundo lugar, Paulo não diz que todos morrem simplesmente porque Adão pecou, ​​mas porque cada pessoa peca, e isso resulta em sua morte. Paulo não diz aqui, ou em outro lugar, como é que, como resultado do pecado de Adão, todos os seres humanos têm uma propensão a pecar e, de fato, pecam. Ele não diz explicitamente que é porque todos somos fisicamente descendentes de Adão. À luz do paralelo com a vida (v. 18), que vem como uma dádiva concedida por Deus, e não como resultado de qualquer conexão física com Cristo, talvez ele pense que o pecado humano e a morte humana são o resultado da condenação de Deus (uma espécie de dádiva ‘negativa’) e não o resultado da conexão física com Adão.

De que tipo de morte Paulo está falando? Como já foi dito, na Bíblia, “morte” pode significar “morte física” ou “morte espiritual”. Não há dúvida de que a “vida” de que Paulo está falando em Romanos 5 é a vida espiritual (v. 21 refere-se à “vida eterna”). Em 1 Coríntios 15.47-49, escrito antes de Romanos, Paulo associa a morte física dos seres humanos à nossa criação a partir do pó da terra, e não à Queda. Portanto, é provável que aqui ele esteja pensando em “morte” primariamente como morte espiritual, separação de Deus, embora o pecado dê à morte física um “ferrão” particular, como ele diz em 1 Coríntios 15.55-56.

 

4.3 Um Adão histórico?

Costuma-se supor que Jesus e Paulo devem ter pensado em Adão como uma figura histórica. Eles podem ter pensado, mas como mencionado acima, pelo menos alguns judeus eruditos da época entenderam Gênesis 2 e 3 figurativamente. Talvez Paulo estivesse nessa tradição. Portanto, devemos olhar com cuidado o que ele escreveu para tentar discernir exatamente qual era sua visão.

Alguns comentaristas afirmam que, em 1 Coríntios 15, Adão e Cristo são tratados como figuras representativas. Barrett[10] diz: “Nenhum dos dois homens que ele [Paulo] mencionou era simplesmente um indivíduo. Cada um era um Adão, um representante humano”. Seria fácil para quem pensasse em hebraico, como Paulo, pensar em Adão como uma figura representativa. A palavra ’ādām em hebraico é normalmente usada como um substantivo que significa “homem/ser humano”. Está relacionado com o substantivo ’ādāmāh, que significa “solo/terra”. Há claramente um jogo com isso em Gênesis 2.7. O hebraico tem outra palavra comum que significa “homem/masculino/marido”. Em Gênesis 2-3 ’ādām é usado, com três possíveis exceções, com o artigo definido (hā’ādām), que nunca é usado com nomes em hebraico, e assim deve ser traduzido “o homem”. Gênesis 2.20; 3.17,21 são ambíguos, mas provavelmente também se referem a “o homem”. Apenas em Gênesis 4.25 é claramente usado sem o artigo definido, e assim, como um nome. No entanto, como observado anteriormente, mesmo nas genealogias em Gênesis 5 e 10, não é necessariamente o caso de os nomes representarem indivíduos.

Isto levanta alguma incerteza sobre como ver a clara representação de Adão como um marido e pai em Gênesis 4. Poderia ser uma história figurada sobre a propagação do pecado nas comunidades humanas? Em 1 Coríntios 15.45, Paulo cita Gênesis 2.7 a partir da Septuaginta, onde traduz hā’ādām como “o homem”. Ele de fato acrescenta o nome “Adão”, mas como Barrett argumenta, isso pode ser principalmente para efeito retórico, já que ele precisava de um nome para contrabalançar com “Cristo”, que ele usou frequentemente até este ponto. É claro que Cristo era um indivíduo histórico, então Paulo também poderia ter pensado em Adão dessa maneira. No entanto, é importante notar que seu argumento teológico não depende realmente disso. Ele está comparando duas “humanidades” em vez de apenas dois indivíduos – uma humanidade terrena e perecível e uma humanidade espiritual e imperecível. Walton argumenta que Paulo está usando Adão e Cristo como figuras representativas em 1 Coríntios 15, e que eles são “arquétipos”. Ele diz: ‘Como todos nós morremos “em Adão” do mesmo jeito em que todos somos vivificados “em Cristo”, podemos presumir que nossas circunstâncias em ambos os casos não são determinadas pela descendência biológica, mas através da representatividade dos arquétipos, Adão e Cristo.’[11]

A maioria dos comentaristas acreditam que em Romanos 5 Paulo está tratando Adão como um indivíduo histórico. Uma razão comum para isso é recorrer ao paralelo Adão/Cristo, já que para Paulo, Cristo foi claramente um indivíduo histórico, e ao uso frequente de “um homem” (9x) junto com “uma transgressão (2x) e um ato de justiça” nos vv. 12-19. Assim, Morris[12] diz: “Este único homem, e de fato um único ato pecaminoso desse homem, é muito importante e constitui a base de toda a discussão. Doze vezes nos versículos 12-19 temos a palavra um; repetidamente.” Entretanto, ele havia qualificado isso anteriormente, dizendo: “O argumento é muito condensado, e em todas as traduções e comentários devemos permitir que o significado de Paulo possa, em algum momento, ser diferente do que pensamos. Mas não devemos exagerar nisso.” Pode ser que nossa mentalidade ocidental racionalista não compreenda Paulo. Em seu estudo da teologia paulina, Dunn[13] tenta estabelecer o entendimento de Paulo sobre Adão no contexto do pensamento judaico de seus dias. Ele acha claro que, para Paulo, em Romanos 5 Adão signifique humanidade. Ele então diz:

Se Paulo também pensou em Adão como um indivíduo histórico e em um ato histórico de desobediência é menos claro. Fílon deveria nos fazer lembrar que os antigos estavam mais atentos à diversidade de gêneros literários do que geralmente lhes damos crédito. E o próximo uso da história de Adão por Paulo (Rm 7.7-11) é notavelmente semelhante a 2 Baruque 54.19, ao usar Adão como o arquétipo de “todo homem”.

A questão mais importante é se o ponto teológico de Paulo permanece ou cai com a existência de um Adão histórico. Alguns, como Stott, acham que sim, “Que Adão e Eva fossem pessoas literais parece claro em Romanos 5:12-21, onde Paulo traça um contraste intencional entre a desobediência de Adão através da qual o pecado e a morte entraram no mundo e a obediência de Cristo que assegurou a salvação e a vida. A analogia não tem sentido se o ato de desobediência de Adão não fosse um evento tão histórico quanto o ato de obediência de Cristo.”[14] Outros, como Dunn, discordam,

O ponto teológico de Paulo [em Rm 5] não depende de Adão ser um indivíduo “histórico” ou de sua desobediência ser um evento histórico como tal. Tal implicação não decorre necessariamente do fato de que um paralelo é desenhado a partir do ato único de Cristo: um ato de história mítica pode ser paralelo a um ato de história viva sem que o ponto de comparação seja perdido (…) O efeito da comparação entre Adão e Cristo não é tanto para tornar histórico o Adão original, mas para ressaltar o significado individual do Cristo histórico.[15]

Aqui é relevante voltar ao ponto de Walton de que Deus poderia transmitir aos antigos hebreus a mensagem teológica que ele pretendia usando a visão de mundo cosmológica deles. Se assim fosse, o mesmo não poderia ser verdade em relação a Paulo? De fato, vemos exatamente isso acontecendo em uma das mais profundas passagens cristológicas do NT, em Filipenses 2.6-11. No v. 10, o senhorio de Cristo sobre o cosmos é expresso em termos da geografia cosmológica helenística popular: “ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra.” Aqui, o cosmos é visualizado como tendo três níveis: o céu acima da cúpula celeste, a terra plana sob essa cúpula e o submundo abaixo da terra. Paulo aceita a visão de três camadas do universo que era a visão de mundo comum de seus dias, mas Deus revela uma profunda teologia usando-a. Levar em conta o contexto cultural é tão necessário no NT quanto no AT. Se Paulo de fato acreditava em um Adão histórico, por que Deus não poderia revelar uma teologia profunda expressa em tais termos, mesmo que fosse apenas a antropologia popular da época? A antropologia popular não é uma barreira maior do que a cosmologia popular para Deus comunicar sua palavra.

 

  1. A Bíblia e a ciência

Se o objetivo principal da Bíblia é transmitir verdades teológicas em vez de informações científicas, como devemos relacionar a história científica das origens humanas à história bíblica? Mackay dá um sábio conselho sobre isso:[16]

Quero sugerir que a principal função da investigação científica (…) não é verificar nem adicionar à imagem inspirada, mas ajudar-nos a eliminar maneiras impróprias de lê-la. Para seguir a metáfora, eu acho que os dados científicos que Deus nos dá às vezes podem servir como um modo dele nos alertar quando estamos muito perto da imagem, ou no ângulo errado, ou com as expectativas erradas, para podermos ver o padrão inspirado que ele pretende nos transmitir.

Se as tentativas de ler informações históricas, cronológicas e científicas sobre as origens humanas a partir da Bíblia levarem a um choque com o entendimento científico comumente aceito, a resposta correta não é rejeitar a ciência, nem tentar fazer com que Gênesis ou Paulo “se encaixem” na ciência com interpretações tortuosas, mas aceitar que tais abordagens do texto são impróprias. Esta é uma aplicação válida da informação de fora da Bíblia para nos ajudar a interpretá-la corretamente. Voltamos a Calvino: se você quer aprender astronomia, cosmologia, antropologia ou outros tipos de ciência, vá para outro lugar. A maneira correta de relacionar as informações da Bíblia à história científica é considerar como essa história pode ser entendida à luz das verdades teológicas afirmadas na Bíblia.

 

5.1 Humanos e a imagem de Deus

Segundo a Bíblia, os humanos são uma criação proposital de Deus. Seu papel é ser a imagem de Deus na Terra, representantes de Deus que cuidariam e desenvolveriam a criação de Deus enquanto vivenciam um relacionamento de dependência e comunhão com o seu Criador. Nada na história bíblica implica que os seres humanos foram trazidos à existência de uma maneira diferente das outras criaturas. Como a aparência dos seres humanos como imagem de seu Criador está relacionada com a explicação evolutiva do aparecimento do Homo sapiens? Para começar, é importante fazer uma distinção entre a definição bíblica e teológica de “humano” e a definição científica. Para isso, algumas pessoas consideram ser útil falar de “humano” no sentido bíblico como Homo divinus.[17] Outros fazem uma distinção entre o processo de “hominização” e “humanização”.[18] Como discutido acima, ser feito à imagem Deus refere-se a aspectos da pessoa humana que não podem ser procurados por paleontólogos em representantes fósseis do gênero Homo. Mas podem ser encontrados por paleo-antropólogos que estudam evidências de culturas humanas primitivas, em particular evidências de atividade religiosa.

Há muito debate sobre se tais evidências de sepultamentos intencionais com artefatos funerários ou pinturas rupestres[19] são evidências de um sentimento espiritual, ou mesmo religião.[20] A evidência mais firme de espiritualidade ou religião é a separação de espaços para atividades de adoração. A evidência mais antiga disso eram quartos na cidade Neolítica Çatal Hüyük no leste da Turquia, que foi ocupada de 7.500 a 5.700 a.C. Sua configuração e conteúdo sugerem que eles foram usados ​​para o culto comunitário, não como espaços de convivência. Existem agora evidências anteriores em Göbekli Tepe, no sudeste da Turquia, onde foram escavados seis recintos, variando por volta de 9.400 a 8.200 a.C. em datação de carbono-14. Suas paredes têm pedras monumentais inseridas e há duas pedras independentes no meio. Figuras humanas e animais lindamente esculpidos aparecem em algumas pedras. Há evidências de que eles tinham um forro interno. Pode haver um total de cerca de vinte recintos no sítio. Nenhum assentamento contemporâneo é conhecido em qualquer lugar próximo. As pessoas devem ter viajado para se reunir nesse lugar e não podemos ter certeza de por que o fizeram,[21] mas à luz da estrutura e do conteúdo dos recintos, é provável que se tratasse de algum tipo de culto ou complexo cerimonial. É claro que não sabemos quem ou o que foi adorado ou que tipo de relacionamento as pessoas tinham com a divindade. Sua data coincide, ou vem logo antes do alvorecer da era neolítica.

Enquanto se pensava que a formação de comunidades assentadas precedia o surgimento de atividades de culto comunal, Göbekli Tepe leva alguns a argumentar que grandes encontros sazonais para adoração em um local como este podem ter impulsionado a formação de assentamentos.[22] Alguns estudiosos colocam a história de Adão e Eva no período neolítico por causa da cultura representada em Gênesis 4. 17-22.[23] No entanto, se essa literatura for figurada, deve-se ter cautela nisso. Israel tornou-se uma nação na Idade do Bronze. Seria natural que eles colocassem seus antepassados ​​originais na era anterior ao uso do bronze. É questionável se alguém pode ler algo mais específico do que isso em Gênesis 4.

Como discutido acima, atualmente há um debate sobre se o processo de transição de hominídeo para humano foi gradual ou envolveu um “salto quântico” (ou ‘saltos’). Esta não é uma questão teologicamente importante. De qualquer forma, Deus usou um processo que ele criou e mantém para trazer à existência seres capazes de ser imagem de Deus e ter um relacionamento pessoal com o seu Criador. O importante no relato bíblico é que os humanos não “descobrem” Deus, mas que Deus toma a iniciativa de se dar a conhecer às criaturas humanas uma vez que elas tivessem a capacidade de conhecer a Deus e responder a Ele. Eles então têm a escolha de viver ou não em obediência a Deus.

 

5.2 A Queda, o pecado e a morte

A Bíblia afirma que tanto o pecado quanto a morte (física e/ou espiritual) entraram no mundo da sociedade humana como resultado da escolha dos humanos de desobedecerem a Deus. Nada na Bíblia afirma que a morte física de criaturas não humanas seja um resultado desta Queda. Existem fundamentos exegéticos para concluir que a “morte” para os humanos após a queda é “morte espiritual”, separação de Deus. A ruptura do relacionamento com Deus afeta todos os outros relacionamentos humanos e, portanto, tem implicações para o resto da criação no planeta Terra, mas nada na Bíblia apoia a ideia de uma “queda cósmica” de toda a criação não humana decorrente da Queda do homem.[24] Em Romanos 5, Paulo afirma que, como resultado da Queda, o pecado se espalhou para todos os seres humanos, de modo que todos de fato pecam, mas ele não diz como isso aconteceu.

Como a teologia bíblica da Queda pode ser relacionada à evidência científica que exclui a possibilidade de que todos os humanos de hoje possam ser os descendentes genéticos de um único casal e estabelece que a morte física sempre fez parte da experiência humana? O último ponto é resolvido se a morte que se segue à queda é a morte espiritual. O primeiro ponto exclui a transmissão do pecado por procriação e descendência física. Vários “modelos” têm sido propostos como formas de relacionar a história bíblica da Queda e sua teologia à história científica das origens humanas.[25] Ao propor modelos, não estamos adotando uma abordagem que às vezes é chamada de “concordismo”, a tentativa de impor significados científicos em textos teológicos. O propósito de “modelos” no sentido usado aqui é bem diferente. É uma maneira de abrir uma conversa entre a teologia e a ciência que permaneça fiel a ambas as narrativas para ver como as duas disciplinas – e ambas fazem uso de modelos[26], podem se informar mutuamente. Aqui vamos delinear apenas dois modelos possíveis.

O primeiro assume a posição de que, tanto em Gênesis quanto em Paulo, temos um relato teológico da realidade espiritual a respeito do estado pecaminoso da humanidade que exigiu o plano de redenção de Deus e a morte expiatória de Jesus. Essa verdade é expressa em termos das visões de mundo da cultura dos escritores. Talvez porque Paulo esteja mais próximo de nós no tempo e na cultura, estamos propensos a ignorar sua imersão cultural, mas não devemos fazer isso. Devemos aceitar que Deus escolheu tornar essa verdade teológica conhecida através das formas de pensamento culturalmente influenciadas desses escritores. Não podemos retomar a história conforme contada no Gênesis e por Paulo para encontrar algum evento histórico e explicação científica. Alguns podem levantar a questão: “Como podemos saber se a teologia é verdadeira se não podemos arraigá-la em um evento histórico real?” A resposta é igual a resposta à pergunta: “Como podemos acreditar nas verdades teológicas expressas nas parábolas de Jesus quando não podemos ter certeza de que um evento histórico real está por trás delas (por exemplo, as parábolas do Semeador, do Filho Pródigo, do Bom Samaritano)?” Aceitamos a verdade da teologia com base na autoridade de quem conta a história, Jesus. Aceitamos a verdade teológica de Gênesis 2-3 com base na autoridade do narrador último da história, Deus, que inspirou os autores humanos a escreverem a história. Que Deus tenha os inspirado a escrevê-la como uma história figurativa revestida de suas próprias cosmovisões culturais é a prerrogativa de Deus e se encaixa com o “princípio da encarnação” geral que Deus usa em toda a Escritura e supremamente em Cristo.

O outro modelo assume que algum evento histórico está por trás da história em Gênesis 2-3. Traz alguns paralelos entre o que Paulo diz sobre Adão em Romanos 5 e o que ele diz sobre Abraão em Romanos 4 e Gálatas 3. Paulo é capaz de falar de cristãos gentios como “descendentes de Abraão” (Gl 3.7) e de Abraão como “o ancestral de todos os que creem sem serem circuncidados” (Rm 4.11) porque todos aqueles que têm fé na promessa de Deus, como Abraão teve, são espiritualmente “incorporados” na família de Abraão por um ato gracioso de Deus. Em Romanos 5, o que Adão faz se propaga para todos os seres humanos e o que Cristo faz se propaga para todos os que depositam sua fé nele. Não é necessário que as pessoas estejam geneticamente relacionadas a Cristo para receberem os benefícios de sua obediência. Elas os recebem como uma dádiva da graça de Deus. Talvez a propagação do pecado como resultado da desobediência de Adão e Eva tenha sido uma dádiva “negativa” de Deus para todos os seres humanos. Isso tem sido chamado de modelo de “Representação Federal” de Adão e Eva[27]. Novamente, algum paralelo pode ser traçado com Abraão. Assim como Deus escolheu Abraão e Sara para serem os representantes de um novo povo através do qual, finalmente, o Salvador viria, Deus, em algum momento da história, escolheu Adão e Eva, um casal histórico real, para serem os representantes de uma nova raça espiritual, Homo divinus. Deus escolheu fazer com que o modo como eles respondessem a esta escolha fosse determinante de como Ele então se relacionaria com todos os outros membros “espiritualmente capazes” do gênero Homo que estavam vivos naquele tempo. Por causa da desobediência de Adão e Eva, eles também se tornaram Homo divinus “caídos” porque entraram em um relacionamento de desobediência com seu Criador. Pode parecer haver uma medida de injustiça nisso, já que não foi culpa desses outros membros do gênero Homo que Adão e Eva pecaram. Nós teríamos que admitir que às vezes as ações de Deus são misteriosas para nós – como foi a escolha de Abraão e sua família, em vez de alguma outra família, para receber as incríveis promessas que Deus fez a Abraão. Temos que compartilhar a fé de Abraão: “o Juiz de toda a terra não faria justiça?” (Gn 18.25) mesmo que não possamos entender a justiça de um ato particular de Deus. Todos os humanos têm a possibilidade de redenção através da morte expiatória de Jesus.

Alguns podem ver esses dois modelos como estando nas extremidades de um espectro de possibilidades e serem mutuamente incompatíveis. Esta decisão é aquela que provavelmente será feita por razões hermenêuticas. Se a história bíblica é vista como figurativa e expressa na visão de mundo dos tempos bíblicos, pode-se argumentar que é ilegítimo, e provavelmente inútil, tentar relacioná-la diretamente à história científica, porque não era assim que Deus pretendia que a história fosse lida e isso poderia distorcer a teologia. Se for considerado um relato histórico, talvez com base em Romanos 5, então considerá-lo de alguma forma como figurativo comprometeria sua historicidade. Esse seria o caso especialmente se pensarmos que a teologia depende da historicidade dos eventos relatados. No entanto, neste caso, a interpretação do significado teológico da história é provavelmente muito semelhante àquela obtida pela outra abordagem. Outros podem ver os dois “modelos” como complementares, pelo menos no sentido de que o significado teológico obtido pela primeira abordagem fornece uma estrutura teológica, ou lente, através da qual se pode ver a história científica e fazer perguntas como: “Em que ponto os humanos se tornaram responsáveis ​​perante Deus por suas ações?”, e “O que significa ser criado à imagem de Deus?”

Existem outros modelos possíveis, que, como esses, são seguramente compatíveis com a teologia bíblica das origens humanas e com as evidências científicas atuais. O importante é que tais modelos são possíveis. Dado o estado atual da evidência científica, é simplesmente impossível dizer atualmente qual, se é que algum deles, está correto.

 

 

 

Autores:

Denis R. Alexander, Diretor do The Faraday Institute for Science and Religion, St. Edmund’s College, Cambridge, 2006-2012. É autor de Criação ou Evolução: Precisamos Escolher? (Ultimato, 2017).

J. (Sam) Berry, FRSE, Professor de Genética, University College London 1978-2000. É organizador de Verdadeiros Cientistas, Fé Verdadeira (Ultimato, 2016).

Andrew D. Briggs, Professor de Nanomateriais, University of Oxford. É um dos autores de A Penúltima Curiosidade: Como a ciência navega nas questões últimas da existência (Ultimato, 2018).

Colin J. Humphreys, FRS, FREng, Professor de Ciência de Materiais e Diretor de Pesquisa, University of Cambridge.

Malcolm A. Jeeves, FMedSci, PPRSE, Professor de Psicologia, University of St. Andrews, 1969-1993. É autor de Mentes, Cérebros, Almas e Deuses (Ultimato, 2016).

Ernest C. Lucas, Vice-Diretor e Tutor em Estudos Bíblicos, Bristol Baptist College, 1994-2012. É autor de Gênesis Hoje (ABU Editora, 2005).

Anthony C. Thiselton, FBA, Teólogo e Chefe do Departmento de Teologia, University of Nottingham, 1992-2002.

 

[1] Robinson, H.W. The Christian Doctrine of Man, Edinburgh: T. & T. Clark (1918), p. 27.

[2] Sobre a preferência da tradução da NVI “corpo natural” em vez de “corpo físico”, presente em algumas traduções, ver: Thiselton, A.C. The First Epistle to the Corinthians, NIGTC, Carlisle: Paternoster (2000), p. 1275.

[3] Wright, N.T. The Resurrection of the Son of God, Minneapolis, MN: Fortress (2003), p. 352.

[4] Héring, J. The First Epistle of Saint Paul to the Corinthians, Heathcote, A.W. & Allcock, P.J. (trad.), London: Epworth (1962), p. 179.

[5] Para uma discussão detalhada, mas concisa, desta passagem, ver Thiselton, A.C. Discovering Romans, SPCK (2016), cap. 13.

[6] Cranfield, C.E.B. A Critical and Exegetical Commentary on the Epistle to the Romans, vol. 1, ICC, Edinburgh: T. & T. Clark (1975), p. 288.

[7] BDAG, p. 562.

[8] N.T.: No inglês: ‘because all (have) sinned’.

[9] Para uma pesquisa, ver Cranfield op. cit., (40), pp. 274-281.

[10] Barrett, C.K. The First Epistle to the Corinthians, BNTC, London: A. & C. Black (1971) (2nd edn.), p. 376.

[11] Walton, J.H. ‘A historical Adam: archetypal creation view’ in Barrett, M. & Caneday, A.B. (eds.), Four Views of the Historical Adam, Grand Rapids: Zondervan (2013), p. 106.

[12] Morris, L. The Epistle to the Romans, Grand Rapids, MI: Eerdmans (1988), pp. 228- 229.

[13] Dunn, J.D.G. The Theology of Paul the Apostle, Edinburgh: T. & T. Clark (1998), p. 94. Dunn provides evidence of a semi-allegorical Jewish reading of Gen. 2-3, which he argues lies behind Rom. 7:7-11.

[14] Stott, J.R.W. Understanding the Bible, London: SU (1972), p. 163.

[15] Dunn, J.D.G. Romans 1-8, WBC, Dallas: Word (1988), pp. 272, 290.

[16] Mackay, D.M. The Open Mind and other essays, Leicester: IVP (1988), pp. 151-152.

[17] Este termo foi criado por Stott op. cit., (47), p. 63.

[18] Por exemplo, L. E. Polo citado em Suarez, A. ‘Can we give up the origin of humanity from a primal couple without giving up the teaching of original sin and atonement?’, Science & Christian Belief (2015) 27, 59-83, n. 20.

[19] Wagner, R. & Briggs, A. The Penultimate Curiosity: Science Swims in the Slipstream of Ultimate Questions, Oxford: Oxford University Press (2016), pp. 3-64.

[20] van Huyssteen, J.W. Alone in the World?, Grand Rapids, MI:Eerdmans (2006).

[21] Ver a avaliação cautelosa de tais sites por Renfrew, C. ‘Personhood: toward a gradualist approach’ em Jeeves op. cit., (5), pp. 51-67.

[22] Witherington III, B. ‘In the beginning…: religion at the dawn of civilization’, Biblical Archaeology Review (2013) 39, 57-60.

[23] Talvez o primeiro a fazer isso foi Pearce, E.K.V. Who was Adam?, Exeter: Paternoster (1969).

[24] Bimson, J.J. ‘Reconsidering a cosmic Fall’, Science & Christian Belief (2006) 18, 63-81.

[25] Ver e.g. Alexander op, cit., (7) pp. 282-304; Suarez, op. cit., (51) 59-83.

[26] Ver Jeeves, M.A. The Scientific Enterprise and Christian Faith, London: Tyndale Press (1969), cap. 4.

[27] Kidner, D. Genesis, TOTC, London: Tyndale Press (1967), pp. 29-30.

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