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Uma palavra sincera de um professor aos seus alunos de engenharia

Uma palavra sincera de um professor aos seus alunos de engenharia

A nave Voyager em 1990 durante missão do antigo programa espacial americano de explorar o sistema solar, particularmente Júpiter, Saturno e suas luas, tirou uma foto da Terra a cerca de 6 bilhões de Km. A imagem circulou de novo no WhatsApp há algumas semanas e nela a Terra é, como é de se esperar, algo tremendamente insignificante. A foto ficou conhecida como “o pálido ponto azul”, título que foi depois dado a um dos livros do astrônomo e escritor Carl Sagan.

Adicionalmente, nesta semana recebi um vídeo bem interessante que mostrava relações entre grandes dimensões no universo. É também assustador ver como a Terra some se comparada a grandes planetas ou estrelas e, mais ainda, em meio as grandes distâncias representadas por unidades astronômicas usadas para medir galáxias, por exemplo.

Você pode repetir o raciocínio para a linha do tempo e ver como os anos que nós vivemos aqui, ou mesmo a história de toda a humanidade desaparecem em meio a tempos nas casas dos milhões ou até dos bilhões de anos e que são tipicamente usados para descrever cálculos da astronomia moderna em relação a eventos do nosso planeta ou do próprio universo.

Muito carismático em relação à divulgação científica, Sagan era definido como cético e agnóstico. Quanto à foto do pálido ponto, entre outras coisas, ele comenta num certo tom de humildade: “As nossas exageradas atitudes, a nossa suposta auto-importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são reptadas por este pontinho de luz frouxa”.

Respeito a posição de Sagan, é válida, mas não é a única possível. Talvez as coisas não sejam de fato mais ou menos importantes pelo tamanho que tem ou pelo quanto elas duram. Talvez, ao tirar nossas conclusões convencionais, nós estejamos somente impondo à realidade os nossos próprios parâmetros de avaliação. Nós é quem dizemos de forma absoluta e rígida como se avalia a importância das coisas, o que não me parece muito razoável dada toda essa insignificância. Talvez seja por esse mesmo motivo que vejo muita gente capaz de julgar e condenar a vida, acusando-a abruptamente de injusta ou de cruel. Parece que nos esquecemos de quem somos e nos colocamos o tempo todo na posição do juiz e levamos o nosso senso de justiça a tudo e a todos.

Importante notar que valor, importância ou significado são sempre algo atribuído por alguém. As leis naturais não têm muita coisa a dizer sobre isso pois esses conceitos são resultados de julgamentos normativos, oriundos da atividade humana ou social, não cálculos. Contudo, não acho razoável dizer que são menos reais do que a materialidade. São somente regidos por outras esferas.

Por que então esse papo para engenheiros? Porque, nas palavras do Engenheiro e Professor Maarten Verkerk, a produção tecnológica – resultado central da atividade de engenharia – é simplesmente uma forma de o homem atribuir significado às coisas.

Ao trabalhar materiais e informações, o ser humano atribui novo significado, novo papel e novo valor aos inputs do seu processo. O barro vira uma casa; o plástico, uma boneca; dados brutos, informações cadenciadas; o mato, um jardim. Tudo o que nós criamos tem um significado novo e traz consigo nossas marcas culturais, nossa história, gostos, costumes e juízos.

Vista por este ângulo, a produção tecnológica é uma contínua jornada de ressignificação do mundo; e ela é realizada exatamente por um ser que busca intensamente o seu próprio propósito e significado. Vivemos numa época em que a depressão e problemas relacionados assolam não só o ambiente universitário, mas também os ambientes profissionais em nossa era científico-tecnológica.

Por algum motivo, este “ser criador de coisas” precisa desesperadamente encontrar seu próprio valor e significado. Quando não encontra, ele fica como uma Terra sem história, sem forma e vazia.

Quando nós mesmos nos julgamos como sendo frutos de nenhuma ação intencionada, resultados de um grande acaso na corrida dos espermatozoides, sem um propósito definido ou qualquer importância, não há muito porque lutar, mas antes, melhor seria sucumbir ao caos diante da pressão, competição, cobrança, discriminação, reprovação ou falha.

Aliás, sobre a depressão, Stephen Hawking disse certa vez que “as coisas podem escapar para fora dos buracos negros e possivelmente até para outro universo”. Toda honra à genialidade do Hawking cientista, mas, sinceramente, não sei o quanto pensar assim ajuda ou é algo mais real e sensato somente por ser material.

Temos assim, uma forte necessidade primordial de sermos aceitos e amados. Fazemos tudo por isso, porque é o que nos mantém vivos e dá sentido para o nosso mundo. Mais uma vez: talvez as coisas não sejam de fato mais ou menos importantes pelo tamanho que tem ou pelo quanto elas duram, mas pela marca que elas geram, o quanto mudam a vida, o significado ou a própria percepção de alguém.

Não tenha dúvidas de que você é amável. Independente de sua idade, classe, formação, origem, quanto tempo vai viver, em que país está, o que já aprontou por aí, e o quanto mundo mude ou não por sua ação.

Os motivos e propósitos de cada um de vocês existir são enormes, independente de quantos outros lhes sejam semelhantes ou qual seja a sua história. Eu preciso, e nosso mundo precisa de cada um de vocês em ótima forma para transformar e atribuir significado as nossas famílias, a nossa sociedade, ao nosso país, em qualquer magnitude, extensão ou tempo, mas com todo o seu coração, com toda a sua força e com todo o seu entendimento.

Envolvam-se com atividades realmente cheias de propósito, de valores verdadeiros e imperecíveis. Última coisa – observem o texto do padrão de juramento dos engenheiros. Em especial, tem uma parte lá que fala sobre o brilho excessivo da tecnologia e tem outra que fala sobre estar em paz. Teria muito significado se vocês afirmassem sempre aqueles dizeres com sinceridade e convicção.

 

Raoni Bagno é professor de engenharia e auxilia na liderança do grupo de estudos na UFMG.

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