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Grupo de João Pessoa estuda o livro “A Dança do Universo” de Marcelo Gleiser

Na página 84 do livro “A Dança do Universo” Marcelo Gleiser solta a pérola:

 

“[Na idade média], o único tipo de estudo aceitável era de natureza teológica. Questões pertinentes ao estudo da Natureza eram consideradas não só supérfluas como também perigosas para a salvação da alma. A situação se tornou tão terrível que, por aproximadamente setecentos anos, de 300dC (santo Lactâncio) até o ano 1000 (papa Silvestre II), se acreditava novamente que a terra era plana!”

 

Essa informação está completamente equivocada: durante o período citado por Gleiser, praticamente todos os teólogos ou eruditos cristãos acreditavam que a terra era esférica. Essa é a opinião erudita cristã era quase unânime.

 

Macróbio (400) foi um dos mais influentes escritores sobre geografia do começo do medievo; há sérias dúvidas se ele era cristão, mas não há dúvidas que ele cria numa terra esférica (e influenciou toda cristandade).

 

Isidoro de Servilha (636), o enciclopedista mais amplamente lido do início do medievo e arcebispo de Servilha acreditava tanto numa terra esférica que deu até uma estimativa da circunferência terrestre; o mapa desse post, feito no ano de 776, foi baseado em suas obras.

 

Aliás, praticamente todos os 1100 mapas que temos feitos da Terra do séc. 8 até o 15, só fazem sentido dentro de uma terra esférica.

 

Virgílio de Salzburg, bispo irlandês no séc. 8, defendia uma terra esférica; Beda, historiador e naturalista, afirmou que a terra é um globo.

 

No século 9, o maior filósofo do inicio do medievo, John Scotus, defendia que a terra era redonda;

 

Dois grandes teólogos, São João Damascena e Basílio de Cesaréia, defendiam uma terra redonda.

 

O gigante Santo Agostinho, a maior influência da cristandade medieval, defendia claramente uma terra redonda.

 

Nesta lista nem vou colocar cristãos do quilate de São Tomás de Aquino, Dante, Buridan, Bacon e Oresme – todos defendiam em uníssono uma terra esférica.

 

O papa citado por Gleiser, Silvestre II, foi um dos maiores matemáticos e astrônomos da história; ele não apenas cria numa terra esférica, como também, em seu tempo livre, era encontrado construindo esferas de madeira e depois pintando um mapa da Terra sobre elas! Você já ouviu falar na esfera armiliar (https://pt.wikipedia.org/wiki/Esfera_armilar)? Pois é: era o hobby desse papa.

 

Durante o período citado por Gleiser, Lactâncio, Cosmo Indicopleustes e Severino de Gabala eram os únicos cristãos que defendiam uma terra plana. Não fique envergonhado se você nunca ouviu falar nesses nomes: eles eram uns desconhecidos no medievo e alguns deles foram repreendidos por cristãos eruditos por ter tal crença.

 

Então, por que Gleiser, professores universitários, intelectuais, livros didáticos e tantos outros insistem em retratar que os cristãos medievais acreditavam numa terra plana?

 

Uma hipótese: para essa turma, a idade média é a idade das trevas; e a epistemologia cristã é “claramente” absoleta, ultrapassada e supersticiosa – como a Dança do Universo pinta ‘bem’. Além disso, a visão de uma terra plana é esquisita, estranha ao mundo moderno. Assim, é “natural, “obvio”, “normal”, “certo” que os cristãos medievais eram tão tolos e supersticiosos que É CLARO QUE ELES ACREDITAVAM EM ALGO TÃO ESQUISITO COMO O DE QUE TERRA ERA PLANA.

 

O que me intriga é como pessoas que escrevem tão bem sobre a história da ciência (Marcelo Gleiser) caíam numa erro tão crasso; pessoas que exigem precisão científica no ensino de ciência (Gleiser chama de criminoso professor do fundamental que ensina criacionismo), não adotam a mesma precisão quando estão falando sobre história da ciência.

 

Gleiser não precisava nem ter lido fontes primárias: caso ele tivesse ido a C S Lewis, David Lindberg, Jefrey Russel, Jay Gould ou Ronald L. Numbers ele teria visto claramente que isso é apenas um mito.

 

Mas, que importa se Agostinho, Aquino, Dante, Silvestre II, Buridan, Scotus, Bacon, Isidoro de Servilha, São João Damascena, Basílio de Cesaréia e Beda acreditavam numa terra esférica? Os famosos Lactâncio e Cosmo Indicopleustes não defendiam que a terra era plana?

 

Esse é um daqueles casos que não importa a evidência aqui: ela é apenas um obstáculo bobo para retratar o que de fato se quer: cristãos são suficientemente ignorantes e inimigos do conhecimento para pensar que o mundo era plano. E isso aconteceu na idade média!

 

Narrativa é tudo!

 

Referências

Gleiser, Marcelo. Dança do Universo. São Paulo: Cia das Letras, 2006.

Gould, Stephen Jay. Dinossauro no Palheiro. São Paulo: Cia das Letras, 1997.

Lewis, C S. A Imagem Descartada. São Paulo: ERealizações, 2015.

Numbers, Ronald. Galileu na Prisão e outros mitos sobre ciência e religião. Lisboa: Gradiva, 2012.

Russel, Jeffrey. Inventando a Terra Plana. São Paulo: Editora Unisa, 1999.

 

Por Bruno Ribeiro

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